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quarta-feira, setembro 10, 2008

EU, ÀS VEZES

E agora começa a anoitecer tão cedo. A minha mãe conta que quando era pequeno, três anos, quatro, cinco, sei lá, me tornava melancólico ao crepúsculo. Não me lembro disso mas é capaz de ser verdade porque o fim do dia sempre me trouxe, sei lá porquê, uma espécie de tristeza mansa, um desejo vago de coisas mais vagas ainda, uma inquietação doce, um estado de alma impossível de exprimir, não inteiramente agradável, não inteiramente desagradável, estranho apenas, um (como dizer?) sorriso com uma lágrima tranquila dentro, percebem? Tão difícil traduzir as emoções em palavras, é tão pobre o vocabulário que temos e vou-me consumindo nos livros a procurar exprimir isto.
Bom, voltando ao princípio dizia que começa a anoitecer tão cedo, as árvores do dia que nada têm a ver com as árvores da noite, misteriosas, densas, falando, falando, a engordarem de pássaros. Janelas iluminadas e eu a imaginar as vidas atrás das cortinas, por vezes, num intervalo, um relógio, uma pagela, um lustre que me assusta, vultos. Gestos femininos bonitos sempre, a delicadeza com que as mulheres tocam nos objectos, a harmonia dos dedos: somos pesados e sem graça, nós os homens, ao pé delas. Pesados, brutos, canhestros: não possuímos seja o que for de ave ou de nuvem, a nossa carne é densa e gaguejante. Dá-me uma paz de eternidade ver uma mulher numa casa, o modo como o seu corpo habita o espaço, a forma como vestem, de si mesmas, os compartimentos, com um simples passo, um simples olhar. E depois uma espécie de inocência primordial, de leveza habitável: devo ter sido muito feliz na barriga da minha mãe, por dentro da sua voz, do seu sangue. Faz noventa anos agora e continua com dezoito. Conta a história da família que foram obrigados a puxar-me com ferros, não queria sair: como eu me compreendo.
E as árvores da noite a murmurarem sem fim, os prédios muito mais altos, os sons de uma nitidez de cristal. Um velhote a subir a rua com um saco de plástico, a horrível solidão dos seus olhos, o abandono da roupa. A solidão tem um cheiro próprio que se sente à distância. Vivem em bicos de pés, como que a pedir desculpa. Este passa o tempo a beber cerveja no cafezito e percebe-se o nível da espuma pela cor das pálpebras. Senhor João. Mora com um bicho qualquer num buraco qualquer, não se lamenta, não se queixa: dura. Uma destas semanas vem a morte
- Tenha paciência senhor João e mete-o numa caixa, o pobre. Fica o saco de plástico no passeio: não fica nada, enquanto os gestos das mulheres vão colorindo o silêncio. Sorrio-lhe sempre
- Boa tarde senhor João a espuma das pálpebras procura-me, descobre-me, põe a custo sílabas umas atrás das outras
- Boa tarde senhor doutor e lá vai ele curvado, a arrastar os sapatos, metido no seu blusão sujo. Foi ajudante de pedreiro: o que é agora? Como dorme, como acorda? Noventa anos, a minha mãe, que número impossível. Porque diabo consentiu que o tempo passasse, diga lá? Pequenina, frágil, indefesa. Quase cega. O sorriso mudou, transformou-se num clima resignado, com uma chuvinha perpétua. A minha tradutora romena
- Estou em Lisboa
e sempre que ela está em Lisboa lembro-me de Bucareste, da estrada para Constança, no Mar Negro, dos corvos. O riso nunca alegre do poeta Dinu Flamand, que tive em casa no tempo de Alcoitão. Somos amigos, conhecemo-nos na Finlândia. Meu Deus, tão grande o mundo. Intermináveis florestas de abetos, ramos prateados. Um escritor para outro
- Não batas a portas abertas
eu que tenho passado o tempo a bater a portas abertas por timidez, por vergonha. A porta aberta e eu à entrada, com os nós dos dedos, tac tac. Gosto da expressão nós dos dedos, eles que não possuem nós. Gosto da expressão trinta por uma linha, que não sei de onde vem. Os corvos da estrada de Constança subiam verticalmente do trigo. Garotos miseráveis, ciganos. As cicatrizes da ditadura por todo o lado. E começa a anoitecer tão cedo? O que fará o senhor João depois de meter a chave na fechadura? O que faremos nós se a noite não acabar nunca? Convoco os meus mortos, os meus vivos, aqueço as mãos na saudade de ti, e aquecer as mãos na saudade de ti há-de chegar para eu ser feliz. As vidas além das cortinas iguais à minha? Diferentes? Compro um lustre assustador? Não compro? Cheio de pingentes de plástico, de vidro? Qual o meu nome verdadeiro por trás do António que as pessoas conhecem? Não tenho nome: sou estas mãos, este corpo, esta caneta que escreve. Agora veio-me à cabeça o cemitério em Abriga, a casinha, uma menina a brincar: fico a vê-la brincar, encantado. O que haverá de mais eterno que uma menina a brincar? Em todas as mulheres, até na minha mãe, vejo uma menina a brincar. Nunca brincou comigo, apetece-lhe brincar comigo, mãe? Não calcula os jogos que sei. Quero viver. Não faço ideia como isto apareceu na página mas quero viver. Sou tanta gente às vezes. As árvores à noite que não cessam, não cessam. Não morro nunca, pois não? Não morro nunca. Prometo. Não se preocupem comigo, já prometi. Num intervalo de cortinas um relógio, uma pagela, a fotografia emoldurada de um bombeiro. O avô da Mãe Clara era oficial de Marinha. A empregada nova a pasmar para o retrato
- Quem é?
a Mãe Clara
- O meu avô
a empregada, apreciadora
- Um homem elegante
e depois, com respeito
- E um belo polícia
e a Mãe Clara furiosa. Dirão isto de mim? Um belo polícia? Recordaste-te de mim fardado, filhinha? Fui um belo polícia também. A delicadeza com que as mulheres tocam nos objectos, a harmonia dos dedos. Não tenho jeito. Estendo a palma para ti e não tenho jeito: sou apenas um homem. Não se importa de me dar um bocadinho da sua cerveja, senhor João? Só um gole?
- Boa tarde senhor doutor
e cada um de nós com um saco de plástico a subirmos a rua. Até onde?

quarta-feira, agosto 20, 2008

Assim como assim

Tanto ruído no interior deste silêncio: são as vozes dos outros a falarem em mim, pessoas de quem gostei, pessoas que perdi, gente que tenho ainda. Não me parece que herdei muito dos meus pais, dos meus avós: algumas coisas mais ou menos superficiais mas lá no fundo nada. Princípios, claro. Regras. O resto, quase tudo, fiz sempre sozinho. E estive sozinho nos momentos mais difíceis da vida, que sofri na carne como um cão: aquilo que, destilado, aparece nos livros, que são o itinerário de uma aprendizagem e de uma dor, a certeza da vida redimir a morte, da necessidade da alegria, de uma paz intransigente conquistada a pulso. A humilde capacidade de admirar as pessoas, respeitá-las, que tanto tempo levei a conseguir. Olhar nos olhos o que um ano destes não serei. Custa-me a ideia de não escrever, um dia. Do mundo continuar sem mim. De perder corpos, calor: o que ganharei em troca? O meu pai foi-se embora há quatro anos: percebo hoje que existia entre eu e a morte, a defender-me sem saber que me defendia e que a partir de então, quando ela tocar à campaínha, é a minha vez de abrir a porta: não quero chegar à maçaneta a tropeçar, quero mostrar-lhe a casa limpa e pronta. Dizer a quem se achar ao meu lado
– Eu já venho
e descer as escadas. Não se incomodem, não se levantem: sou capaz de descer as escadas sem ajuda até vários palmos abaixo da terra. Espero que haja sol nesse dia, um arrepio alegre nas árvores. Não se incomodem que eu já venho. Sentir-me-ão nos objectos, deixarão de sentir-me a pouco e pouco à medida que a saudade se atenua. Continuarei aqui através dos meus livros, na altura em que ninguém meu conhecido sobrar. Ficam retratos, claro, reflexos pálidos do que fui. Depois nem sequer os retratos, um nome apenas. Páginas e páginas que não imaginarão o que me custaram, a luta permanente, a dificuldade em limpá-las. Tem de passar-se as passas do Algarve para dar prazer ao leitor. Espero que Deus me conceda acabar três ou quatro textos, deixá-los prontos para que outros construam por cima, como eu construí por cima dos que me precederam. Se alguma dignidade de homem tenho deu-me a Arte. Hipócrates: a Arte é longa, a Vida breve, a Experiência enganadora e o Juízo difícil. O meu pai tinha isto num rectângulo de papel, no seu gabinete do hospital. A Arte é longa, a Vida breve. Se te sentes desfalecer pega na tua própria mão para ganhares coragem. Talvez dê resultado. Tentaste. É noite agora, corri as cortinas, estou sozinho. Faltam-me os meus amigos, falta-me o mar. Estantes cheias de lombadas, esta mesa. A esferográfica que lá vai andando aos tropeções. Os cigarros são a água com que empurro a comida das frases. Gostava de deixar de fumar, uma escravidão estúpida. Eis-me sozinho rodeado de vozes. Ninguém me pode ajudar a fazer isto. Se cair do trapézio a responsabilidade é minha e o aleijar das costas também. Conseguirei agarrar o próximo, falharei? Não me interessa narrar histórias, contento-me em abrir o coração. A minha mãe fez noventa anos em dezembro: limita-se a esperar numa cadeira. No que me respeita não vou esperar numa cadeira: a mão desenhará letras até ao fim. Esta não é uma crónica melancólica: é a obstinação do ofício que pratico desde que me conheço, afastando sempre o que o estorvava. Pagam-me para fazer o que faria de qualquer maneira e portanto sou uma criatura feliz. Na altura em que a morte, de que falei há bocado, chegar, já a venci. Amanhã na batalha pensa em mim: título do meu amigo Javier Marías. Hoje na batalha penso em vocês, não deixo de pensar em vocês. Somos tantos, cada um de nós é tantos.
Há horas cortei o cabelo: à minha frente, no espelho, um sujeito a quem cortavam o cabelo e me olhava. Parecíamos desconfiar um do outro e tive vontade de pedir-lhe desculpa por o tratar tão mal, comendo não importa o quê, dormindo pouco, não lhe dando atenção. São Francisco de Assis: confesso que tratei muito mal o meu pobre irmão corpo. Haja alguma coisa em que São Francisco e eu sejamos colegas. Lá estava o António com as madeixas a tombarem na toalha, aquela boca, aqueles olhos. Rugas: serão do espelho ou minhas? Que idade tenho? Sei lá: muda constantemente, para trás, para o lado, às vezes foge-me, outras regressa: ao cortar o cabelo estava ali, viva. E é impossível ser aquilo, é impossível ser isto. Nada em comum entre nós e o cabelo a descer para a toalha, sem cessar. Veio-me à ideia o barbeiro do meu avô, o senhor Melo, a rua 1.º de Dezembro, manucuras que eu achava lindas, tão perfumadas, tão gordas, a arrulharem: devo-lhes a minha primeira erecção consciente, pensei em pedir-lhes para casarem comigo, as duas, de uma vez. Não pedi. Quer dizer pedi sem as palavras e não me responderam, ocupadas a fazerem festinhas nos dedos de uns cavalheiros quaisquer, de joelho activamente
(gosto do activamente)
encostado à perna deles. De modo que ao conhecer o desejo conheci o ciúme. E a indiferença já agora, porque não me ligaram nada. Que teria eu de mal para além de oito anos? E oito anos é um defeito assim tão grande? Ninguém sabia, claro, que eu era o escritor mais importante do mundo e maçava-me elas não o reconhecerem com um relance apenas. Um génio ao alcance do braço e as manucuras zuca zuca na fazenda dos cavalheiros. O senhor Melo, esse, entendeu-me o olhar
– O avôzinho nunca deixa que lhe toquem
e eu a achar de imediato que o meu avô era parvo. Mal entrei em casa fui à brilhantina do meu pai
(um boião pegajoso)
e penteei-me para trás. Só me faltava o smoking e uma actriz ao lado para ser Gary Cooper
por uma pena. Gary Cooper, na minha forma de ver, não andava longe de Camões, de maneira que me espantou, ao jantar, mandarem-me comer a sopa mais depressa. Não imaginava
(não imagino)
a mãe de Gary Cooper e Camões (uma para ambos chega)
a mandá-los comer a sopa mais depressa. Recordo-me de afirmar
– Sou melhor que Camões e Gary Cooper juntos e multiplicados por dez
e ainda hoje estou para compreender o que significava o silêncio que se seguiu.

segunda-feira, agosto 04, 2008

Crónica descosida porque me comovi

Se ao menos a gente pudesse viver com as coisas mais simples em vez de recordar as complicadas. Voltar à pobreza do elementar: luz, água, pedra. O avô de alguém que me é querido dizia de uma pessoa boa É bom como o pão e ao lado disto que maior elogio se pode fazer? A nossa língua torna-se maravilhosa com palavras como estas. É bom como o pão e lembro-me das mulheres que beijavam o pão duro antes de o deitar fora, da minha avó que se horrorizava ao ver um pão ao contrário: punha-o logo direito a pedir desculpa em silêncio, movendo a boca. Sempre me senti bem nas padarias: o cheiro, o lume, os padeiros enfarinhados que eu achava, acho ainda, serem anjos que se transviaram, de braços cobertos por uma poeira celeste. Tudo neles era branco até as sobrancelhas, as pestanas. O olhar branco também. Os gestos. Não olhos cegos, olhos brancos. E eu à porta a espantar-me. O eco das vozes nos tijolos, dos passos, da lenha no forno. Bom como o pão: ora toma, António. Aprende a escrever à maneira. O facto é que me interessa muito mais um padeiro que um economista. Ou um gestor.
Criaturas que, não sei porquê, me dão pena: economistas, gestores, administradores, directores, banqueiros. Deve ser triste ganhar dinheiro assim. O que sonhará um economista, a que brincava um gestor em criança? Ou nasceram já crescidos? Imagino-os debaixo do chuveiro, de gravata, a falar ao telemóvel.
……………… …………. ………
Sempre andei mal enjorcado, eu, para desespero da minha mãe:
Andas tão mal enjorcado, filho.
Todos os anos a minha companhia lá da guerra faz um almoço com os que sobejam da miséria em que andámos. Não neste último almoço, no penúltimo, o furriel Firmino Alves começou a anotar os telemóveis dos nossos camaradas para os contactos da refeição seguinte, até que chegou ao Pontinha. Pontinha é a alcunha do ordenança da messe de oficiais, que morava na Pontinha. Como a cabeça dele era grande (continua a ser grande) chamavam-lhe também Porta-aviões porque dava para os aviões aterrarem.
O Pontinha, como muitos dos soldados, vive com dificuldades. Ao fim-de-semana engraxa sapatos na mira de equilibrar o orçamento. Gosto muito do Pontinha a quem obrigava a cortar a carne em bocados de dois por três centímetros, por haver decidido ser a capacidade da minha boca. Media aquilo e exigia Quatro milímetros a mais, Pontinha, corta outra vez e o Pontinha, que remédio, cortava. Ainda hoje, nesses almoços, me quer cortar a carne. Falar nos meus camaradas comove-me: a expressão irmãos de armas é tão verdade. Enquanto nos aguentarmos por cá. Mesmo depois. Zé Jorge: continuamos irmãos de armas. Cabo Sota: admiro a tua coragem até ao fundo da alma. Sozinho com a Breda, uma metralhadorazeca, aguentou um ataque.
E vive mal, percebem? Como se deixa viver mal um herói? Ao acompanhá-lo ao táxi em que voltava, doente, ao Alentejo, avisei o condutor:
Você leva aí um grande homem, sabia, um dos maiores homens que conheço e, como todos os grandes homens da guerra, de uma infinita modéstia, bondoso e sereno. Não lhe chego aos calcanhares. Cabo Sota, tu mereces a continência de um general. O Zé Luís, oficial de operações especiais, que em matéria de coragem não necessitava de aprender com ninguém:
Eram duros
expressão que constitui para nós o supremo elogio. Adiante. Contava eu que o furriel Firmino Alves anotava os telemóveis até que chegou ao Pontinha e como fizera com os outros perguntou:
Tens um telemóvel, Pontinha?
e o Pontinha logo, a mostrar serviço:
Não, mas a minha mulher tem um microondas não fosse a gente pensar que ele era um badameco qualquer. Pode parecer esquisito ou parvo ou o que quiserem, mas quem cortava a minha carne era um magnata cuja mulher tem um microondas, e aí está o melhor título de nobreza (aliás o único) que possuo. Este ano o Pontinha, depois de me desdobrar o guardanapo (se eu o desdobrasse ele ofendia-se) olhou-me bem nos olhos e declarou:
Se quiser vou para sua casa, faço-lhe o comer, dou-lho e não levo um tostão por isso e eu todo arrepiadinho de ternura. Boaventura, Nini, Licínio, vocês todos caramba como a gente somos irmãos. Unamuno, que muito respeito, tem páginas admiráveis acerca da valentia dos portugueses. Tens razão, Zé Luís: eram duros. Ganas de explicar às mulheres deles, aos filhos deles, o orgulho que tenho em ser amigo dos pais, em que os pais sejam meus amigos. Não: irmãos de armas. Não: irmãos. E bons como o pão. Ao lado disto que maior elogio se pode fazer? Ao menos que o País os beije antes de os deitar fora e lhes peça desculpa. E há mais anjos para além dos padeiros, de arma nas unhas mata fora. Nenhum deles é banqueiro, claro. Nem administrador. Nenhum deles joga golfe. Jogaram golfe num campo de um só buraco onde não é a bola que cai.
É um rapaz de vinte anos. E acabo aqui, antes que seja tarde para marcar o número de um micro-ondas.

domingo, agosto 03, 2008

Chopin é um frango

Os meus pais a quem a minha indiferença escolar preocupava.
(passei o liceu a fumar às escondidas e a pasmar para a mulher do farmacêutico e a universidade a jogar xadrez num cubículo sem janelas logo a seguir ao vestiário)
trataram de arranjar explicadores decididos a meterem-me na cabeça, à força, o que me recusava a aprender. Entre outros carrascos contrataram, tinha eu 13 ou 14 anos e uma alergia às aulas, um homem gordo que se deveria ocupar a fazer-me entrar em êxtase com o desenho geométrico, amontoando cubos, cilindros e pirâmides, a tracejado e a cheio, em papel cavalinho. Era num segundo andar ao Jardim das Amoreiras que cheirava a entretela e a almôndegas, o carrasco, o careca, suava de desespero a rosnar
- Camelo
enquanto eu, em lugar de ouvir, escutava as lições de piano do prédio vizinho no qual uma menina
(tinha a certeza que era uma menina de laço cor-de-rosa no cabelo, arame nos dentes e soquetes brancos)
tocava Chopin como quem arranca penas a um frango vivo. O sofrimento do frango quase me fazia chorar de puro dó e no dia seguinte dava por mim perplexo diante da canja do almoço, à cata de semifusas entre as bolhas de azeite e a garantir à minha mãe afastando o prato com as costas da mão
-Não quero comer Chopin
com ela a olhar também a sopa, receosa de que houvesse uma Polonaise ou um Nocturno a flutuar entre os miúdos. A minha repulsa por carne de galinha ia aumentando com as aulas do Jardim das Amoreiras em que me apetecia abandonar o careca para salvar o compositor moribundo dos dedos assassinos da menina de arame nos molares, levá-lo para casa debaixo do braço e deixá-lo em paz na capoeira a escrever as suas valsas repimpado no poleiro. Sempre que a canja regressava eu ia argumentando inabalável
-Não mastigo músicos
recordado do Chopin assassinado, três vezes por semana, à esquerda da projecção das esferas.
(...)
Estou certo que aos domingos todo o mundo engole Chopin com batatas fritas Pala-Pala, juntamente com as queijadas compradas no passeio de Opel a Sintra. Ninguém fala. Ninguém se preocupa. Ninguém se interessa. Ninguém protesta. O Greenpeace não faz nada. A Amnistia Internacional emudece. Os Direitos do Homem omitem. Mas posso assegurar-vos que sempre que me coloco à porta de uma cervejaria de churrascos oiço as tripas dos clientes que saem de palito na boca a maldizer o Governo
(as pessoas de palito na boca maldizem o Governo e as que nem palito têm maldizem a vida)
oiço as tripas dos clientes, dizia, tocarem borborigmos de claves de sol que uma camada de bagaço amortece.

António Lobo Antunes, Algumas Crónicas


sábado, julho 05, 2008

Com tão pouca coisa se constrói o mundo

Três dias no Porto, num hotel da Foz, com uma nesguinha de mar na janela. À noite, mesmo com as luzes do quarto apagadas, um halo de milagre sobre a cama, um dia mais secreto, mais íntimo, a modelar as coisas e os corpos. A claridade vinda não sei donde, da pele talvez, transfigurava tudo, as almofadas inchavam de luz, cada prega do lençol desfazia-se e refazia-se numa cadência de onda. O silêncio da rua que o silêncio da chuva, de tempos a tempos, aumentava, acrescentando palavras às vozes. Meu Deus, como com tão pouco se constrói o mundo. Uma mulher com duas canas de pesca enterradas na areia, a apanhar sei lá o quê do chão, limos parecia-me, e a jogá-los para longe. O vento feito de propósito para nos desarrumar o cabelo, deixando o resto do mundo em paz. Água cor de farda, barquitos. O charutinho do Zé Francisco espetado no queixo, a dar-lhe um ar de rebocador que transportava navios invisíveis atrás dele. Autógrafos na feira do livro, caras que não vou esquecer. Um sorriso numa cadeira, ao longe: com tão pouca coisa se constrói o mundo. Por exemplo com a gaivota que se passeava nos charcos de um penedo. Por exemplo com um sorriso que põe a boca entre parênteses, e por cima do sorriso um par de sobrancelhas góticas. Entre a boca e as sobrancelhas a região autónoma do nariz, com o seu governo próprio: com pouca coisa, realmente, se constrói o mundo. Não renego nada do que fui e, no entanto, a impressão de nascer: uma doçura que desconhecia. Uma tranquila certeza. O livro que estou a escrever mudou conforme os dias mudaram. Apesar de ser muito difícil torná-lo fácil vem vindo página a página com alegria. A imensa ternura que há em nós, uma plenitude absoluta. Dantes disperso como um rebanho sou um agora. E precisei de imensos anos
(não vou referir-me ao sofrimento, não me julgo no direito de me referir ao sofrimento)
para alcançar isto. Pertence-me. E mais nada importa.
Acabaram-se os três dias no Porto, é segunda-feira e chove. Não chovem nuvens apenas: chovem lembranças antigas, um piano, velhos cheiros quase esquecidos, o louco que vendia passarinhos a conversar consigo mesmo, era eu pequeno. Recuso a ideia que morreu, preciso dos seus gestos sem nexo, das discussões com a própria sombra. Chovem as pobres poesias que compunha aos sete anos, a mão não sei de quem
(uma pessoa crescida que não vejo)
a poisar-me no ombro. Chove a Beira Alta. Chovo eu a começar a Memória de Elefante, roidinho de medo de não ser capaz. Chove o moinho do jardim, as casas que construíram no lugar da quinta. A bicicleta que nunca tive, com mudanças e tudo. Chove o cabo da Guarda que me admoestava
– Rapaz
sem eu ter feito nada. Chovem existências anónimas, importantíssimas. Chovem as árvores lá fora, um pássaro perdido. Chove no Porto, em Torres Novas, na Figueira da Foz. Chove em todos os sítios em que estivemos. E, por dentro da chuva, a clara luz do dia. Começo a entender aquilo de que não tinha ideia, a habituar-me à esperança, à certeza. O padre que disse a missa de corpo presente do meu pai declarou que não fomos feitos para a morte. Agora sei que não fomos feitos para a morte, padre, julgava que éramos perecíveis, não nos sabia eternos. Mesmo a rapariga que viajou até à Áustria para acabar perto da irmã, ela que não possuía mais ninguém. A horrível injustiça disto. Qual é a cor da esperança? Verde? Hoje entrei numa merceariazita para comprar cigarros. Nunca lá vi fosse quem fosse excepto o dono, um senhor delicado. Tudo muito limpo e ninguém. Disse-lhe
– Obrigado
e ele, do fundo da sua solidão
– Obrigado nós.
A que nós se referia? Se calhar está rodeado de gente que a minha cegueira não permite ver.
– Obrigado nós.
como se fosse o Papa ou um rei. E de imediato os olhos para baixo, no balcão, atento como os xadrezistas. Vontade de ficar por ali à procura do nós, perguntar
– Você é o nós?
perguntar
– Onde param os outros?
Mas faltou-me coragem. Às sete desce os taipais, vai-se embora. Os outros, que compõem o nós, irão com ele? Ficam lá, no escuro, murmurando? É uma rua de travestis debruçados para os automóveis, alguns com cadeirinhas de bebé no banco de trás. O que procuram aqueles homens? Pensões miseráveis, corredores com uma lâmpada, tem-te não caias, ao fundo. Há um travesti que nenhum cliente aborda, a mostrar o peito enorme à indiferença dos automóveis, horas seguidas. Mesmo no inverno, com frio. Sem dinheiro para acabar na Áustria. Os clientes dos automóveis com cadeirinhas de bebé serão capazes de olhar as mulheres ao chegarem a casa? Serão capazes de estar com elas sem vergonha? A teia de mentiras de que a maior parte das relações é feita. Uma espécie de náusea em mim, de nojo. Qual espécie. Náusea em mim, nojo. Não compreendo. As cadeirinhas de bebé não me largam a ideia. Não distingo as feições não escuto as conversas. Caricaturas horríveis de mulheres. Como podem aqueles tipos encarar-se no espelho? Pelos vistos podem. Não conhecem de certeza um halo de milagre sobre a cama, um dia mais secreto, mais íntimo, a modelar as coisas e os corpos. As almofadas inchando de luz, cada prega do lençol a desfazer-se e a refazer-se numa cadência de onda, ignoram que com muito pouco se constrói o mundo. Explica-lhes que com muito pouco se constrói o mundo. Tu sabes. Já sabias antes de saber que sabias. Segreda-lhes.
– O mundo constrói-se com muito pouco
enquanto a mulher das duas canas de pesca
(nunca tinha visto uma mulher pescar sozinha)
vai atirando os limos para longe. Atira os clientes dos travestis também. As cadeiras de bebé, essas ficam. E o halo de milagre que há-de permanecer para sempre.
António Lobo Antunes

quarta-feira, abril 16, 2008

"Já escrevi isto amanhã" de António Lobo Antunes

Escrevo esta crónica num caderno pautado, eu que nunca escrevo em papel pautado porque me lembra a escola, e volto a ter uma caligrafia infantil.
Era uma escola pequena, a minha, com um professor tirânico que puxava pêlos do nariz: ramal da Beira Baixa, afluentes da margem esquerda do Tejo, o nome predicativo do sujeito.
- Diz o nome predicativo do sujeito, idiota
e nós lá gaguejávamos o nome predicativo do sujeito, cheios de dúvidas, a hesitar. O professor escolhia um pêlo, desprezando-nos
- Nunca hás-de ser ninguém na vida e o facto do nome predicativo do sujeito me impedir de ser alguém na vida preocupava-me. Que raio de importância tão grande o nome predicativo do sujeito tem? Ou o ramal da Beira Baixa? Ou os afluentes da margem esquerda do Tejo? Meu Deus a quantidade de coisas que existem entre mim e o meu futuro. Outras frustrações: não usar óculos, nunca ter partido uma perna.
Aparelho para os dentes sim, o que me compensava um bocadinho.
E uma funda para a hérnia, mas isso era um adereço invisível, sobretudo comparado com uma perna em gesso, com os dedos do pé de fora, de unhas sujas de branco. E canadianas, que sorte. E coxear, que felicidade. E a maravilha de poder dar com elas num rabo a jeito. E autografarem-me o gesso. Olha, uma mosca pequenina agora, à volta da minha mão. Igual às grandes mas minúscula. Poisada na caneca. Poisada no tampo. Poisada na manga do blusão.
O mapa ao lado do quadro, com os países de cores diferentes. A Alemanha amarela, a Noruega roxa. Portugal não me recordo. Uma bolinha com um ponto ao centro em Lisboa, uma bolinha menor, com um ponto também ao centro, no Porto. O mar azul. Ilhas e ilhas: os Açores, Madagáscar.
A Indonésia dúzias. O professor
Estás a olhar para ontem, idiota?
E é verdade, estou a olhar para ontem, sempre olhei para ontem. Até o amanhã é ontem às vezes. Charlie Parker interrompeu uma vez uma gravação, atirando com o saxofone, a gritar Já toquei isto amanhã e ninguém foi capaz de convencê-lo a continuar. Como eu o compreendo, como às vezes sinto Já escrevi isto amanhã e rasgo tudo. Um trabalho difícil, quase tão difícil como viver. Acho que não sei viver. Acho que não sei viver? Acho que não sei viver como os outros vivem. Que dias os meus, repletos de surpresas, de mistérios. De espantos.
Sou um saloio: não há montra de loja que não me encante, sobretudo as lojinhas minúsculas de certos bairros, mercearias, roupas, brinquedos.
Apetece-me logo comprar vassouras, aipo, um macaco de corda, a camisa mais feia que descobrir na montra. A beleza das coisas feias fascina-me. O seu ar de desamparo, coitadas. A cinquenta metros da casa dos meus pais existia um estabelecimento de vestidos e artigos correlativos chamado Marijú. O Paraíso deve ser no género da Marijú, com empregadas a cheirarem bem que me faziam cócegas na alma. Não se calcula o que a Marijú alegrou a minha infância. A Marijú, do meu ponto de vista, era o centro do quarteirão. Para indignação minha a minha mãe considerava a Marijú o supra-sumo do horrível, a ignorante. Em matéria de gosto os meus pais, aliás, deixavam imenso a desejar: detestavam quadros com gatinhos a saírem de botas velhas, palhaços de porcelana a chorarem, dálmatas cromados em tamanho natural. Onde se viu tanta cegueira? Serras do sistema galaico-duriense: Peneda, Soajo, Gerez, Larouco, Falperra, etc. Ficou tudo na minha cabeça graças ao medo do professor, conhecimentos utilíssimos, até ele apreciava a Marijú: tenho de concordar que em espírito artístico superava os meus pais. O problema era o nome predicativo do sujeito. Sem o nome predicativo do sujeito a minha infância teria sido perfeita. Pretéritos, pronomes, tabuada. E os olhos de Charlie Parker tristíssimos nas fotografias. Escrever como ele toca. Vá, António, levanta-te do papel com as palavras: quem disse que não eras capaz, és capaz, levanta-te do papel com as palavras. Fecha os olhos e elas saem sozinhas. As palavras são notas, repara. Não penses em nada, abandona-te. O mundo inteiro está dentro de ti. Anteontem almoçaste com os teus camaradas.
Faltava o Zé
(duas fotografias dele à minha frente)
estamos amputados do Zé, mas que milagre de sintonia entre nós desde os confins de Angola. Que nenhum de vocês se atreva a morrer como o Zé, ouviram? Primeiro mato-vos outra vez e a seguir ralho-vos. Não quero ficar mais pobre ainda. O Zé fardado de coronel na participação do jornal, com versos de Goethe por baixo. A propósito: nunca falamos de Goethe, pois não?
A Marijú. O ramal da Beira Baixa. A primeira vez que vi uma mulher nua e me apeteceu ajoelhar: não tocar-lhe, não beijá-la, ajoelhar apenas. E ficar que tempos assim.
O único milagre que conheço. O professor
- Estás a olhar para ontem?
e estou de facto. Neste preciso momento, senhor professor, só me apetece olhar para ontem.
António Lobo Antunes