«Era quase madrugada quando ouvimos os helicópteros dos peles-vermelhas passarem sobre a aldeia e depois regressarem. Pairaram sobre nós como libélulas gigantes, inspeccionando a clareira. Viram uma fila de casas abandonadas e uma praia vazia, pois nós fugíramos. Toda a gente. [...] O bloqueio fora imposto na primeira metade de 1990. Julgámos que seria apenas uma questão de tempo até que o mundo exterior viesse ajudar-nos.» Sem surpresa, o mundo exterior tinha mais em que pensar. Um dia, já na Austrália, Matilda descobre que Mr. Watts lhes lera (a ela e às outras crianças) uma versão simplificada daquilo que considerava «um som novo no mundo». A seu modo, as palavras de Dickens tinham instaurado uma ordem nova no tumulto de Bougainville. Agora, na biblioteca da escola de Townsville, exemplar na mão, «sublinhando cada palavra de cada frase com a ponta do dedo», Matilda percebera. Percebera que Mr. Watts lera «uma versão diferente, uma versão mais simples. Pegara nas partes mais importantes de Grandes Esperanças e simplificara as frases, chegara a improvisar, para nos ajudar a chegar a um lugar mais definido nas nossas mentes. Mr. Watts reescrevera a obra-prima de Mr. Dickens.» A partir dali seria com ela, teria de ser Matilda a descobrir o porquê das omissões de Mr. Watts. A desenvoltura narrativa permite-lhe manter o fôlego discursivo num plano estritamente ficcional, jogando com as várias peripécias da realidade (o conflito armado desencadeado pelo controlo das minas de cobre da ilha) e as expectativas de ascensão social de Matilda, que no fim da história decide partir para Inglaterra.Páginas
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segunda-feira, novembro 24, 2008
"Mr. PIP"
«Era quase madrugada quando ouvimos os helicópteros dos peles-vermelhas passarem sobre a aldeia e depois regressarem. Pairaram sobre nós como libélulas gigantes, inspeccionando a clareira. Viram uma fila de casas abandonadas e uma praia vazia, pois nós fugíramos. Toda a gente. [...] O bloqueio fora imposto na primeira metade de 1990. Julgámos que seria apenas uma questão de tempo até que o mundo exterior viesse ajudar-nos.» Sem surpresa, o mundo exterior tinha mais em que pensar. Um dia, já na Austrália, Matilda descobre que Mr. Watts lhes lera (a ela e às outras crianças) uma versão simplificada daquilo que considerava «um som novo no mundo». A seu modo, as palavras de Dickens tinham instaurado uma ordem nova no tumulto de Bougainville. Agora, na biblioteca da escola de Townsville, exemplar na mão, «sublinhando cada palavra de cada frase com a ponta do dedo», Matilda percebera. Percebera que Mr. Watts lera «uma versão diferente, uma versão mais simples. Pegara nas partes mais importantes de Grandes Esperanças e simplificara as frases, chegara a improvisar, para nos ajudar a chegar a um lugar mais definido nas nossas mentes. Mr. Watts reescrevera a obra-prima de Mr. Dickens.» A partir dali seria com ela, teria de ser Matilda a descobrir o porquê das omissões de Mr. Watts. A desenvoltura narrativa permite-lhe manter o fôlego discursivo num plano estritamente ficcional, jogando com as várias peripécias da realidade (o conflito armado desencadeado pelo controlo das minas de cobre da ilha) e as expectativas de ascensão social de Matilda, que no fim da história decide partir para Inglaterra.quarta-feira, junho 18, 2008
Um cão-leitor!
quinta-feira, junho 05, 2008
Bíblias
Tenho várias :
1-Richard Bach - Ponte para a Eternidade (mensagem de amor).
2-José Mauro de Vasconcelos - As confissões de Frei Abóbora.
3-Clara Pinto Correia - Ponto pé de flor.
4-Baptista-Bastos - Viagens de um pai e de um filho pelas ruas da amargura (vale a pena,faz-nos pensar)
1-Richard Bach - Ponte para a Eternidade (mensagem de amor).
2-José Mauro de Vasconcelos - As confissões de Frei Abóbora.
3-Clara Pinto Correia - Ponto pé de flor.
4-Baptista-Bastos - Viagens de um pai e de um filho pelas ruas da amargura (vale a pena,faz-nos pensar)
segunda-feira, junho 02, 2008
Música ao Longe - Erico Veríssimo
sexta-feira, maio 16, 2008
O carteiro de Pablo Neruda

A propósito de Pablo Neruda, lembrei-me do belíssimo filme baseado no livro homónimo “O carteiro de Pablo Neruda” de António Skármeta.
Quantas vezes vi o filme, sinceramente, não sei. É daqueles filmes que se vê sempre, com grande agrado. Aliás, só li o livro depois de ver o filme, o que não é costume.
O livro, que tem ainda o subtítulo “Ardente Paciência” é, também, surpreendente.
No filme, o carteiro enche-nos o coração de doçura, pela sua simplicidade, às vezes até ingenuidade, pela forma, bela e pura, como sente as coisas. Também no livro, parafraseando quem mo ofereceu no longínquo Natal de 1996, “A poesia e a beleza da vida toca-nos e faz-nos chorar ou rir”.
A história do carteiro, que ficou amigo do poeta Neruda durante o exílio deste numa ilha do Mediterrâneo, foi montada primeiro como peça de teatro, saiu publicada em livro e foi, finalmente, adaptada ao cinema em 1994.
Para aqueles que ainda não sabem quem é Skármeta, aconselho a rever o excelente filme e a ler o excelente livro. Antonio Skármeta mostra que é um grande contador de histórias, misturando elementos históricos com ficção. O autor nasceu no Chile, em 1940.
Quantas vezes vi o filme, sinceramente, não sei. É daqueles filmes que se vê sempre, com grande agrado. Aliás, só li o livro depois de ver o filme, o que não é costume.
O livro, que tem ainda o subtítulo “Ardente Paciência” é, também, surpreendente.
No filme, o carteiro enche-nos o coração de doçura, pela sua simplicidade, às vezes até ingenuidade, pela forma, bela e pura, como sente as coisas. Também no livro, parafraseando quem mo ofereceu no longínquo Natal de 1996, “A poesia e a beleza da vida toca-nos e faz-nos chorar ou rir”.
A história do carteiro, que ficou amigo do poeta Neruda durante o exílio deste numa ilha do Mediterrâneo, foi montada primeiro como peça de teatro, saiu publicada em livro e foi, finalmente, adaptada ao cinema em 1994.
Para aqueles que ainda não sabem quem é Skármeta, aconselho a rever o excelente filme e a ler o excelente livro. Antonio Skármeta mostra que é um grande contador de histórias, misturando elementos históricos com ficção. O autor nasceu no Chile, em 1940.
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