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terça-feira, novembro 04, 2008

Berlim
Foto:G.Ludovice 2008

Todas as grandes paixões são sem esperança, de outra forma, não seriam paixões, apenas acordos, compromissos razoáveis, trocas de interesses banais (...) No fundo de cada relação humana existe uma matéria palpável, e por muitos que sejam os argumentos e habilidades, essa realidade não muda (...) a paixão não argumenta com palavras da razão.
Sandór Márai, As velas ardem até ao fim

quarta-feira, julho 09, 2008

Fenda da Tundavala, Angola (2005)
Foto:g.ludovice

"Os trópicos corroem o verniz de Cambridge e de Oxford. Deves saber que lá, na Inglaterra,, todos os ingleses que passaram um período mais longo nos trópicos são suspeitos. Respeitam-nos, reconhecem-nos, mas são suspeitos. Tenho a certeza de que nas suas fichas dos registos secretos há uma nota que diz "Trópicos". Como se dissesse "Sífilis". Ou "Espionagem".Toda a gente que passou um tempo mais longo nos trópicos é suspeita, porque apesar de ter jogado golfe e ténis, de ter bebido whisky na alta sociedade (...) e de ter aparecido de tempos a tempos nas recepções do governador de smoking ou de uniforme, com medalhas ao peito, é suspeito. Porque passou por esse contágio terrível, ao qual é impossível a gente habituar-se e em que há algo fascinante, como em todos os perigos da vida. Os trópicos são uma doença. É possível a gente curar-se das doenças tropicais, mas dos trópicos nunca. (...) Todos ficam contagiados. (...) Lá a paixão está escondida na vida, tal como o tornado se esconde atrás dos pântanos, entre as montanhas e florestas. Paixões de todo o género. Por isso, para o inglês insular, toda a gente que vem dos trópicos é suspeita. Não se pode saber o que há no seu sangue, no seu coração, nos seus nervos. Já não é um europeu simples, de certeza. Não de todo. De nada serve se assinou revistas europeias, se leu tudo no meio dos pântanos, todas as ideias que tinham sido escritas e pensadas nos úiltimos séculos.. de nada serve, se preservou aquelas maneiras particulares, meticulosamente cuidadosas, que o homem dos trópicos resguarda entre os seus companheiros brancos, como um alcoólico presta atenção aos seus modos numa festa: comporta-se de um modo demasiado rígido para que não seja possível notar-se a sua paixão, é perfeitamente brando, correcto e bem educado... Mas no seu íntimo é diferente. (...)"


Sándor Márai, As velas ardem até ao fim
Escritor húngaro (1900/1989)