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quinta-feira, julho 31, 2008

A mensagem

"Quando alguém se cruza no nosso caminho, traz sempre uma mensagem para nós. Encontros fortuitos são coisa que não existe. Mas o modo como respondemos a esses encontros determina se estamos à altura de recebermos a mensagem"


James Redfield, in A Profecia Celestina
"A dúvida é o princípio da sabedoria."
Aristóteles

O INÍCIO


"Como tudo na vida: muitas vezes o difícil é começar.

Iniciar a caminhada através do novo. Do desconhecido.

Percorrer os caminhos iniciáticos e atravessar as paisagens inóspitas dentro de cada um de nós. Saborear o sabor da vertigem... aquele travo estranho que quase nos atropela por dentro... e que nos interpela, questionando os porquês de tudo e de todos.


Mas igualmente é bom arriscar.

Um livro novo - uma viagem. Um novo poema - porque não um momento de viragem?

Se "dar o início", se no fundo começar... significa um amanhecer, um novo acordar... porque não renascer. Porque não iniciar?"


E assim o será:

- Pois que sejam abertas as portas de todos os mistérios e seja então dado: O INÍCIO."



quarta-feira, julho 30, 2008

A fábula da águia e da galinha


Era uma vez uma águia que foi criada num galinheiro. Cresceu pensando que era galinha.
Era uma galinha estranha (o que a fazia sofrer).
Que tristeza, quando se via reflectida nos espelhos das poças d'água. Tão diferente!
O bico era grande demais, adunco, impróprio para catar milho, como todas as outras faziam.
Seus olhos tinham um olhar feroz, diferente do olhar amedrontado das galinhas, tão ao sabor do amor do galo. E era muito grande, atlética. Com certeza sofria de alguma doença...
E ela queria uma coisa só: ser uma galinha comum, como todas as outras.
Fazia um esforço enorme para isso.
Treinava ciscar com bamboleio próprio.
Andava meio agachada, para não se destacar pela altura.
Tomava lições de cacarejo.
E o que mais queria: que as suas fezes tivessem o mesmo cheiro familiar e acolhedor das fezes das galinhas. O seu era diferente, inconfundível.
Aconteceu que, um dia, um alpinista, que se dirigia para o cume das montanhas, passou por ali. Alpinistas são pessoas que gostariam de ser águias. Não podendo, fazem aquilo que chega mais perto: sobem, a pés e mãos, até as alturas, onde elas vivem e voam. E ficam lá, olhando para baixo, imaginando que seria muito bom se fossem águias e pudessem voar.
O alpinista viu a águia no galinheiro. E assustou-se.
- O que é que você, águia, está fazendo no meio do galinheiro? - perguntou.
Ela pensou que fosse caçoada e ficou brava.
- Não me goze. Águia é a vovozinha. Sou galinha de corpo e alma, embora não pareça.
- Galinha coisa nenhuma - replicou o alpinista. - Você tem bico de águia, olhar de águia, rabo de águia, fezes de águia...é águia. Deveria estar voando...
E apontou para minúsculos pontos negros no céu, muito longe, águias que voam, perto dos picos das montanhas.
- Deus me livre. Tenho vertigem das alturas. Me dá tonteira. O máximo, para mim, é o segundo degrau do poleiro – respondeu ela.
Assim, fim de papo. Agarrou a águia e a enfiou dentro de um saco.
E continuou a marcha para o alto das montanhas.
Chegando lá, escolheu o abismo mais fundo, abriu o saco e sacudiu a águia no vazio.
Ela caiu. Aterrorizada, debateu-se furiosamente, procurando algo a que se agarrar. Mas não havia nada. Só lhe sobravam as asas...
E foi então que algo novo aconteceu. Do fundo do seu corpo galináceo, uma águia, há muito tempo adormecida e esquecida, acordou, se apossou das asas e, de repente, ela voou...

Rubens Alves - Estórias de Bichos - Edições Loyola, São Paulo

Escrever

"Um diário. Uma carta. Ou simplesmente as memórias. Nós lemo-las com um prazer diferente de uma obra de arte ou mesmo da arte que está nelas. Não é bem o de saber o que aconteceu, mas o de estarmos nós acontecendo nisso, de prolongarmos a nossa vida até lá."


Vergílio Ferreira, in Diário Inédito


O homem culto é apenas mais culto. Nem sempre é mais inteligente que o homem simples.

Hermann Hesse

terça-feira, julho 29, 2008

"O ser humano transforma-se de acordo com o que pensa. Somos frutos de nossas obras."

Cervantes - 1547

Celebro a V ida, antes e depois de mim

Celebro a V ida, antes e depois de mim!...

Quando já cá não estivermos, depois da nossa morte, acontecerão, com certeza, muitas coisas das quais gostaríamos de fazer parte (se nos fosse dada a oportunidade)…. Viagens, passeios, encontros ou reencontros, nascimentos, casamentos, festas, conquistas, mudanças…

Mas para quê preocuparmo-nos com isso!?... Realmente não vale a pena!!!...
Faremos parte de algumas, na memória daqueles que nos conheceram, nos sonhos que agora temos e povoam o futuro…
Talvez até o nosso espírito seja parte de todos os momentos que virão… Talvez!

Quantas memórias tenho do tempo em que ainda não era eu!
De histórias que me contaram, fotos que vi, imagens que criei, cheiros do passado que sinto no presente, emoções, sabores, alegrias!...
Memórias que me mostram como somos imensos, muito além do nosso corpo!
Sem princípio nem fim!

Celebro a V ida, antes e depois de mim!...

Como gostava de ter estado presente, só para ver, no dia em que os meus pais se viram pela primeira vez, ou na festa da sua união…
Talvez tenha estado lá, sem saber, semente do que seria!
Tantas memórias que tenho, que não são minhas, sendo minhas também!

Porquê temermos a morte, se não tememos o nascimento?!….
Serão então o mesmo, partes do mesmo, ilusões de principio e fim?!
Começos que são recomeços… Recomeços que são começos!

Celebro a V ida, antes e depois de mim!...


Dinamene

segunda-feira, julho 28, 2008


"Os nossos pais amam-nos porque somos seus filhos, é um facto inalterável. Nos momentos de sucesso, isso pode parecer irrelevante, mas nas ocasiões de fracasso, oferecem um consolo e uma segurança que não se encontram em qualquer outro lugar."

Bertrand Russell

Ver claro

Toda a poesia é luminosa,
até a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol,nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede

domingo, julho 27, 2008

A consequência dos semáforos


Odeio os semáforos. Em primeiro lugar porque estão sempre vermelhos quando tenho pressa e verdes quando não tenho pressa, sem falar do amarelo que provoca em mim uma indecisão horrível: travo ou acelero? travo ou acelero? travo ou acelero? acelero, depois travo, volto a acelerar e ao travar de novo já me entrou uma furgoneta pela porta, já se juntou uma data de gente na esperança de sangue, já um tipo de chave-inglesa na mão saiu da furgoneta a chamar-me Seu camelo, já a companhia de seguros me propõe calorosamente que a troque por uma rival qualquer, já não tenho carro por uma semana, já me ponho na borda do passeio a fazer sinais de náufrago aos táxis, já pago um dinheirão por cada viagem e ainda por cima tenho de aturar o pirilampo mágico e a Nossa senhora de alumínio no tablier, o esqueleto de plástico pendurado no retrovisor, o autocolante da menina de cabelos compridos e chapéu ao lado do aviso "Não fume que sou asmático", proximidade que me leva a supor que os problemas respiratórios se acentuaram devido a alguma perfídia secreta da menina que não consigo perceber qual seja.

A segunda e principal razão que me leva a odiar os semáforos é porque de cada vez que paro me surgem no vidro da janela criaturas inverosímeis: vendedores de jornais, vendedores de pensos rápidos, as senhoras virtuosas com uma caixa de metal ao peito que nos colam autoritariamente sobre o coração o caranguejo do Cancro, os matulões da Liga dos Cegos João de Deus nas vizinhanças de um altifalante sobre uma camioneta com um espadalhão novo em folha em cima, o sujeito digno a quem roubaram a carteira e que precisa de dinheiro para o comboio do Porto, o tuberculoso com o seu atestado comprovativo, toda a casta de aleijões (microcefálicos, macocefálicos, coxos, marrecos, estrábicos divergentes e convergentes, mãos com seis dedos, mãos sem dedo nenhum, mongolóides, dirigentes de partidos políticos, etc.).

sem contar o grupo dos Bombeiros Voluntários que necessita de uma ambulância, os finalistas de Coimbra, de capa e batina, que decidiram fazer uma viagem de curso à Birmânia e a rapaziada da heroína que não conseguiu roubar nenhum leitor de cassetes nesse dia.
resultado: no primeiro semáforo já não tenho trocos. No segundo não tenho casaco. No terceiro não tenho sapatos. No quinto estou nu. No sexto dei o Volkswagen. No sétimo aguardo que a luz passe a encarnado para assaltar por meu turno, de mistura com uma multidão de bombeiros, de estudantes, de drogados e de microcéfalos o primeiro automóvel que aparece. Em média mudo cinco vezes de vestimenta e de carro até chegar ao meu destino, e quando chego, ao volante de um camião TIR, a dançar numas calças enormes, os meus amigos queixam-se de eu não ser pontual.

António Lobo Antunes, Algumas Crónicas.

sábado, julho 26, 2008

Dos livros..

“(...)Declinava o verão, e compreendi que o livro era monstruoso. De nada me serviu considerar que não menos monstruoso era eu, que o percebia com olhos e o apalpava com dez dedos com unhas. Senti que era um objeto de pesadelo, uma coisa obscena que infamava e corrompia a realidade. Pensei no fogo, mas temi que a combustão de um livro infinito fosse igualmente infinita e sufocasse com fumaça o planeta. Lembrei haver lido que o melhor lugar para ocultar uma folha é um bosque. (...)"
Jorge Luís Borges

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil

Existem almas que diria terem elas próprias um corpo, mesmo que estando elas com esse corpo dentro do corpo, aprisionadas, como imaginaria Platão ou cada um de nós naqueles dias em que o sol é bastante mais denso que o nevoeiro, que de súbito até é mais respirável e leve que aquele azul com que nos entretemos a pensar que será uma qualidade do infinito, nos momentos de alegria ou coisa assim de mais triste volume que o de costume.
Essas almas orgânicas sofrerão mais decerto, ou confundirão porventura, a esperança com a esperança.
Porque é de longa lista, a esperança, e no meio delas todas há mais umas que outras, pelo facto de estarem inseridas no tempo ou fora dele.

O primeiro dia


O que o acordou foi o silêncio. Primeiro, o do despertador que não tocou à hora combinada todas as manhãs. Depois, o de outra respiração, que devia ouvir e não ouvia. Estendeu a mão para o quente do outro lado da cama e encontrou o frio. Apalpou e encontrou vazio. Então, sim, despertou completamente.Um prenúncio de tragédia desceu por ele abaixo, como um arrepio. O que acabara de se lembrar era que não acordara só por acaso ou por acidente: aquele era o primeiro dia, a primeira manhã da sua separação — o primeiro de quantos dias? — em que acordaria sempre sozinho, com metade da cama fria, metade do ar por respirar.Era Abril, sábado e chovia. Sentado na cama, lembrou-se das instruções que dera a si mesmo para aquela manhã: fazer peito forte à desgraça. Nada é inteiramente bom, mas nada é inteiramente mau - pensou. Posso ler à noite até me apetecer sem me mandarem apagar a luz, posso dormir atravessado na cama, posso-me livrar daquele rol de cobertores com o qual ela me esmagava, fizesse sol, chuva ou frio, porque as mulheres são mais friorentas que eu sei lá, posso usar a casa-de-banho todo o tempo que quiser, posso espalhar as roupas, os jornais e os papéis pelo quarto à vontade e até - oh, suprema liberdade — posso fumar à noite na cama.Levantou-se para se olhar ao espelho da casa-de-banho. Sorriu à sua própria imagem, ensaiou-a calma, tranquila, confiante. Imaginou mentalmente o texto que poderia redigir sobre si mesmo para a secção de anúncios pessoais do jornal: “Divorciado, 40 anos, bom aspecto, licenciado, rendimento médio-alto, casa própria e espaçosa, desportos, ar livre, terno e com sentido de humor”. Mulheres compatíveis? Deus do céu, dezenas delas! Sou um partidão — concluiu para o espelho.Calmo, tranquilo e confiante, passou aos outros aposentos da casa para dar uma vista de olhos ao resultado da partilha dos móveis, aliás feita sem grandes problemas, como é próprio de gente civilizada. Por alto, entre o living, o hall, o escritório, a cozinha, o quarto de casal e as duas casas-de-banho, estimou nuns setecentos contos o preço da reposição das coisas em falta. Mais metade dos livros e dos CD's, quase todas as fotografias dos últimos dez anos das suas vidas e algumas outras coisas cujo verdadeiro valor era o vazio que encontrava se olhasse para o lugar onde elas costumavam estar.“Até agora vou-me aguentando”, considerou ele. Entre perdas e danos e a certeza adquirida de que nada dura para sempre, restavam-lhe várias razões e objectos e sentimentos para olhar em frente sem um sobressalto.Enquanto fazia, com um prazer insuspeitado, o seu primeiro pequeno-almoço de homem só, passou à fase seguinte do que chamara o “plano de sobrevivência”: desfolhar a agenda de telefones em busca de amigos igualmente sós com quem fazer “programas de homens” ou de antigas namoradas, que se tinham separado ultimamente ou outras que achava acessíveis mas que nunca tivera a coragem e a oportunidade de aproximar. A primeira desilusão foi com os amigos: de A a Z, realizou que só tinha dois amigos sem mulher e, para agravar as coisas, com nenhum deles lhe apetecia sair e entrar numa de “anda daí e mostra-me lá como é o mundo lá fora”. Quanto às mulheres que julgava sortables, sempre eram cinco, mas o resultado foi quase patético. Duas já não moravam naqueles telefones, outra tinha-se casado entretanto, e o marido estava ao lado a ouvir a conversa, o que o deixou completamente idiota a inventar pretextos absurdos para o telefonema. Do número da quarta atendeu uma criancinha e ele desligou e foi só na última da lista que finalmente teve sorte: sim, a Joana morava ali, era ela própria ao telefone. Não, não estava casada nem, pelo que, esforçadamente, percebeu, tinha namorado. Sim, ok, por que não irem jantar logo, para falar do projecto que ele tinha e onde ela poderia caber. “Ah, a tua mulher não vem? Separados? Não, não sabia. Recente? Pois, essas coisas são tão chatas, mas ainda bem que reages e tens projectos novos e tudo! Ok, às oito e meia vens-me buscar”. Ele teria desligado quase em êxtase, não fosse a frase final dela, à despedida, que o deixou verdadeiramente abalado. “Olha, vais-me achar uma grande diferença. A idade não perdoa a ninguém, não é?”Enfim, sempre era um date. O primeiro, certamente, de uma longa lista. O que interessa se for um flop — achas que ias encontrar uma mulher super logo ao virar da esquina? É preciso é entrar no circuito, pá, começar a sair, a ser visto, fazer com que as pessoas saibam que estás disponível. O resto vem por arrasto.Passeou-se pela casa, pensativo, fumando o primeiro cigarro do dia. De repente lembrou-se que ainda não tinha visto o quarto do filho. A cama e a escrivaninha tinham ido, assim como praticamente todos os brinquedos. Sobrava um boneco de peluche, três ou quatro carrinhos semi-partidos, uns legos e um quadro para fazer desenhos, com os respectivos marcadores, pousados, à espera de uma mão de criança. A mesa-de-cabeceira ficara e parecia absurda no meio do quarto, sem a cama nem os outros móveis, com um retrato dele e do filho numa praia do Algarve, sorrindo, abraçados um ao outro. Sem saber porquê, sentou-se no chão encostado à parede, muito devagar, a olhar para a fotografia. Duas grossas lágrimas escorregaram-lhe pela cara abaixo e caíram na madeira do chão, entre as pernas. Foi só então que ele percebeu que estava a chorar.
Miguel Sousa Tavares

sexta-feira, julho 25, 2008

Prémio Camões


António Lobo Antunes recebe Prémio Camões

O Prémio, o mais importante para autores de língua portuguesa, atribuído ao romancista em Março de 2007, pelo conjunto da sua obra, foi entregue no âmbito da Cimeira da CPLP, pelo Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, e pelo Presidente do Brasil, Lula da Silva.
Instituído em 1988, pelos governos de Portugal e do Brasil, o Prémio Camões é anualmente outorgado a autores cuja obra contribua para o enriquecimento do património literário e cultural da língua portuguesa.
O júri da 19ª edição do Prémio, constituído por Fernando J.B. Martinho e Maria de Fátima Marinho (Portugal), Letícia Malard e Domicio Proença Filho (Brasil), João Melo (Angola) e Francisco Noa (Moçambique), justificou, na altura, a distinção a Lobo Antunes pela “mestria em lidar com a língua portuguesa, aliada à mestria em descortinar os recessos mais inconfessáveis do ser humano, transformando-o num exemplo de autor lúcido e crítico da actualidade literária”.
Recorde-se que toda a obra de António Lobo Antunes está editada na Dom Quixote que, este ano, publicará o seu novo romance – O Arquipélago da Insónia.


in, Portal da Literatura

Borges e eu

Ao outro, a Borges, é que acontecem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e demoro-me, talvez já mecanicamente, na contemplação do arco de um saguão e da cancela; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo o seu nome num trio de professores ou num dicionário biográfico. Agra­dam-me os relógios de areia, os mapas, a tipografia do século XVIII, as etimologias, o sabor do café e a prosa de Stevenson; o outro comunga dessas preferências, mas de um modo vaidoso que as converte em atribu­tos de um actor. Seria exagerado afirmar que a nossa relação é hostil; eu vivo, eu deixo-me viver, para que Borges possa urdir a sua literatura, e essa literatura justifica-me. Não me custa confessar que conseguiu certas páginas válidas, mas essas páginas não me podem salvar, talvez porque o bom já não seja de alguém, nem sequer do outro, mas da linguagem ou da tradição. Quanto ao mais, estou destinado a perder-me definitivamen­te, e só algum instante de mim poderá sobreviver no outro. Pouco a pouco vou-lhe cedendo tudo, ainda que me conste o seu perverso hábito de falsificar e magnificar. Espinosa entendeu que todas as coisas querem perseverar no seu ser; a pedra eternamente quer ser pedra, e o tigre um tigre. Eu hei-de ficar em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas reconheço-me menos nos seus livros do que em muitos outros ou no laborioso toque de uma viola. Há anos tratei de me livrar dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora são de Borges e terei de imaginar outras coisas. Assim, a minha vida é uma fuga e tudo perco, tudo é do esquecimento ou do outro.
Não sei qual dos dois escreve esta página.

Textos seleccionados/Jorge Luís Borges

Viver sempre também cansa

Viver sempre também cansa.
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul,nitidamente azul,
ora é cinza, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
Discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...

E obrigam-nos a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo..."

José Gomes Ferreira, in Poesia I (1948)

quinta-feira, julho 24, 2008

" A mentira é o único processo para convencer os outros de que somos como eles nos querem. Como se vê, os culpados são os mentidos, os que não acreditam em mentiras."

José de Almada-Negreiros, Orpheu I

AZUL


O azul é a mais profunda das cores: nele o olhar penetra sem encontrar obstáculo e perde-se no infinito. O azul é exacto, puro e frio. O azul é a mais fria de todas as cores, e, no seu valor absoluto, a mais pura.A cor azul suaviza, abre e desfaz as formas.
Uma superfície pintada de azul já não é uma superfície, um muro azul deixa de ser um muro. Os movimentos e os sons, bem como as formas, desaparecem no azul, confundem-se com ele, esvaem-se nele como uma ave no céu. É o caminho do infinito, onde o real se transforma em imaginário. Acaso não é o azul a cor da ave da felicidade, o pássaro azul, inacessível e no entanto tão próximo?

Entrar no azul é um pouco como Alice no País das Maravilhas: passar para o outro lado do espelho. O azul é o caminho do sonho.
Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, in Dicionário dos Símbolos, Teorema (adaptado)

quarta-feira, julho 23, 2008

As asas crescem devagar




Quando eu era pequena, a minha maior alegria era semear coisas. Semeava tudo: caroços de laranja, de nêsperas, pevides de melão, raízes ínfimas de violetas, pétalas de cravo, olhinhos amarelos de malmequer.Semeava nos vasos, nos canteiros da escola e, sobretudo, debaixo duma nespereira enorme que havia no quintal da minha casa de infância. As sementes transformavam-se.Primeiro eram folhas tenras, depois, plantas que cresciam, às vezes trepavam, às vezes... não acontecia nada.
Um dia o meu canário morreu. Logo,não percebi muito bem o que lhe tinha acontecido. Depois descobri que alguma coisa diferente, silenciosa, fria e inesperada, interrompia a vida. Então, fui também semear o canário.Durante dias e dias aguardei, debaixo da nespereira, que o canário voltasse. Primeiro, seria o bico. Depois, os olhinhos e, depois ainda, um voo rápido e uma canção.

Passaram-se muitos anos. Quando olho lá para trás sei que descobri que a vida é um milagre. Semear qualquer coisa que fique, que cresça, que deixe um sinal, mesmo pequenino, deve ser o sentido dos nossos dias. E, em certas horas, ainda acredito que o canário voltará. É talvez uma semente que demora um pouco mais que as outras porque tem asas e as asas crescem devagar. Mas eu sei, tenho a certeza que um dia, de repente, no alto duma árvore qualquer eu avistarei essa ave. E conto com vocês que me lêem para me ajudarem a descobri-la. Está bem?

Maria Rosa Colaço, in De que são Feitos os Sonhos, Areal
"Quando os negros se unirem, os brancos e os chineses também o farão. Mas é preciso que os negros façam isso primeiro."

Bob Marley

terça-feira, julho 22, 2008

"Coisa horrível é pensar ser professor, quem nunca foi discípulo.”

Fernando de Rojas

COLEGIAL

Em cima da minha mesa,
Da minha mesa de estudo,
Mesa da minha tristeza
Em que, de noite e de dia,
Rasgo as folhas, leio tudo
Destes livros em que estudo,
E me estudo
(Eu já me estudo...)
E me estudo,
A mim
Também,

Em cima da minha mesa,
Tenho o teu retrato, Mãe!
À cabeceira do leito,
Dentro dum lindo caixilho,
Tenho uma Nossa Senhora
Que venero a toda a hora...

Ai minha Nossa Senhora
Que se parece contigo,
E que tem, ao peito,
Um filho
(O que ainda é mais estranho)
Que se parece comigo,
Num retratinho,
Que tenho,
De menino pequenino...!

No fundo da minha alma,
Mesmo lá no fundo, a um canto,
Não lhes vá tocar alguém,
(Quem as lesse, o que entendia?
Do que nos comove a nós...)
Já tenho três maços, Mãe,
Das cartas que tu me escreves
Desde que saí de casa...
Três maços -e nada leves!-
Atados com um retrós...

Se não fora eu ter-te assim,
A toda a hora,
Sempre à beirinha de mim,
(Sei agora
Que isto de a gente ser grande
Não é como se nos pinta...)
Mãe!, já teria morrido,
Ou já teria fugido,
Ou já teria bebido
Algum tinteiro de tinta!

José Régio

segunda-feira, julho 21, 2008

"É mais importante a maneira de dar, do que aquilo que se dá. "

P. Corneille

domingo, julho 20, 2008

“Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta.”


Albert Einstein

O poeta

"Deixai-o passar,
porque ele vai onde vós não ides;
vai ainda que zombeis dele, que o calunieis,
que o assassineis; vai, porque é espírito,
e vós sois matéria."

Almeida Garrett

sábado, julho 19, 2008

"A vingança não vai reduzir ou prevenir o mal, porque ele já aconteceu."


Dalai Lama

Das relações Auersbergerianas

"(...) Durante algum tempo vamos com pessoas numa direcção, depois despertamos e viramos-lhes as costas. Fui eu que lhes virei as costas, não elas a mim, pensei eu. Corremos durante anos atrás delas e mendigamos a sua amizade, pensei eu, e uma vez que temos a sua amizade, já essa amizade não nos interessa mais. Fugimos delas, elas alcançam-nos e apoderam-se de nós e nós submetemo-nos a elas, a cada uma das suas ordens, pensei eu, e nelas nos abandonamos, até que ou morremos ou nos evadimos. Fugimos delas e elas alcançam-nos e esmagam-nos. Corremos atrás delas, imploramo-lhes que nos recolham e elas recolhem-nos e matam-nos. Ou procuramos evitá-las desde o princípio e conseguimos evitá-las durante toda a vida, pensei eu. Ou caímos na sua armadilha e sufocamos. Ou escapamos-lhes e difamamo-las, caluniamo-las, propalamos mentiras sobre elas, pensei eu, para nos salvarmos caluniamo-las,onde quer que possamos, para delas nos salvarmos, fugimos delas para defesa da nossa vida e acusamo-las por toda a parte de serem elas as culpadas de tudo o que nos acontece. Ou elas escapam-se-nos e caluniam-nos e acusam-nos,propalam toda a espécie de mentiras sobre nós, para se salvarem, pensei eu. Julgamos que já estamos mortos e encontramo-las e elas salvam-nos, mas nós não lhes ficamos agradecidos por isso, por nos terem salvo,pelo contrário, amaldiçoamo-las, odiamo-las por isso, perseguimo-las toda a nossa vida com o nosso ódio, por nos terem salvo. Ou insinuamo-nos na sua intimidade, elas repelem-nos, nós vingamo-nos e caluniamo-las, dizemos mal delas por toda a parte, perseguimo-las com o nosso ódio em última instância até à sepultura. Ou elas ajudam-nos no momemto decisivo e nós odiamo-las, porque elas nos ajudaram, como elas nos odeiam, porque nós as ajudamos, pensei eu na poltrona de orelhas. (...)"

in: Derrubar árvores - uma irritação, Thomas Bernhard, Assírio e Alvim, 2007

ENQUANTO

Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
para ver como é;
enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
e correr pelos interstícios das pedras,
pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;
enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
órfãs de pais e de mães,
andarem acossadas pelas ruas
como matilhas de cães;
enquanto as árvores tiverem de interromper o seu canto
com o coraçãozinho débil a saltar-lhes o peito fremente,
num silêncio de espanto
rasgado pelo grito da sereia estridente;
enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
amassando na mesma lama do extermínio
os ossos dos homens e as traves das suas casas;
enquanto tudo isso acontecer, e mais que se não diz por ser verdade,
enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,
o poeta escreverá com alcatrão nos muros das cidades:

ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA

António Gedeão

sexta-feira, julho 18, 2008

ELOGIO AO AMOR

Quero fazer o elogio do amor puro.
Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade.
Já ninguém quer viver um amor impossível.
Já ninguém aceita amar sem uma razão.
Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática.Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado.Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido.Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em 'diálogo'.
O amor passou a ser passível de ser combinado.
Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões.
O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem.
A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível.
O amor tornou-se uma questão prática.O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam 'praticamente' apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego,do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há,estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.
Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do 'tá tudo bem,tudo bem', tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.

Já ninguém se apaixona?Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso 'dá lá um jeitinho sentimental'.Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso.Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja.Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade.

Amor é amor.É essa beleza. É esse perigo.O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes.Tanto pode como não pode.Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor.A 'vidinha' é uma convivência assassina.O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino.O amor puro é uma condição.Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima.O amor não se percebe.Não dá para perceber. O amor é um estado de quem se sente.O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar.A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.O amor é uma verdade.É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal.Que se invente e minta e sonhe o que quiser.

O amor é uma coisa, a vida é outra.A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida.A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre.
Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente.O coração guarda o que se nos escapa das mãos.E durante o dia e durante avida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor,o amor que se lhe tem. Não é para perceber.
É sinal de amor puro não se perceber,amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz.Não se pode ceder. Não se pode resistir.A vida é uma coisa, o amor é outra.A vida dura a vida inteira, o amor não.Só um mundo de amor pode durar a vida inteira.E valê-la também.

A poesia

"A poesia é a verdade transformada em sentimento. A lei descoberta por Newton tanto pode ser exemplificada num livro de Física como cantada num livro de versos"


Guerra Junqueiro
"Nenhum homem que tenha vivido conhece mais sobre a vida depois da morte que eu ou você. Toda religião simplesmente desenvolveu-se com base no medo, ganância, imaginação e poesia."
Edgar Allan Poe

quinta-feira, julho 17, 2008


Se caíres sete vezes, levanta-te oito.

Provérbio chinês

A nossa razão

"Nós vagueamos sobre um vasto "mundo", sempre cheios de incertezas e indecisões, empurrados dum lado para outro. Qualquer coisa, a que julguemos poder agarrar-nos e segurar-nos, oscila e abandona-nos, e se procurarmos segui-la, escapa aos nossos esforços, esvai-se numa fuga eterna. Este é o estado próprio à nossa natureza, mas contrário às nossas ânsias: ardemos de ansiedade por encontrar "terra" firme (...) mas as fundações despedaçam-se e a terra abre-se até ao abismo.
Não procuremos segurança nem estabilidade. A nossa razão é constantemente atraiçoada pela inconstância das aparências. Nada pode fixar o finito entre dois infinitos (o infinitamente grande e o infinitamente pequeno) que a aprisionam e lhe escapam."

Pascal, Pensées

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil

Hoje vi um filho de uma poeta (não gosto de poetisa).
A certa altura, no meio do seu grupo de amigos já em despedida, isolou-se pelos olhos, e estando de costas para mim não os via, mas pela posição das mãos a afundar as calças em gravidade, o porte abandonado virado para o extenso relvado, a solidão súbita de quem se perde em pensamentos no meio das ideias dos já ali ao lado, percebi que naquele momento poderia estar a poemar a vida como se tivesse ligado o motor do ser, e se estivesse ampliando ainda no entanto estando tolhido no momento. E pensei, eis ali um poeta. Porque segui-o até ao longe e bem vi como se remava pelo passeio e expirava as saudades que um cego pode ter da inatingível cor, como ele de algo que eu imaginava.
Para o Miguel S.T.

quarta-feira, julho 16, 2008

A Poesia


Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa,um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor.

E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia. E a busca de justiça é desde sempre uma coordenada fundamental de toda a obra poética (...)

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Posfácio", in Obra Poética II, Ed.Caminho, 1998

Celebro-me e canto-me


Celebro-me e canto-me,
E aquilo que assumo tu deves assumir,
Pois cada átomo que a mim pertence a ti pertence também.

Vagueio e convido a minha alma,
À vontade vagueio e inclino-me a observar a erva do Verão.
A minha língua, cada átomo do meu sangue, composto deste solo, deste ar,
Aqui nascido de pais aqui nascidos de outros pais aqui nascidos,

e dos seus Pais também,

Eu, aos trinta e sete anos, de perfeita saúde começo,
Esperando que só a morte me faça parar.

Suspensos os credos e as escolas,
Retiro-me por certo tempo, deles saturado mas não esquecido,
Sou o porto do bem e do mal, e seja como for falo,
Natureza sem obstáculos com a sua energia original.


Walt Whitman

(Excerto de «Canto de mim mesmo» traduzido por José Agostinho Baptista)

"O verdadeiro progresso social tem de medir-se pelos adiantamentos espirituais, não pelos materiais."

C. Fernandez

terça-feira, julho 15, 2008

Esta velha angústia


Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas,em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.

Um internado num manicómio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicómio sem manicómio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...

Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu tecto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.
Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer -
Júpiter, Jeová, a Humanidade -
Qualquer serviria,
pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!

Álvaro de Campos
Os sem incorporação de alfabeto
Escrevem coisas com os olhos estampados
Na superfície de todas as geometrias possíveis
Inscritas noutras coisas
Que por eles descascadas
Se tornam férteis.
É isso, a inteligência.

in: Caixinha com rodas, nº9, Col Homem do Saco, Ed GEIC, 2005

AS PALAVRAS


As palavras
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,

Eugénio de Andrade

"O dinheiro é como um sexto sentido sem o qual não poderíamos utilizar os outros cinco."

William Somerset Maugham

segunda-feira, julho 14, 2008

"Walt Whitman"

Sonhar é porventura a capacidade que mais distingue o homem dos outros animais. Mas também o homem se distingue do homem: por aquilo que sonha, pela obra feita e pela grandeza do seu imaginário. Todos sonhamos com viagens impossíveis ao país do sonho e da imaginação. O espírito criador é aquele que traz consigo, em si, na sua imanente transcendência, uma geografia onírica, um bestiário privado, um roteiro e mapa secreto, sobre os quais ele ergue o mito, a criação e o canto de si mesmo.
(“I celebrate myself, and sing myself! And what I assume you shall assume, for every atome belonging to me as good belongs to you.”
in Song of myself )

JOÃO DE MELO “Dicionário de paixões”

"O problema neste mundo, é que os idiotas têm imensas certezas e as pessoas sensatas imensas dúvidas."

Bertrand Russell

domingo, julho 13, 2008

A Civilização

Toda a gente culta lamenta que, nos países civilizados, ainda haja muitos seres humanos que não sabem ler. Parece-nos isto uma vergonha para a Civilização. De facto o é. Poucos, todavia, de entre toda esta gente culta, chegam a meditar um pouco sobre as vantagens e desvantagens de saber ou não saber ler.
A primeira vantagem de saber ler -primeira, por ser a que imediatamente ocorre a qualquer pessoa - é de ordem prática. Evidente se torna que, neste nosso mundo moderno, o analfabeto está praticamente inibido de muitas coisas. Mas outra vantagem - talvez não menos importante - oferece a leitura, que é a de abrir o acesso à cultura. Analfabetos há que, pela experiência da vida, pelo trato com os homens, pelos dons naturais, adquirem aquele grau de cultura já implicada. E homens há que sabem ler, mas não sabem dispor dessa estupenda vantagem, e então ficam como que analfabetos, apesar de saberem ler.

José Régio, in O Grito, nº5, de 1 de Abril de 1960
Quem decide um caso sem ouvir a outra parte, não pode ser considerado justo, ainda que decida com justiça.


Séneca

sábado, julho 12, 2008


Não procures o caminho da paz; a paz é o caminho.


Mahatma Gandhi

sexta-feira, julho 11, 2008

A paz vem de dentro de ti próprio, não a procures à tua volta.

Buda

O bicho-homem


Estou aqui a ver trabalhar o meu vizinho latoeiro. Estou daqui, maravilhado, a vê-lo fazer um púcaro.
Este bicho-homem, espiolhado por dentro, é medonho. É o sexo, é o estômago, é a ambição, é tudo quanto sabemos. Mas olhado de fora, a tocar piano ou a compor um relógio, é um espectáculo assombroso. A perfeição a que podem chegar as suas mãos não tem confronto com nada. A gente pensa nas abelhas, nos pássaros, nos bichos-da-seda, e aquilo sabe a lição que Deus Nosso Senhor ensinou, com a recomendação de nunca mais se esquecer.
No homem, pelo contrário, ao primeiro e feliz movimento dos dedos seguiu-se uma segunda tentativa. De tal maneira que, de pura estaca de apoio, a sua mão passou a esse polimorfismo, capaz de na mesma hora dar tecnicamente uma fisga e um avião.

Miguel Torga, Diário I, 1941

quinta-feira, julho 10, 2008

Não pensar


Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer coisa
Que tem que ver com haver gente que pensa...

Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me coisas...
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente...
Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas coisas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar, tenho a Terra e o Céu.

Alberto Caeiro



A vida ideal consiste em ter bons amigos, bons livros e uma consciência sonolenta.

Mark Twain

O poema e a alquimia


"O génio é uma alquimia. O processo alquímico é quádruplo: 1) putrefacção; 2) albação; 3) rubificação; 4) sublimação. Deixam-se, primeiro, apodrecer as sensações; depois de mortas embranquecem-se com a memória; em seguida rubificam-se com a imaginação; finalmente, se sublimam pela expressão."



Fernando Pessoa

quarta-feira, julho 09, 2008

Fenda da Tundavala, Angola (2005)
Foto:g.ludovice

"Os trópicos corroem o verniz de Cambridge e de Oxford. Deves saber que lá, na Inglaterra,, todos os ingleses que passaram um período mais longo nos trópicos são suspeitos. Respeitam-nos, reconhecem-nos, mas são suspeitos. Tenho a certeza de que nas suas fichas dos registos secretos há uma nota que diz "Trópicos". Como se dissesse "Sífilis". Ou "Espionagem".Toda a gente que passou um tempo mais longo nos trópicos é suspeita, porque apesar de ter jogado golfe e ténis, de ter bebido whisky na alta sociedade (...) e de ter aparecido de tempos a tempos nas recepções do governador de smoking ou de uniforme, com medalhas ao peito, é suspeito. Porque passou por esse contágio terrível, ao qual é impossível a gente habituar-se e em que há algo fascinante, como em todos os perigos da vida. Os trópicos são uma doença. É possível a gente curar-se das doenças tropicais, mas dos trópicos nunca. (...) Todos ficam contagiados. (...) Lá a paixão está escondida na vida, tal como o tornado se esconde atrás dos pântanos, entre as montanhas e florestas. Paixões de todo o género. Por isso, para o inglês insular, toda a gente que vem dos trópicos é suspeita. Não se pode saber o que há no seu sangue, no seu coração, nos seus nervos. Já não é um europeu simples, de certeza. Não de todo. De nada serve se assinou revistas europeias, se leu tudo no meio dos pântanos, todas as ideias que tinham sido escritas e pensadas nos úiltimos séculos.. de nada serve, se preservou aquelas maneiras particulares, meticulosamente cuidadosas, que o homem dos trópicos resguarda entre os seus companheiros brancos, como um alcoólico presta atenção aos seus modos numa festa: comporta-se de um modo demasiado rígido para que não seja possível notar-se a sua paixão, é perfeitamente brando, correcto e bem educado... Mas no seu íntimo é diferente. (...)"


Sándor Márai, As velas ardem até ao fim
Escritor húngaro (1900/1989)

Quitandeira

A quitanda.
Muito sol
e a quintandeira à sombra
da mulemba.
- Laranja, minha senhora,
laranjinha boa!
A luz brinca na cidade
o seu quente jogo
de claros e escuros
e a vida brinca
em corações aflitos ~
o jogo da cabra-cega.
A quitandeira
que vende fruta
vende-se.
- Minha senhora laranja, laranjinha boa!
Compra laranjas doces
compra-me também o amargo
desta tortura
da vida sem vida.
Compra-me a infância do espírito
este botão de rosa
que não abriu
princípio impelido ainda para um início.
Laranja, minha senhora!
Esgotaram-se os sorrisos
com que chorava
eu já não choro.
E aí vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos
amassado no pó das estradas
enterrado nas roças
e o meu suor
embebido nos fios de algodão
que me cobrem.
Como o esforço foi oferecido
à segurança das máquinas
à beleza das ruas asfaltadas
de prédios de vários andares
à comodidade de senhores ricos
à alegria dispersa por cidades
e eu
me fui confundindo
com os próprios problemas da existência.
Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.
Tudo tenho dado.
Até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-os aos poetas.
Agora vendo-me eu própria.
- Compra laranjas
minha senhora!
Leva-me para as quitandas da vida
o meu preço é único:
- sangue.
Talvez vendendo-me
eu me possua.
-Compra laranjas!

Agostinho Neto

A sabedoria da vida não está em fazer-se o que se gosta, mas gostar do que se faz.


Leonardo da Vinci

terça-feira, julho 08, 2008

Grito negro



Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.

Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder, sim
e queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou o carvão
tenho de andar na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
Tenho que arder
queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu serei o teu carvão, patrão!

José Craveirinha, Antologia Temática de Poesia Africana, I
É possível ter riqueza e cultivar o sentimento de desprendimento, como é possível ganhar evidência sem com isso perder o sentido da humildade, como é possível conceber o poder como um instrumento a que se acede para servir os outros. O essencial é o sentido íntimo dos nossos actos.
António Pinto Leite

segunda-feira, julho 07, 2008

"Adeus à hora da largada"

Minha Mãe (todas as mães negras cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar como esperaste nas horas difíceis
Mas a vida matou em mim essa mística esperança
Eu já não espero
sou aquele por quem se espera
Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos partidos para uma fé que alimenta a vida.
Hoje somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados
a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico
somos os teus filhos dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz eléctrica
os homens bêbedos a cair abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos com fome com sede com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas com medo dos homens nós mesmos
Amanhã entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos a data da abolição desta escravatura
Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe (todas as mães negras cujos filhos partiram)
Vão em busca de vida.

Agostinho Neto, Sagrada Esperança




"Aos cinco anos queria ser pintora e sabia que o seria. Não era especialmente dotada. Era obstinada."

Vieira da Silva

domingo, julho 06, 2008

Casa tomada


Gostávamos da casa porque, além de ser espaçosa e antiga (as casas antigas de hoje sucumbem às mais vantajosas liquidações dos seus materiais), guardava as lembranças de nossos bisavós, do avô paterno, de nossos pais e de toda a nossa infância.

Acostumamo-nos Irene e eu a persistir sozinhos nela, o que era uma loucura, pois nessa casa poderiam viver oito pessoas sem se estorvarem. Fazíamos a limpeza pela manhã, levantando-nos às sete horas, e, por volta das onze horas, eu deixava para Irene os últimos quartos para repassar e ia para a cozinha. O almoço era ao meio-dia, sempre pontualmente; já que nada ficava por fazer, a não ser alguns pratos sujos. Gostávamos de almoçar pensando na casa profunda e silenciosa e em como conseguíamos mantê-la limpa. Às vezes chegávamos a pensar que fora ela a que não nos deixou casar. Irene dispensou dois pretendentes sem motivos maiores, eu perdi Maria Esther pouco antes do nosso noivado. Entramos na casa dos quarenta anos com a inexpressada idéia de que o nosso simples e silencioso casamento de irmãos era uma necessária clausura da genealogia assentada por nossos bisavós na nossa casa. Ali morreríamos algum dia, preguiçosos e toscos primos ficariam com a casa e a mandariam derrubar para enriquecer com o terreno e os tijolos; ou melhor, nós mesmos a derrubaríamos com toda justiça, antes que fosse tarde demais.

Irene era uma jovem nascida para não incomodar ninguém. Fora sua atividade matinal, ela passava o resto do dia tricotando no sofá do seu quarto. Não sei por que tricotava tanto, eu penso que as mulheres tricotam quando consideram que essa tarefa é um pretexto para não fazerem nada. Irene não era assim, tricotava coisas sempre necessárias, casacos para o inverno, meias para mim, xales e coletes para ela. Às vezes tricotava um colete e depois o desfazia num instante porque alguma coisa lhe desagradava; era engraçado ver na cestinha aquele monte de lã encrespada resistindo a perder sua forma anterior. Aos sábados eu ia ao centro para comprar lã; Irene confiava no meu bom gosto, sentia prazer com as cores e jamais tive que devolver as madeixas. Eu aproveitava essas saídas para dar uma volta pelas livrarias e perguntar em vão se havia novidades de literatura francesa. Desde 1939 não chegava nada valioso na Argentina. Mas é da casa que me interessa falar, da casa e de Irene, porque eu não tenho nenhuma importância. Pergunto-me o que teria feito Irene sem o tricô. A gente pode reler um livro, mas quando um casaco está terminado não se pode repetir sem escândalo. Certo dia encontrei numa gaveta da cômoda xales brancos, verdes, lilases, cobertos de naftalina, empilhados como num armarinho; não tive coragem de lhe perguntar o que pensava fazer com eles. Não precisávamos ganhar a vida, todos os meses chegava dinheiro dos campos que ia sempre aumentando. Mas era só o tricô que distraía Irene, ela mostrava uma destreza maravilhosa e eu passava horas olhando suas mãos como puas prateadas, agulhas indo e vindo, e uma ou duas cestinhas no chão onde se agitavam constantemente os novelos. Era muito bonito.

Como não me lembrar da distribuição da casa! A sala de jantar, lima sala com gobelins, a biblioteca e três quartos grandes ficavam na parte mais afastada, a que dá para a rua Rodríguez Pena. Somente um corredor com sua maciça porta de mogno isolava essa parte da ala dianteira onde havia um banheiro, a cozinha, nossos quartos e o salão central, com o qual se comunicavam os quartos e o corredor. Entrava-se na casa por um corredor de azulejos de Maiorca, e a porta cancela ficava na entrada do salão. De forma que as pessoas entravam pelo corredor, abriam a cancela e passavam para o salão; havia aos lados as portas dos nossos quartos, e na frente o corredor que levava para a parte mais afastada; avançando pelo corredor atravessava-se a porta de mogno e um pouco mais além começava o outro lado da casa, também se podia girar à esquerda justamente antes da porta e seguir pelo corredor mais estreito que levava para a cozinha e para o banheiro. Quando a porta estava aberta, as pessoas percebiam que a casa era muito grande; porque, do contrário, dava a impressão de ser um apartamento dos que agora estão construindo, mal dá para mexer-se; Irene e eu vivíamos sempre nessa parte da casa, quase nunca chegávamos além da porta de mogno, a não ser para fazer a limpeza, pois é incrível como se junta pó nos móveis. Buenos Aires pode ser uma cidade limpa; mas isso é graças aos seus habitantes e não a outra coisa. Há poeira demais no ar, mal sopra uma brisa e já se apalpa o pó nos mármores dos consoles e entre os losangos das toalhas de macramê; dá trabalho tirá-lo bem com o espanador, ele voa e fica suspenso no ar um momento e depois se deposita novamente nos móveis e nos pianos.

Lembrarei sempre com toda a clareza porque foi muito simples e sem circunstâncias inúteis. Irene estava tricotando no seu quarto, por volta das oito da noite, e de repente tive a idéia de colocar no fogo a chaleira para o chimarrão. Andei pelo corredor até ficar de frente à porta de mogno entreaberta, e fazia a curva que levava para a cozinha quando ouvi alguma coisa na sala de jantar ou na biblioteca. O som chegava impreciso e surdo, como uma cadeira caindo no tapete ou um abafado sussurro de conversa. Também o ouvi, ao mesmo tempo ou um segundo depois, no fundo do corredor que levava daqueles quartos até a porta. Joguei-me contra a parede antes que fosse tarde demais, fechei-a de um golpe, apoiando meu corpo; felizmente a chave estava colocada do nosso lado e também passei o grande fecho para mais segurança.

Entrei na cozinha, esquentei a chaleira e, quando voltei com a bandeja do chimarrão, falei para Irene:

— Tive que fechar a porta do corredor. Tomaram a parte dos fundos.

Ela deixou cair o tricô e olhou para mim com seus graves e cansados olhos.

— Tem certeza?

Assenti.

— Então — falou pegando as agulhas — teremos que viver deste lado.

Eu preparava o chimarrão com muito cuidado, mas ela demorou um instante para retornar à sua tarefa. Lembro-me de que ela estava tricotando um colete cinza; eu gostava desse colete.

Os primeiros dias pareceram-nos penosos, porque ambos havíamos deixado na parte tomada muitas coisas de que gostávamos. Meus livros de literatura francesa, por exemplo, estavam todos na biblioteca. Irene pensou numa garrafa de Hesperidina de muitos anos. Freqüentemente (mas isso aconteceu somente nos primeiros dias) fechávamos alguma gaveta das cômodas e nos olhávamos com tristeza.

— Não está aqui.

E era mais uma coisa que tínhamos perdido do outro lado da casa.

Porém também tivemos algumas vantagens. A limpeza simplificou-se tanto que, embora levantássemos bem mais tarde, às nove e meia por exemplo, antes das onze horas já estávamos de braços cruzados. Irene foi se acostumando a ir junto comigo à cozinha para me ajudar a preparar o almoço. Depois de pensar muito, decidimos isto: enquanto eu preparava o almoço, Irene cozinharia os pratos para comermos frios à noite. Ficamos felizes, pois era sempre incômodo ter que abandonar os quartos à tardinha para cozinhar. Agora bastava pôr a mesa no quarto de Irene e as travessas de comida fria.

Irene estava contente porque sobrava mais tempo para tricotar. Eu andava um pouco perdido por causa dos livros, mas, para não afligir minha irmã, resolvi rever a coleção de selos do papai, e isso me serviu para matar o tempo. Divertia-nos muito, cada um com suas coisas, quase sempre juntos no quarto de Irene que era o mais confortável. Às vezes Irene falava:

— Olha esse ponto que acabei de inventar. Parece um desenho de um trevo?

Um instante depois era eu que colocava na frente dos seus olhos um quadradinho de papel para que olhasse o mérito de algum selo de Eupen e Malmédy. Estávamos muito bem, e pouco a pouco começamos a não pensar. Pode-se viver sem pensar.

(Quando Irene sonhava em voz alta eu perdia o sono. Nunca pude me acostumar a essa voz de estátua ou papagaio, voz que vem dos sonhos e não da garganta. Irene falava que meus sonhos consistiam em grandes sacudidas que às vezes faziam cair o cobertor ao chão. Nossos quartos tinham o salão no meio, mas à noite ouvia-se qualquer coisa na casa. Ouvíamos nossa respiração, a tosse, pressentíamos os gestos que aproximavam a mão do interruptor da lâmpada, as mútuas e freqüentes insônias.

Fora isso tudo estava calado na casa. Durante o dia eram os rumores domésticos, o roçar metálico das agulhas de tricô, um rangido ao passar as folhas do álbum filatélico. A porta de mogno, creio já tê-lo dito, era maciça. Na cozinha e no banheiro, que ficavam encostados na parte tomada, falávamos em voz mais alta ou Irene cantava canções de ninar. Numa cozinha há bastante barulho da louça e vidros para que outros sons irrompam nela. Muito poucas vezes permitia-se o silêncio, mas, quando voltávamos para os quartos e para o salão, a casa ficava calada e com pouca luz, até pisávamos devagar para não incomodar-nos. Creio que era por isso que, à noite, quando Irene começava a sonhar em voz alta, eu ficava logo sem sono.)

É quase repetir a mesma coisa menos as conseqüências. Pela noite sinto sede, e antes de ir para a cama eu disse a Irene que ia até a cozinha pegar um copo d'água. Da porta do quarto (ela tricotava) ouvi barulho na cozinha ou talvez no banheiro, porque a curva do corredor abafava o som. Chamou a atenção de Irene minha maneira brusca de deter-me, e veio ao meu lado sem falar nada. Ficamos ouvindo os ruídos, sentindo claramente que eram deste lado da porta de mogno, na cozinha e no banheiro, ou no corredor mesmo onde começava a curva, quase ao nosso lado.

Sequer nos olhamos. Apertei o braço de Irene e a fiz correr comigo até a porta cancela, sem olhar para trás. Os ruídos se ouviam cada vez mais fortes, porém surdos, nas nossas costas. Fechei de um golpe a cancela e ficamos no corredor. Agora não se ouvia nada.

— Tomaram esta parte — falou Irene. O tricô pendia das suas mãos e os fios chegavam até a cancela e se perdiam embaixo da porta. Quando viu que os novelos tinham ficado do outro lado, soltou o tricô sem olhar para ele.

— Você teve tempo para pegar alguma coisa? — perguntei-lhe inutilmente.

— Não, nada.

Estávamos com a roupa do corpo. Lembrei-me dos quinze mil pesos no armário do quarto. Agora já era tarde.

Como ainda ficara com o relógio de pulso, vi que eram onze da noite. Enlacei com meu braço a cintura de Irene (acho que ela estava chorando) e saímos assim à rua. Antes de partir senti pena, fechei bem a porta da entrada e joguei a chave no ralo da calçada. Não fosse algum pobre-diabo ter a idéia de roubar e entrar na casa, a essa hora e com a casa
tomada.

Julio Cortázar


O texto acima foi publicado originalmente em "Bestiario" e extraído do livro "Contos Latino-Americanos Eternos", Bom Texto Editora, Rio de Janeiro — 2005, pág. 09, organização e tradução de Alicia Ramal.

Um mestre sufi contava sempre uma parábola no final de cada aula , mas os alunos nem sempre entendiam o seu sentido…
− Mestre – perguntou ele certo dia −, tu contas-nos contos, mas nunca nos explicas o que significam…
− As minha desculpas – disse o mestre. Como compensação, deixa-me que te ofereça um belo pêssego.
− Obrigado, mestre – disse o discípulo, comovido.
− Mais ainda: como prova do meu afecto−, queria descascar-te o pêssego. Permites que o faça?
− Sim, muito obrigado − disse o discípulo.
− E, já que tenho a faca na mão, não gostarias que eu cortasse o pêssego em pedaços, para que te seja mais fácil comê-lo?
− Sim, mas não quero abusar da tua generosidade, mestre…
− Não é um abuso; sou eu que me estou a oferecer. Quero apenas agradar-te. Permite-me também que mastigar o pêssego antes de to oferecer…
− Não, mestre! Não gostaria que fizesses isso! – queixou-se o discípulo, surpreendido.

O mestre fez uma pausa e disse:
− Se vos explicasse o sentido de cada conto, seria como dar-vos a comer fruta mastigada.

Jorge Bucay, Contos para pensar
"Todas as neuroses começam quando procuramos ser quem não somos."


Jorge Bucay, Contos para pensar

sábado, julho 05, 2008

Sê inteiro


Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis

Do tempo..

Viena de Aústria, 2008
Foto:G.Ludovice

O comboio do tempo é um comboio que vai desenrolando os seus próprios carris à sua frente.
O rio do tempo é um rio que arrasta consigo as suas margens.
Quem viaja com eles move-se entre paredes firmes sobre chão firme; mas o chão e as paredes acompanham, com o seu movimento, o movimento vivo dos viajantes. (...)

in: O homem sem qualidades, Robert Musil, D.Quixote, 2008

Com tão pouca coisa se constrói o mundo

Três dias no Porto, num hotel da Foz, com uma nesguinha de mar na janela. À noite, mesmo com as luzes do quarto apagadas, um halo de milagre sobre a cama, um dia mais secreto, mais íntimo, a modelar as coisas e os corpos. A claridade vinda não sei donde, da pele talvez, transfigurava tudo, as almofadas inchavam de luz, cada prega do lençol desfazia-se e refazia-se numa cadência de onda. O silêncio da rua que o silêncio da chuva, de tempos a tempos, aumentava, acrescentando palavras às vozes. Meu Deus, como com tão pouco se constrói o mundo. Uma mulher com duas canas de pesca enterradas na areia, a apanhar sei lá o quê do chão, limos parecia-me, e a jogá-los para longe. O vento feito de propósito para nos desarrumar o cabelo, deixando o resto do mundo em paz. Água cor de farda, barquitos. O charutinho do Zé Francisco espetado no queixo, a dar-lhe um ar de rebocador que transportava navios invisíveis atrás dele. Autógrafos na feira do livro, caras que não vou esquecer. Um sorriso numa cadeira, ao longe: com tão pouca coisa se constrói o mundo. Por exemplo com a gaivota que se passeava nos charcos de um penedo. Por exemplo com um sorriso que põe a boca entre parênteses, e por cima do sorriso um par de sobrancelhas góticas. Entre a boca e as sobrancelhas a região autónoma do nariz, com o seu governo próprio: com pouca coisa, realmente, se constrói o mundo. Não renego nada do que fui e, no entanto, a impressão de nascer: uma doçura que desconhecia. Uma tranquila certeza. O livro que estou a escrever mudou conforme os dias mudaram. Apesar de ser muito difícil torná-lo fácil vem vindo página a página com alegria. A imensa ternura que há em nós, uma plenitude absoluta. Dantes disperso como um rebanho sou um agora. E precisei de imensos anos
(não vou referir-me ao sofrimento, não me julgo no direito de me referir ao sofrimento)
para alcançar isto. Pertence-me. E mais nada importa.
Acabaram-se os três dias no Porto, é segunda-feira e chove. Não chovem nuvens apenas: chovem lembranças antigas, um piano, velhos cheiros quase esquecidos, o louco que vendia passarinhos a conversar consigo mesmo, era eu pequeno. Recuso a ideia que morreu, preciso dos seus gestos sem nexo, das discussões com a própria sombra. Chovem as pobres poesias que compunha aos sete anos, a mão não sei de quem
(uma pessoa crescida que não vejo)
a poisar-me no ombro. Chove a Beira Alta. Chovo eu a começar a Memória de Elefante, roidinho de medo de não ser capaz. Chove o moinho do jardim, as casas que construíram no lugar da quinta. A bicicleta que nunca tive, com mudanças e tudo. Chove o cabo da Guarda que me admoestava
– Rapaz
sem eu ter feito nada. Chovem existências anónimas, importantíssimas. Chovem as árvores lá fora, um pássaro perdido. Chove no Porto, em Torres Novas, na Figueira da Foz. Chove em todos os sítios em que estivemos. E, por dentro da chuva, a clara luz do dia. Começo a entender aquilo de que não tinha ideia, a habituar-me à esperança, à certeza. O padre que disse a missa de corpo presente do meu pai declarou que não fomos feitos para a morte. Agora sei que não fomos feitos para a morte, padre, julgava que éramos perecíveis, não nos sabia eternos. Mesmo a rapariga que viajou até à Áustria para acabar perto da irmã, ela que não possuía mais ninguém. A horrível injustiça disto. Qual é a cor da esperança? Verde? Hoje entrei numa merceariazita para comprar cigarros. Nunca lá vi fosse quem fosse excepto o dono, um senhor delicado. Tudo muito limpo e ninguém. Disse-lhe
– Obrigado
e ele, do fundo da sua solidão
– Obrigado nós.
A que nós se referia? Se calhar está rodeado de gente que a minha cegueira não permite ver.
– Obrigado nós.
como se fosse o Papa ou um rei. E de imediato os olhos para baixo, no balcão, atento como os xadrezistas. Vontade de ficar por ali à procura do nós, perguntar
– Você é o nós?
perguntar
– Onde param os outros?
Mas faltou-me coragem. Às sete desce os taipais, vai-se embora. Os outros, que compõem o nós, irão com ele? Ficam lá, no escuro, murmurando? É uma rua de travestis debruçados para os automóveis, alguns com cadeirinhas de bebé no banco de trás. O que procuram aqueles homens? Pensões miseráveis, corredores com uma lâmpada, tem-te não caias, ao fundo. Há um travesti que nenhum cliente aborda, a mostrar o peito enorme à indiferença dos automóveis, horas seguidas. Mesmo no inverno, com frio. Sem dinheiro para acabar na Áustria. Os clientes dos automóveis com cadeirinhas de bebé serão capazes de olhar as mulheres ao chegarem a casa? Serão capazes de estar com elas sem vergonha? A teia de mentiras de que a maior parte das relações é feita. Uma espécie de náusea em mim, de nojo. Qual espécie. Náusea em mim, nojo. Não compreendo. As cadeirinhas de bebé não me largam a ideia. Não distingo as feições não escuto as conversas. Caricaturas horríveis de mulheres. Como podem aqueles tipos encarar-se no espelho? Pelos vistos podem. Não conhecem de certeza um halo de milagre sobre a cama, um dia mais secreto, mais íntimo, a modelar as coisas e os corpos. As almofadas inchando de luz, cada prega do lençol a desfazer-se e a refazer-se numa cadência de onda, ignoram que com muito pouco se constrói o mundo. Explica-lhes que com muito pouco se constrói o mundo. Tu sabes. Já sabias antes de saber que sabias. Segreda-lhes.
– O mundo constrói-se com muito pouco
enquanto a mulher das duas canas de pesca
(nunca tinha visto uma mulher pescar sozinha)
vai atirando os limos para longe. Atira os clientes dos travestis também. As cadeiras de bebé, essas ficam. E o halo de milagre que há-de permanecer para sempre.
António Lobo Antunes
"Crer-se no progresso não significa que tenha tido lugar qualquer progresso."


Franz KafKa

sexta-feira, julho 04, 2008

O cantor

Um pássaro foi atingido com um tiro na asa direita e passou por isso a voar na diagonal.
Mais tarde foi atingido na asa esquerda e viu-se obrigado a deixar de voar, utilizando apenas as duas patas para andar no chão.
Mais tarde foi atingido por uma bala na pata esquerda e passou por isso a andar na diagonal.
Uma outra bala atingiu-o, semanas depois, na pata direita, e o pássaro deixou de poder andar.
A partir desse momento dedicou-se às canções.

in: O Senhor Brecht, Gonçalo M.Tavares, ed.Caminho