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segunda-feira, dezembro 15, 2008

Viagem à Terra Natal


Todos nós, conta a história, nascemos com metade do coração…
Muitos não sabemos, alguns não nos importamos e a vida prossegue a meio coração, meio feliz, meio contente.
Alguns, afortunados, encontram cedo a outra parte de si mesmos e vivem vidas partilhadas por muitos e longos anos.
Maria Terra, desde nova, decidiu ir em busca da sua outra metade, do seu meio coração, do verdadeiro Amor!... Assim que teve a idade necessária para caminhos independentes, despediu-se de todos (familiares e amigos), determinada, e lá foi, meio feliz… meio contente, à procura do ser que possuía a outra metade do seu coração.
Foram muitos os rumos escolhidos, os caminhos trilhados, as terras encontradas, as gentes conhecidas…
Fez amigos, inimigos talvez, foi muitas vezes alegre, outras tantas foi triste…
Procurou, procurou, até que se esqueceu que procurava
…com tanto que a vida lhe dava!
Sentia-se meio-benzinha, meio-preenchida, meio-realizada…
Saboreava a vida com o entusiasmo necessário para não procurar mais nada.
Teve um companheiro e filhos…
Viveu momentos tão felizes que chegou a acreditar que nada podia ser mais belo que o nascimento de um filho. Outros viveu, tão dolorosos, que chegou mesmo a pensar que nada seria mais triste que a perda de um amigo…
Assim, a vida foi passando. E depressa que a vida passa…
A cara enrugando, os cabelos clareando e o meio-coração mais só… Uma vez, meio-cansado, bateu tão devagar no peito de Maria Terra que esta, ao sentir lá dentro uma dor, foi a correr refrescar-se num lago limpo e belo perto da casa onde morava…
Ao olhar o lago, Maria Terra viu, não o seu reflexo, mas o rosto do velho amigo de infância, José Mar, que já não via desde que partira em busca de si mesma…
Atónita, olhou em volta, não havia ninguém…
Perplexa, olhou mais perto no lago e percebeu que os seus olhos reflectidos eram mesmo os dele, da sua metade-coração, da outra parte de si…
Mas…. Mas… Como não tinha percebido antes?! – questionava-se…



Aquele rapaz que sempre lhe sorrira e acenara com um brilho doce no olhar… Era, então, a parte que lhe faltava???....
Com um brilho salgado no olhar, Maria Terra foi a correr até casa, com a mão no peito, para que a metade do coração que tinha não lhe fugisse e, num grito feliz, anunciou à família:
“Vou de viagem à minha Terra Natal …”
Demorou vários dias e várias noites na longa viagem de regresso e reencontro consigo mesma. Quando lá chegou, ao pôr do sol, verificou que José Mar não vivia mais na mesma casa… Branca de cal e com barra azul-mar…
Indicaram-lhe então outra casa, lá bem em cima do monte, onde vivia o homem, a sua mulher e os três filhos de ambos.
Ainda vacilou antes de iniciar a subida pelo caminho íngreme, mas ao olhar a lua redonda e grande que nascia, ganhou uma força desconhecida e lá foi, percorrendo os últimos quilómetros da sua busca de uma vida inteira, que a levavam ao destino sonhado…
Ao chegar, já noite, parou em frente à casa pequena e branca, iluminada pelo luar… A porta abriu-se e de lá surgiu José Mar, que murmurou, sorrindo e acenando…
“Há anos que te esperava. Cheguei a acreditar que não voltavas…”
Num abraço de um minuto, que pareceu durar a eternidade, Maria Terra e José Mar foram um só.
Depois, contam, cada um seguiu a sua vida, que as vidas construídas não se destroem assim, como castelo de areia à beira-mar…
A partir daquele dia, ambos sabiam que, no espaço vazio da metade do coração, habitava uma luz, sempre acesa, uma estrela, talvez o Sol, recordando-lhes que nunca mais estariam incompletos.
Ainda ouvi dizer, pela boca dos tetra netos de Maria Terra, que, por vezes, Maria Terra e José Mar se encontravam em sítio desconhecido, perto do mar…
E que, nesses dias, quem estava na praia, à hora em que o dia dá lugar à noite, podia ver de um lado a Lua Cheia a Nascer e do outro o Sol Dourado a mergulhar no mar… E ouvia-se, além das ondas a tocar na areia, um bater de tambor ritmado e alegre, um coração …e um som melodioso, talvez de uma flauta, uma canção…

Dinamene


5 comentários:

didium disse...

Que conto tão belo!
Beleza na mensagem e nas tuas palavras, no encadear da história.
Gostei muito!
:)

solange disse...

Comovem-me sempre as tuas palavras, as tuas estórias, sobretudo pela forma como encadeias os acontecimentos e nos trasmites as tuas ideias. Temos aqui uma busca da alma-gémea. Será que há, de verdade, uma alma gémea para cada um de nós!!! Será que a vida, para alguns, só é meio feliz, meio divertida, meio realizada, porque ainda não encontraram a sua alma gémea?!
Este conto é, também, meio-provocatório, não?!
Muito belo, sim! Escreve mais!!!

dinamene disse...

Talvez para uns o meio coração seja mmo a alma gémea, para outros o seu trabalho, ou as suas lutas, os sonhos, ou os outros, a música, o mar, a poesia....

Se calhar o nosso coração está totalmente feliz quando temos todas as peças do puzzle!... E mmo assim poderá parecer que andamos sempre à procura de mais qualquer coisa.

Há quem acredite que a felicidade é o caminho...


Beijos

Obrigada pelos comentários;)

Jorge disse...

... por vezes, andam-mos com aquela musica no ouvido, uma melodia, um tilintar, uma ideia, um sentimento, algo muito forte, parece um soluçar, perdão antes parece um pulsar dentro de nós,...

solange disse...

corrijo - "transmites"!!!