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quarta-feira, setembro 10, 2008

EU, ÀS VEZES

E agora começa a anoitecer tão cedo. A minha mãe conta que quando era pequeno, três anos, quatro, cinco, sei lá, me tornava melancólico ao crepúsculo. Não me lembro disso mas é capaz de ser verdade porque o fim do dia sempre me trouxe, sei lá porquê, uma espécie de tristeza mansa, um desejo vago de coisas mais vagas ainda, uma inquietação doce, um estado de alma impossível de exprimir, não inteiramente agradável, não inteiramente desagradável, estranho apenas, um (como dizer?) sorriso com uma lágrima tranquila dentro, percebem? Tão difícil traduzir as emoções em palavras, é tão pobre o vocabulário que temos e vou-me consumindo nos livros a procurar exprimir isto.
Bom, voltando ao princípio dizia que começa a anoitecer tão cedo, as árvores do dia que nada têm a ver com as árvores da noite, misteriosas, densas, falando, falando, a engordarem de pássaros. Janelas iluminadas e eu a imaginar as vidas atrás das cortinas, por vezes, num intervalo, um relógio, uma pagela, um lustre que me assusta, vultos. Gestos femininos bonitos sempre, a delicadeza com que as mulheres tocam nos objectos, a harmonia dos dedos: somos pesados e sem graça, nós os homens, ao pé delas. Pesados, brutos, canhestros: não possuímos seja o que for de ave ou de nuvem, a nossa carne é densa e gaguejante. Dá-me uma paz de eternidade ver uma mulher numa casa, o modo como o seu corpo habita o espaço, a forma como vestem, de si mesmas, os compartimentos, com um simples passo, um simples olhar. E depois uma espécie de inocência primordial, de leveza habitável: devo ter sido muito feliz na barriga da minha mãe, por dentro da sua voz, do seu sangue. Faz noventa anos agora e continua com dezoito. Conta a história da família que foram obrigados a puxar-me com ferros, não queria sair: como eu me compreendo.
E as árvores da noite a murmurarem sem fim, os prédios muito mais altos, os sons de uma nitidez de cristal. Um velhote a subir a rua com um saco de plástico, a horrível solidão dos seus olhos, o abandono da roupa. A solidão tem um cheiro próprio que se sente à distância. Vivem em bicos de pés, como que a pedir desculpa. Este passa o tempo a beber cerveja no cafezito e percebe-se o nível da espuma pela cor das pálpebras. Senhor João. Mora com um bicho qualquer num buraco qualquer, não se lamenta, não se queixa: dura. Uma destas semanas vem a morte
- Tenha paciência senhor João e mete-o numa caixa, o pobre. Fica o saco de plástico no passeio: não fica nada, enquanto os gestos das mulheres vão colorindo o silêncio. Sorrio-lhe sempre
- Boa tarde senhor João a espuma das pálpebras procura-me, descobre-me, põe a custo sílabas umas atrás das outras
- Boa tarde senhor doutor e lá vai ele curvado, a arrastar os sapatos, metido no seu blusão sujo. Foi ajudante de pedreiro: o que é agora? Como dorme, como acorda? Noventa anos, a minha mãe, que número impossível. Porque diabo consentiu que o tempo passasse, diga lá? Pequenina, frágil, indefesa. Quase cega. O sorriso mudou, transformou-se num clima resignado, com uma chuvinha perpétua. A minha tradutora romena
- Estou em Lisboa
e sempre que ela está em Lisboa lembro-me de Bucareste, da estrada para Constança, no Mar Negro, dos corvos. O riso nunca alegre do poeta Dinu Flamand, que tive em casa no tempo de Alcoitão. Somos amigos, conhecemo-nos na Finlândia. Meu Deus, tão grande o mundo. Intermináveis florestas de abetos, ramos prateados. Um escritor para outro
- Não batas a portas abertas
eu que tenho passado o tempo a bater a portas abertas por timidez, por vergonha. A porta aberta e eu à entrada, com os nós dos dedos, tac tac. Gosto da expressão nós dos dedos, eles que não possuem nós. Gosto da expressão trinta por uma linha, que não sei de onde vem. Os corvos da estrada de Constança subiam verticalmente do trigo. Garotos miseráveis, ciganos. As cicatrizes da ditadura por todo o lado. E começa a anoitecer tão cedo? O que fará o senhor João depois de meter a chave na fechadura? O que faremos nós se a noite não acabar nunca? Convoco os meus mortos, os meus vivos, aqueço as mãos na saudade de ti, e aquecer as mãos na saudade de ti há-de chegar para eu ser feliz. As vidas além das cortinas iguais à minha? Diferentes? Compro um lustre assustador? Não compro? Cheio de pingentes de plástico, de vidro? Qual o meu nome verdadeiro por trás do António que as pessoas conhecem? Não tenho nome: sou estas mãos, este corpo, esta caneta que escreve. Agora veio-me à cabeça o cemitério em Abriga, a casinha, uma menina a brincar: fico a vê-la brincar, encantado. O que haverá de mais eterno que uma menina a brincar? Em todas as mulheres, até na minha mãe, vejo uma menina a brincar. Nunca brincou comigo, apetece-lhe brincar comigo, mãe? Não calcula os jogos que sei. Quero viver. Não faço ideia como isto apareceu na página mas quero viver. Sou tanta gente às vezes. As árvores à noite que não cessam, não cessam. Não morro nunca, pois não? Não morro nunca. Prometo. Não se preocupem comigo, já prometi. Num intervalo de cortinas um relógio, uma pagela, a fotografia emoldurada de um bombeiro. O avô da Mãe Clara era oficial de Marinha. A empregada nova a pasmar para o retrato
- Quem é?
a Mãe Clara
- O meu avô
a empregada, apreciadora
- Um homem elegante
e depois, com respeito
- E um belo polícia
e a Mãe Clara furiosa. Dirão isto de mim? Um belo polícia? Recordaste-te de mim fardado, filhinha? Fui um belo polícia também. A delicadeza com que as mulheres tocam nos objectos, a harmonia dos dedos. Não tenho jeito. Estendo a palma para ti e não tenho jeito: sou apenas um homem. Não se importa de me dar um bocadinho da sua cerveja, senhor João? Só um gole?
- Boa tarde senhor doutor
e cada um de nós com um saco de plástico a subirmos a rua. Até onde?

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