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segunda-feira, outubro 27, 2008

«Diário de uma viagem aos Himalaias - Nepal»

Continuação 2

Encontram-se também muitas crianças (algumas bem pequeninas), descalças, a brincar à beira do caminho, muito sujas, com os rostos bem marcados pelo frio e pelo fumo das lareiras, mas sempre com um sorriso nos lábios. Quando passamos saúdam-nos com as mãos postas dizendo a palavra "Namasté", a saudação no Nepal.
Algumas ofereciam-nos flores e raramente pediam. Quando tentávamos fotografá-las, escondiam-se.
Pelas 12h 30 almoçámos num lodge denominado “Jorsalle Village”. Este espaço era muito rudimentar e a senhora que preparou o almoço tinha o rosto muito marcado pelo frio e pelo fumo da lareira.
É impressionante como esta gente vive: tantas dificuldades, o rosto bem marcado, mas sempre com um sorriso nos lábios. Parecem pessoas rudes, mas mostram sempre alguma delicadeza no trato, na forma como nos servem, sempre com o mesmo tom de voz calmo. Transmitem-nos tranquilidade.
A seguir ao almoço, após uma grande subida de mais 3h de caminhada, chegámos a Namche Bazar. A 3440m de altitude, há um ligeiro cansaço e o coração bate um pouco mais forte.
À medida que vamos subindo, vamos sentindo cada vez mais emoção. Não há palavras para descrever tanta beleza natural e as pessoas são muito simpáticas, têm um ar calmo, tranquilo, sem stress. A paisagem é decorada com bandeirinhas de oração penduradas por todo o lado, a baloiçar com o vento, parece que estamos num ambiente de festa. É lindo…!
As casas são de pedra com as janelas e telhados muito coloridos, em tom azul, a contrastar com a cor da montanha, com o sopé sem neve e os picos branquinhos.
Há cortininhas nas janelas e as portas têm panos coloridos a tapar a entrada como que a esconder o interior pobre e humilde.


fotos e texto de Isaura Tavares

quinta-feira, outubro 23, 2008

«Diário de uma viagem aos Himalaias - Nepal»

Continuação 1

Pelas 15h 30m, já alimentados e de mochilas às costas, iniciámos a nossa primeira caminhada de 3h, cerca de 6 km, com destino a Phakding, a 2610m de altitude.
Pelo caminho pudemos observar alguns rochedos gravados com orações budistas e ornamentados com bandeiras (panos) de oração muito coloridas, transmitindo uma certa beleza e algo de mítico (os povos acreditam que as orações ou preces são levadas pelo vento e são ouvidas pelos deuses).

Pontos de oração
Segundo indicações dos guias, estes rochedos devem ser sempre contornados pela esquerda, na direcção dos ponteiros do relógio, uma questão de religião. Ao contorná-los, rezam para terem sorte e saúde nesta vida e na outra que acreditam vir a ter.
As instalações onde pernoitámos eram novas, bem equipadas e com boas casas de banho para cada dois quartos (surpresa!). Faziam lembrar chalés suíços. Aqui pudemos tomar banho quente, já que nos dias seguintes seria, talvez, impossível, devido à falta de condições e ao frio que se iria sentir.

Os primeiros aposentos

Deitámo-nos bem cedo, porque no dia seguinte esperava-nos uma longa caminhada, com algumas subidas até Namche Bazar, o mais importante povoado do Khumbu, a capital da região sherpa.

No 4º dia iniciámos a caminhada às 8h, com uma boa subida até Monjo – entrada no Parque Nacional Sagarmatha.

A primeira parte do trilho desenrolou-se por um lindo vale, com alguma vegetação e sempre ao longo do rio Dudh, com pontes suspensas que nos levavam ora à margem esquerda, ora à margem direita, onde se desenrolava o trilho, avistando ao longe os picos brancos das mais altas montanhas do mundo.

Ao longo de todo o percurso (principalmente até Namche Bazar), encontram-se muitas localidades com lodges, para apoio às expedições.

Estas pontes, suspensas por cabos de aço, são muito estreitas e baloiçam à nossa passagem. Algumas deixam ver, através dos buracos deixados pelas velhas tábuas, as águas do rio lá bem no fundo.

Ponte sobre o rio Dudh

Imaginem se nos cruzássemos com outros transeuntes mais corpulentos e de chifres (os yaques)! Era preciso ter atenção e ficar o menos tempo possível em cima da ponte, não fossem eles aparecer!

Texto e fotos de Isaura Tavares

quarta-feira, outubro 22, 2008

«Diário de uma viagem aos Himalaias - Nepal»

Ama Dablam - Isaura (2005 )

A Isaura escreveu o seu diário de viagem, em 2005, com tanta emoção e beleza, que, tendo-o partilhado comigo e aceitando que coloque aqui excertos seleccionados, penso que será muito agradável “viajar” com ela e conhecer um pouco da sua experiência de aventureira organizada.

«… Acompanhados pelos guias, em Lukla, fizemos uma pequena caminhada dentro da localidade até ao primeiro lodge (espaço, tipo de pensão ou albergue, que dá apoio às expedições) onde almoçámos. Os nossos sacos já estavam a ser distribuídos pelos carregadores. Enquanto esperávamos pelo repasto, observámos como era feita a distribuição dos nossos sacos, com 15 kg cada, pelos vários animais (espécie de bois descendentes de yakes e vacas) e homens.

Para carregar a nossa bagagem, tínhamos 6 Yakes e dois rapazes sherpas, bastante jovens. Fiquei impressionada com o peso que cada um ia transportar: três sacos, com aproximadamente 15 kg cada, mais a própria mochila. Como era possível?! Os Yakes são animais corpulentos e peludos que vivem nas zonas mais altas e frias e, por isso, dão muito apoio às expedições.Os carregadores levam tudo o que é necessário para abastecer as diversas localidades. Andam mal vestidos e mal calçados, por vezes de chinelos. Vêem-se grandes pedaços de carne a serem levados dentro dos cestos, bidões com combustível, bilhas de gás e muito mais. Levam na mão um pau com uma base que os ajuda a descansar quando não têm onde poisar a carga. É inconcebível, tanto esforço que têm que despender. Estas imagens, nunca mais esquecerei, dificilmente se apagarão da minha memória. Sei que estão habituados e que é esta a sua forma de vida, mas o esforço é demasiado.

Estávamos a 2840m de altitude e iríamos chegar aos 5550m. Quanta emoção, ao vermo-nos ali no coração dos Himalaias, aos pés da mais alta montanha do mundo, o “Everest”, com 8848 metros de altitude. Este era o 1º dos 17 dias que iríamos passar nas montanhas, afastados de muitas comodidades a que estamos habituados: telemóveis, alcatrão, estrada, carros ou qualquer tipo de transporte motorizado, WC equipada, água canalizada, electricidade, aquecimentos, água potável! O primeiro contacto com as populações fez-me recuar muitos anos, lembrei-me da minha aldeia, quando as ruas não tinham alcatrão, não havia electricidade e se utilizavam cântaros de barro para ir à fonte (um poço afastado da aldeia com um caldeiro numa roldana) buscar água. Lukla é um grande povoado, tem muito comércio e as crianças brincam nas ruas sujas com esgoto a céu aberto.
Percorremos as ruas, que se encontravam em obras, até ao fim, onde um pequeno arco nos indicava uma porta de saída, ou melhor, a entrada num outro espaço que parecia levar-nos a outro planeta – o espaço que iríamos calcorrear durante 17 dias no coração dos Himalaias, interior do “Parque Nacional de Sagarmatha”. Nesta saída estavam alguns militares armados a observar, com descontracção, quem passava. A partir daqui só caminhos estreitos, trilhos de montanha onde não circulava qualquer tipo de transporte, mesmo sem motor. Ali, só a força dos homens ou dos yaques.»
Saída/entrada de Lukla
Início/fim da caminhada - 17 dias
Isaura Tavares in "Diário de uma viagem"