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domingo, agosto 31, 2008

Presença Africana

E apesar de tudo,
ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou,
a irmã-mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto!...
- A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendém
nascendo dos abraços
das palmeiras...
A do sol bom,
mordendo
o chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...
Sim!, ainda sou a mesma.
- A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11...Rua 11...)
pelos negros meninos
de barriga inchada
e olhos fundos...
Sem dores nem alegrias,
de tronco nu e musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força destes dias...
E eu revendo ainda
e sempre, nela,
aquela
longa historia inconsequente...
Terra!
Minha, eternamente...
Terra das acácias,
dos dongos,
dos cólios baloiçando,
mansamente... mansamente!...
Terra!
Ainda sou a mesma!
Ainda sou
a que num canto novo,
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu Povo!...
Alda Lara

sábado, agosto 30, 2008

A ironia em Fernando Pessoa

"Porque o facto significativo acerca dos portugueses é que eles são o povo mais civilizado da Europa. Eles nascem civilizados porque nascem aceitadores de tudo.(...)
Quando um português se vai deitar faz uma revolução porque o português que acorda na manhã seguinte é diferente. É precisamente um dia mais velho, um dia mais velho sem dúvida alguma.
Outros povos acordam todas as manhãs no dia de ontem; o amanhã está sempre a vários anos de distância. Mas não esta estranha gente. Move-se tão rapidamente que deixa tudo por fazer, incluindo ir depressa. Não há nada menos ocioso do que um português(...).

No que se refere à literatura portuguesa moderna, o melhor é virarmos a esquina quando ela aparece."


Fernando Pessoa, in "Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação"

sexta-feira, agosto 29, 2008

Viajar

"Um homem precisa viajar...
Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV.
Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu.
Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor.
E o oposto, sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto.
Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser.
Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos e simplesmente ir ver!"

Amyr Klink

NOX

Noite, vão para ti meus pensamentos,
Quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
Tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...

Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno Mal, que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece alguns momentos...

Oh! antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o Mundo, te esquecesses,

E ele, o Mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-ser!

Antero de Quental

quinta-feira, agosto 28, 2008

Gramática de superfície

Dresden
Foto:G.Ludovice 2008

Todos os conteúdos deste tema são dedicados ao fascinante filósofo da Linguagem, o austríaco Wittgenstein.

"Podia-me dizer, por favor, qual é o caminho que eu devo seguir? Isso dependerá muito do lugar que procura."
Lewis Carroll

Juventude e Velhice


Nada menos exacto do que supor que o talento constitui privilégio da mocidade. Não. Nem da mocidade, nem da velhice. Não se é talentoso por se ser moço, nem genial por se ser velho. A certidão de idade não confere superioridade de espírito a ninguém. Nunca compreendi a hostilidade tradicional entre velhos e moços (que aliás enche a história das literaturas); e não percebo a razão por que os homens se lançam tantas vezes reciprocamente em rosto, como um agravo, a sua velhice ou a sua juventude.

Ser idoso não quer dizer que se seja necessariamente intolerante e retrógrado; e engana-se quem supuser que a mocidade, por si só, constitui garantia de progresso ou de renovação mental. As grandes descobertas que ilustram a história da ciência e contribuíram para o progresso humano são, em geral, obra dos velhos sábios; e a mocidade literária, negando embora sistematicamente o passado, é nele que se inspira, até que o escritor adquire (quando adquire) personalidade própria.
(...) A mocidade, em geral, não cria; utiliza, transformando-o, o legado que recebeu. Juventude e velhice não se opõem; completam-se na harmonia universal dos seres e das coisas. A vida não é só o entusiasmo dos moços; nem só a reflexão dos velhos; não está apenas na audácia de uns, nem apenas na experiência dos outros; realiza-se pela magnífica integração das virtudes contrárias, sem a qual não seria possível, em todo o seu esplendor, a marcha da humanidade.

(...) Como admitir o divórcio entre novos e velhos - invenção antinatural dos conventículos literários de todos os tempos -, se os velhos têm nas novas gerações, penhor radioso do futuro, o instrumento de compreensão e de difusão da sua obra, e se os novos devem aos velhos a formação do seu espírito, a educação da sua sensibilidade e a opulenta capitalização de riquezas da língua em que se expressam?
A paz entre idades sucederá um dia, decerto, à paz entre as nações - quando a velhice egoísta reconhecer, finalmente, que não deve menosprezar os moços, antes facilitar-lhe o caminho da vida, e quando, por seu turno, a juventude impaciente chegar à convicção de que não é atropelando nem injuriando que se vence, e de que, quando os jovens se instalaram no planeta - já os velhos o habitavam.

Júlio Dantas, in 'Páginas de Memórias'

quarta-feira, agosto 27, 2008

A amizade

A melhor prova duma real amizade está em evitar os compromissos entre aqueles que se estimam. Ainda que devendo muito aos que muito me louvam, eu não quero ser-lhes obrigada pela gratidão. Mas sim grata porque estou com eles, devido a circunstâncias que a todos nós agradam e são um laço mais entre nós, sem constituírem um dever.
Eu pretendo dizer da amizade o que Diógenes dizia do dinheiro: que ele o reavia dos seus amigos, e não que o pedia. Pois aquilo que os outros têm pelo sentimento comum não se pede, é património comum. Neste caso, a amizade.

Agustina Bessa-Luís, in 'Dicionário Imperfeito'
"É tão arriscado acreditar em tudo, como não acreditar em nada."
Denis Diderot

terça-feira, agosto 26, 2008

Escrever é esquecer

Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e o representar) entretêm.

A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.

Fernando Pessoa, in 'Livro do Desassossego'

Meninas e meninos

Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de meninas e meninos
a defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de cadáveres de meninos e meninas
que morreram a defender a liberdade de armas na mão.
Todos já vimos!
E então?

Fernando Sylvan, Lá Longe a Paz
"Já tudo foi dito, mas como ninguém escuta é preciso dizer tudo novamente."
André Gide

segunda-feira, agosto 25, 2008

It seems to be a law of nature, inflexible and inexorable, that those who will not risk cannot win.

-John Paul Jones

domingo, agosto 24, 2008

BOOM FESTIVAL 2008 - reencontro comigo

LEGENDA: PÔR-DO-SOL NO BOOM FESTIVAL, AGOSTO 08
Pediste-me mana, pois aqui te dou:

"...39 anos depois de numa fazenda em Bethel - Nova Iorque, durante os dias 15, 16 e 17 de Agosto se ter realizado o mítico Festival de Woodstock, tive eu direito ao meu entre os dias 11 e 18 do também mês de Agosto mas não em 1969... em 2008.
Sem saber ao que ia, também assim foi o Boom: um encontro de culturas, sob o signo da liberdade. Sem maldade, sem a jogadinha escondida, sem a carta debaixo da manga. Olhos nos olhos, cara a cara. Como devia SEMPRE ser.
Afinal é possível ir aqui "mesmo ao lado", a Idanha a Nova e mudar completamente o paradigma. Continuar em Portugal num local paradisíaco, onde os (bons) portugueses são uma escassa percentagem. E onde desde asiáticos a africanos, de mais ou menos excêntricos... todos se dão bem.


É afinal ainda possível sentir a partilha e assumir valores como o da solidariedade presentes em todas as horas do dia. Ver simplesmente o pôr-do-sol, dançar como se não houvesse amanhã, nadar livremente, meditar, observar simplesmente quem passa ou fazer uma escultura com as pedras que temos à mão.


Ter sede e alguém oferecer-nos água, ter fome e haver logo uma peça de fruta por perto. Um "viajante" quem sabe tatuado da cabeça aos pés, ou vestido de elfo, ou com asas douradas como um anjo, ou com qualquer fantasia com a qual simpatizava, cruzar-se connosco educadamente e simplesmente sorrir.


E tantos sorrisos que me marcaram! E outros tantos devolvi...

Energia tão positiva que chegava ao ponto de ser telepática. Pensar em alguém que ainda não tínhamos visto e no meio de 40.000 pessoas e vários hectares de terreno, em segundos ela aparecer ao nosso lado... estranho? Não. Nesta pequena mostra de universo, também ali se percebia que o "mundo é de facto redondo"...


Encarar a nudez com a tremenda simplicidade de dar o direito a quem se quer despir para que se dispa, e a quem o não quer fazer, que o não faça. O mesmo aplicável ao consumo de substâncias psico-activas. Informação com fartura sobre os efeitos, acompanhamento médico e psicológico permanente, análise gratuita das substâncias para aferir do seu grau de pureza. Tudo sem considerações de valor. Sem ferir a liberdade de cada um.


Juntarem-se centenas, milhares de pessoas apenas para ver nascer ou "sair de cena" o sol... Mas também podermos estar sós naquele "momento só nosso" com a anuência e a compreensão de todos.

Sabermos que se uma mulher/homem nos olha, ou se olhamos para alguém, não é necessariamente um olhar em busca "daquele algo mais".


E sim, tocar... Musicalizar cada segundo que passa. Oferecer ritmos e notas soltas ao viajante do tempo e do espaço que talvez não mais volte a ver. E partilhar (como o fiz) o melhor solo de sempre, com aqueles que já possuem nível técnico elevado... mas também com os que ainda agora começaram a aprender. Fazê-lo não só com os instrumentos conventuais, mas com paus, com pedras, com latas, com garrafas e com tudo o que entretanto encontramos à mão... Observar uma multidão desconhecida, de todo o mundo mas substancialmente erudita e sabedora, bater-nos palmas e entusiasmar-se... e os nossos amigos comoverem-se.


E isso tem que mudar uma pessoa. Ou por outra... tem que remexer na nossa essência e trazê-la de volta. E lembrar que estamos vivos.


E que bela que é a vida! E o que fazer com ela? Ah pois é...

O reencontro comigo, diz-me que não podemos fugir do que nos faz felizes. Ou por outra... se o podemos, está nas nossas mãos não o fazer.


O papel do dinheiro nesta equação, não pode ser per si o objectivo. Que nos aprisiona, que nos controla as horas, que nos impele a fazer coisas que não gostamos, que nos conduz ao altar do ilusório.


O equilíbrio pois: PROCURA-SE. E esse, sim! Um são equilíbrio entre o material e o espiritual.

Entre percorrer o caminho e ganhar tempo. Entre viver em comunidade e encontrar também aquele espaço que é só nosso.


A missão sempre a soube. Hesitei na via. Mas não mais fugirei dela.

Sem precipitações mas igualmente sem claudicar.


Até porque o ser humano pode fazer mais que uma coisa ao mesmo tempo! ...Mas claro que para ser verdadeiramente genial e aproveitar toda a energia... deve no meu entender, dedicar-se na sua maioria "à escolhida".


Mas adiante. Neste já imenso solilóquio a mensagem que aqui pretendo deixar é a de:

- Uma vez descobrindo, não mais fujais de vós..."

A Idade do Divórcio


Devia haver uma idade para o divórcio como há para o casamento. As desilusões domésticas têm o seu tempo para se transformarem cicatrizes que vão desaparecendo com o passar dos anos. Por isso é que nos velhos casais há uma recordação da vida em comum que se assemelha à santidade. Contam peripécias leves e dão ao passado um colorido quase caricato pela força do distanciamento em que se encontram. A verdade é que sofreram os mesmos desenganos e turbulências que os jovens arrumam e põem de lado sem dar tempo a transformarem-nos em recalques.


Agustina Bessa-Luís, in 'Antes do Degelo'
1950


Being deeply loved by someone gives you strength; loving someone deeply gives you courage.

~ Lao Tzu

sábado, agosto 23, 2008

Gato que brincas na rua

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.


És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.


Fernando Pessoa

sexta-feira, agosto 22, 2008


"A minha Praia"

O Verão, o calor, as praias, as férias…
As férias?... as praias!
Cheias, a abarrotar, apinhadas.
Bolas de Berlim, bolas a saltar, gritos e gargalhadas, barulhos, burburinhos,
Areia pelo ar,
Gente, gente, gente
As praias superlotadas.
Há quem goste das praias assim,
mesmo que custe encontrar um espaço para a toalha
Ou que a nossa cabeça fique deitada perto do pé do vizinho
E há quem não goste…. E prefira o silêncio, o murmúrio do mar…
Também há quem nem sequer goste de praias…
A quem a areia faz comichão, o sol alergia e para quem o mar é paisagem.

As férias?... as praias!
Famílias, famílias inteiras
Com bóias, brinquedos, cremes e farnéis,
sombrinhas, toalhas, sacos, cadeiras,
Férias são férias,
E algum stress também, para não fugir totalmente à rotina.
Férias são férias, praia, gente, confusão…

As férias?... as praias!
Vermelhos, vermelhos ao sol…
Loiros, quase brancos, os cabelos,
Azul no mar, azul nos olhos fechados, dormindo deitados…
Vermelhos ou rosas, os corpos fervendo, ao sol!
Vêm de longe, onde o céu é cinzento e o sol envergonhado
Querem praia solário,
Querem levar um pouco de sol para o Inverno escuro do seu país,
Mesmo que isso lhes custe na pele, lhes queime o calor, vermelhos infernos.
Há quem queira a praia a assim, para torrar, e oiça "lá ao longe" o mar…

Felizes, felizes na água.
Boca a saber a sal, pequeninos os corpos
Roxos os lábios ignorando o frio do mar.
Meninos e meninas mergulhando, nadando, saltando e rindo.
Castelos na areia, buracos, bolos enfeitados de conchas.
As crianças querem a praia para brincar, sonhar, rir até fartar.

E a "minha praia"? Que saudades…
Gosto da praia para passear, para respirar…


Quem me dera caminhar, de novo, à beira mar,
sentir a brisa fresca e salgada
os pés pisando areia molhada.
Ai saudades de sentir esse amar,
Por todas as coisas, do céu e da terra
Amar puro, sem dor nem guerra
Por seres da areia, da água e do ar.

Quando vivia ao pé do mar, muitas vezes dirigia-me à praia,
nos meses do ano em que quase ninguém lá ia.
Fazia grandes caminhadas,
contemplando a beleza inigualável da praia ao amanhecer.
Ficava sempre a sentir-me parte de tudo aquilo,
ser em comunhão com o universo, parte de Deus.

Agora estou no campo, perto da cidade,
onde a brisa marinha não chega.
Onde os cheiros são outros e as cores muitas,
como um arco-íris de flores e de terra em exposição.
E que saudades da "minha praia"…
Por vezes falta-me a beleza da água a tocar o céu no infinito,
a luz clara do sol a tocar de dourado grãos de areia e de pessoa,
as aves debicando qualquer coisa quando a onda vai,
o meu reflexo difuso e brilhante quando a onda vem.
Então, lembro-me que trago dentro no peito, junto ao coração
um pouco da "minha praia"…
Trouxe-a comigo numa das muitas caminhadas que fiz à beira-mar.
Junto ao coração, como se lá guardasse grãos de areia e pedaços do mar.
Também na praia deixei pedaços de mim,
fios de cabelo, gotas de suor, cores dos meus pensamentos…
Por isso, mais que uma vez, amigos me disseram….
"Fui à praia, lembrei-me de ti"…
E alguns nunca estiveram lá comigo….
Talvez seja o mar, no seu marulhar, que aprendeu a sussurrar o meu nome.

Se algumas vezes me parece que estou longe de "coisas" que gosto…
Logo me apercebo que são "coisas" que trago junto ao coração e me pertencem,
e então não fico triste…
Distância aparente apenas, porque aquilo que importa está sempre junto de nós.

Para me reencontrar comigo própria, é para lá que vou
(em pensamento, porque vivo no campo),
fecho os olhos e dirijo-me à praia… Vou lá, ver o mar.
Vou e sinto aquela alegria pura, infantil,
de quem se encontra de novo no seu "esconderijo" secreto,
no seu espaço de união consigo próprio,
aquela alegria palpitando,
aquele contemplar sereno,
aquela comunhão com o Universo….

Ai saudades de sentir esse amar,
Por todas as coisas, do céu e da terra
Amar puro, sem dor nem guerra
Por seres da areia, da água e do ar.
Agora… fecho os olhos e dirijo-me à praia… Vou lá, ver o mar.
… Talvez a encontre cheia, a abarrotar, apinhada.
Bolas de Berlim, bolas a saltar, gritos e gargalhadas, barulhos, burburinhos,
Areia pelo ar,
Gente, gente, gente
A praia superlotada!

Dinamene

"A beleza do mundo tem duas margens, uma do riso e outra da angústia, que cortam o coração em duas metades."
Virginia Woolf

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil

Pela falta de palavras, sabe-se a profundidade dos momentos, que sendo tempo, parecem possuir três dimensões.
Uma coisa cavada fica lá como um leito de rio antigo, amplo espaço para nenhures, aí onde tudo se desmancha linguisticamente.
A alma precisa mais do que de céu, de um lugar de pedra ou carne com nome, que se mantenha para além da linguagem.
A busca do silencio é uma tentativa paralela, só paralela disso que é muito mais que encontro, porque desigual, em espanto.
Uma coisa em atrito que se escarpa e é chão para a alma, essa coisa que não se diz.