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sábado, fevereiro 27, 2010

Conto

O revolucionário

A metralhadora encalhou naquilo q é um buraco de dente num pensamento, que não pode ser cheio por na escola se não ter aprendido a vê-lo como problema de alguém ou até ser possível curá-lo com aprendidas palavras que fazem estrutura de parede ou muro para aguentar um tecto, mas talvez o caso dele tivesse sido daquela distracção de janela que na altura era pensado disparo noutra coisa q mexia do lado de fora de si ou apenas fome a tornar o que vai lá dentro tão imenso, como um céu seco.
Diante de si, olhos numerosos de uma família imersos à força em culpa de antepassados moram pendurados, como moscas coladas em retratos pelos longos corredores e na vasta sala e até na lustrosa entrada da casa que deveria estar vazia deles, de modo a permitir comodidade aos novos olhos que nela entram, para que enfim se possam sentir ainda em mundo próprio, cobertos de cheiros que se entornem naquelas velhas paredes como se fossem em vez de algo no ar, tinta de cores fortes.
Nem sempre o tempo que resta nos deixa levar as memórias connosco, foi o sucedido àqueles que tinham tido ali como que já raízes e mais teriam se a liberdade não tivesse chegado com ele, que não tinha família antiga colocada em papel de parede, mas num sítio tal que sempre que tinha desgastada fuga, não ficavam os seus mortos para trás como coisas mas eram as próprias asas na sua coragem ou um simples assobio de pés no seu rasto, tal a atenção do espírito deles sobre si.
Que faria com todo aquele papel da história de outros?
Entre as mãos pesadas mesmo que sem nada, só acariciava a coronha órfã já, de destino possível.
in: Contos e Exercícios

quarta-feira, agosto 12, 2009

A criação do Mundo

No início era o caos. O céu e a terra eram como a clara e a gema do ovo. Então nasceu Pan-Kou, o primeiro homem, que deu forma ao céu e à terra. O céu ele fez das coisas claras e brilhantes, e da escuridão e da impureza a terra. Pan-Kou se transfigurava nove vezes por dia, e a cada dia o céu e a terra se elevavam dez pés. No final de sua vida, que durou dezoito mil anos, o céu estava muito alto e a terra muito densa. Então, Pan-Kou chorou. E do caudal de suas lágrimas fizeram-se o Hoang-Ho e o Iang-Tse, o rio das águas amarelas e o rio das águas azuis; ele respirou e o vento soprou; falou e ouviu-se o trovão; olhou à sua volta e de seus olhos surgiram raios. Se Pan-Kou estava alegre, o tempo era ameno; se estava enfurecido, o tempo era escuro e nublado. Quando morreu, seu corpo se desfez em pedaços e deles se formaram as Cinco Montanhas Sagradas da China. Seus olhos transformaram-se no sol e na lua; sua carne se fundiu em mares e rios, e seus cabelos penetraram no chão e formaram raízes, cobrindo a terra de plantas.

Mito tradicional chinês

domingo, janeiro 25, 2009

A visita

Benguela 2006
foto:G.Ludovice

A VISITA
Doce e aflita, para desandar com os mosquitos da injustiça, pousa-lhe devagar junto onde descansa a cabeça bem trançada, no absoluto quase escuro da noite, um pequeno prato com guloseimas em jeito de biscoitos.
A mulher negra arqueia-se em curiosidade e pergunta-lhe, para que quer ela que ela coma na hora da sombra maior, e a mulher branca só resmunga algo, num furor amansado de pergunta que cresceu junto ao corpo.

Onde estavas, que não brincaste comigo? Esperei muito no meu quarto largo, em tardes que se esticavam, enredada em brinquedos só para mim. Por que razão não vieste? Eu tanto queria fazer contigo as bonecas, que eram por ti começadas pelo enchimento de umas tiras de panos, com pano, até se formar mais acima aquela barriga e logo os braços, depois a cabeça no desafio final, com os olhos tesourados também em pano, cosicados no pano do rosto. Duravam menos que as loiras, que apesar de resistentes, já só chegavam se por acaso ao teu bairro, em estado de vítimas de abusada guerra, mutiladas de membros, zarolhas no seu azul de olhos de abrir e fechar, com a cabeleira amadoramente recortada, meias esfarrapadas a precisarem dos teus panos coloridos nos seus troncos cor-de-rosa já esfolados, sem nome nem aquele cheiro de loja, mas com aquele perfume dos usos.Eram tão oxigenadas de natureza, que até para mim se tornava complicado criar uma árvore genealógica, em que elas pudessem ser minhas filhas.

Um dia trouxe nas minhas elaborações femininas, um alemão bem loiro que vivia num submarino num filme de guerra e passou a ser o pai delas.
Todos os natais lá vinham, com mais uma nórdica deslavada importada para os trópicos e que por destino fácil de explicar, ia parar não à tua, mas à minha árvore ainda com pistas de resina, vestida ricamente de verdes agulhas, de onde pendiam ora anjos, ora sinos e bolas, onde me podia espreitar em deformação nas suas curvaturas brilhantes.Dos teus anseios, nada me chegou inteiro.

Em que musseque saltitavas com os miúdos da mesma pobreza, por entre as poças de água da chuva, que não te pude oferecer nem uma nova boneca loira, ainda de pestanejo móvel em condições, com que inventava sozinha lares na minha casa grande?

Haveríamos juntas de arranjar uma solução para que fossem tuas filhas também, como as tuas nascidas de pano, minha descendência.
Na minha casa existiam janelas de vidro do tamanho de paredes inteiras, mas nunca te vi passar sempre que me empoleirei para cheirar o mundo e, por isso, só me visitavas a imaginação através dos sons nocturnos dos tambores em noites de festa.Agora temos de pôr no pano do coração, os mimos que não destrocámos na meninice.
A mulher negra fica só de olhos cogitantes, suspensa na delícia de outra bolacha enchapelada de creme, no exagero da branca já de carunchos como ela, a querer não perder mais do que já perdeu. 2007

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Já há uns anos, num bar, ouvi um conto que me tocou muito, narrado por um Contador de Histórias, e com muita pena minha não o encontrei escrito em lado nenhum…Por isso, passo a resumi-lo, por palavras minhas:
Uma vez um viajante dirigia-se a uma pequena Vila que queria visitar, mas antes parou no cemitério que se situava a uns metros desta… Acreditava que para conhecer bem os vivos deveria também conhecer a forma como tratavam os seus mortos…
Para seu espanto, ao olhar as lápides, todas tinham um número de anos reduzido…
José Manuel Paiva, 2 Anos,
Deolinda Silva, 7 anos,
Maria Rodrigues, 5 anos,
… 4 anos,
… 10 anos,
…3 anos…
Perante isto, o homem começou a chorar até que alguém o interpelou:
- Porque chora? Tem aqui alguém conhecido?
- O que aconteceu aqui? Que desgraça?!!! Como há tantas crianças mortas?
- Ah! É isso?!... Pois na nossa Vila temos todos um caderno, desde o momento do nosso nascimento, onde apenas são apontados os momentos felizes que vivemos e quanto duram….
As primeiras palavras, 17 minutos.
Os primeiros passos… 7 minutos.
O primeiro beijo… 1 minuto.
O nascimento do primeiro filho… 1 hora e 30 minutos.
Um livro… 2 horas.
Uma música… 15 minutos.
Um jantar especial… 3 horas.
….
E, no dia em que morremos, é feita a soma de todos os minutos e horas felizes que vivemos e inscrita na lápide.
Porque acreditamos que o que realmente importa é aquilo que de bom sentimos, partilhamos e vivemos enquanto seres humanos que somos.

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Viagem à Terra Natal


Todos nós, conta a história, nascemos com metade do coração…
Muitos não sabemos, alguns não nos importamos e a vida prossegue a meio coração, meio feliz, meio contente.
Alguns, afortunados, encontram cedo a outra parte de si mesmos e vivem vidas partilhadas por muitos e longos anos.
Maria Terra, desde nova, decidiu ir em busca da sua outra metade, do seu meio coração, do verdadeiro Amor!... Assim que teve a idade necessária para caminhos independentes, despediu-se de todos (familiares e amigos), determinada, e lá foi, meio feliz… meio contente, à procura do ser que possuía a outra metade do seu coração.
Foram muitos os rumos escolhidos, os caminhos trilhados, as terras encontradas, as gentes conhecidas…
Fez amigos, inimigos talvez, foi muitas vezes alegre, outras tantas foi triste…
Procurou, procurou, até que se esqueceu que procurava
…com tanto que a vida lhe dava!
Sentia-se meio-benzinha, meio-preenchida, meio-realizada…
Saboreava a vida com o entusiasmo necessário para não procurar mais nada.
Teve um companheiro e filhos…
Viveu momentos tão felizes que chegou a acreditar que nada podia ser mais belo que o nascimento de um filho. Outros viveu, tão dolorosos, que chegou mesmo a pensar que nada seria mais triste que a perda de um amigo…
Assim, a vida foi passando. E depressa que a vida passa…
A cara enrugando, os cabelos clareando e o meio-coração mais só… Uma vez, meio-cansado, bateu tão devagar no peito de Maria Terra que esta, ao sentir lá dentro uma dor, foi a correr refrescar-se num lago limpo e belo perto da casa onde morava…
Ao olhar o lago, Maria Terra viu, não o seu reflexo, mas o rosto do velho amigo de infância, José Mar, que já não via desde que partira em busca de si mesma…
Atónita, olhou em volta, não havia ninguém…
Perplexa, olhou mais perto no lago e percebeu que os seus olhos reflectidos eram mesmo os dele, da sua metade-coração, da outra parte de si…
Mas…. Mas… Como não tinha percebido antes?! – questionava-se…



Aquele rapaz que sempre lhe sorrira e acenara com um brilho doce no olhar… Era, então, a parte que lhe faltava???....
Com um brilho salgado no olhar, Maria Terra foi a correr até casa, com a mão no peito, para que a metade do coração que tinha não lhe fugisse e, num grito feliz, anunciou à família:
“Vou de viagem à minha Terra Natal …”
Demorou vários dias e várias noites na longa viagem de regresso e reencontro consigo mesma. Quando lá chegou, ao pôr do sol, verificou que José Mar não vivia mais na mesma casa… Branca de cal e com barra azul-mar…
Indicaram-lhe então outra casa, lá bem em cima do monte, onde vivia o homem, a sua mulher e os três filhos de ambos.
Ainda vacilou antes de iniciar a subida pelo caminho íngreme, mas ao olhar a lua redonda e grande que nascia, ganhou uma força desconhecida e lá foi, percorrendo os últimos quilómetros da sua busca de uma vida inteira, que a levavam ao destino sonhado…
Ao chegar, já noite, parou em frente à casa pequena e branca, iluminada pelo luar… A porta abriu-se e de lá surgiu José Mar, que murmurou, sorrindo e acenando…
“Há anos que te esperava. Cheguei a acreditar que não voltavas…”
Num abraço de um minuto, que pareceu durar a eternidade, Maria Terra e José Mar foram um só.
Depois, contam, cada um seguiu a sua vida, que as vidas construídas não se destroem assim, como castelo de areia à beira-mar…
A partir daquele dia, ambos sabiam que, no espaço vazio da metade do coração, habitava uma luz, sempre acesa, uma estrela, talvez o Sol, recordando-lhes que nunca mais estariam incompletos.
Ainda ouvi dizer, pela boca dos tetra netos de Maria Terra, que, por vezes, Maria Terra e José Mar se encontravam em sítio desconhecido, perto do mar…
E que, nesses dias, quem estava na praia, à hora em que o dia dá lugar à noite, podia ver de um lado a Lua Cheia a Nascer e do outro o Sol Dourado a mergulhar no mar… E ouvia-se, além das ondas a tocar na areia, um bater de tambor ritmado e alegre, um coração …e um som melodioso, talvez de uma flauta, uma canção…

Dinamene


sexta-feira, outubro 17, 2008

Antes do passamento físico


É em surdina, nos acordares, visitado por duas moles colinas mesmo abaixo do já sem verde dos olhos, a ocuparem-lhe artisticamente o descomeço.
Antes do chapéu da sexta noite assentar, descruza miudamente os pensamentos, de modo a que a vontade do passeio não fique a atravessar-lhe a garganta em modo parado. Desliza pelo antigo pescoço os grossos dedos da mão descasada com a doença, arruma o seu volumoso caroço de Adão mais para cima, experimenta apagar a rouquidão já mecânica com murros curtos no peito e lança-se no ímpeto dessa utilidade, a sedução.
Há muitas estatuetas de esquina que quebram as ancas e o sedimento da resignação da idade, di-lo a sua mão escapulida à imobilidade ainda com desejos de pássaro - toda a superfície macia de uma mulher é de se voar. Nem todos podem fazer descaso disso. É uma bênção inscrita no jeito duvidoso do homem, umas vezes parece que não sabe outra coisa mas alheio ao acto, estorva-lhe esse chilreio de mundos, parece que sobram do silêncio, as mulheres. O homem nesse arrogante descontacto, decora-se de outra ambição. A de ser o invasor dos espaços com seu arco macho, essa voz grave que emudece os olhos das casas e estremece de escuro as almas femininas que lá suportam o tecto.
Mas nem sempre o abraço do homem é vento a deformar a feitura composta de um rosto, há também a mansidão na mesma morada. É só saber o momento dessa estadia.
Sabem-no as mulheres que o servem, dorsos riscados pelas palmas alheias, que no corpo, a verdade existe em profundeza de temido rio.
Muito homem para também escancarar as pernas do riso, em velho tronco, ajeita-se de ossos parados, aterrados sem hélice sobre o compacto pavimento do macio ventre, sem escolha de não ser voado. Os céus vão e voltam sob azuis maiores.
Recompõe-se apressado na cor da sua adultez, agarrado a nada, antes das duas moles colinas desaguarem para o mistério.
A terra também há-de sorvê-lo em desejo tamanho de verme másculo, matuta devagarzinho o rio.
(2006)

domingo, julho 06, 2008

Um mestre sufi contava sempre uma parábola no final de cada aula , mas os alunos nem sempre entendiam o seu sentido…
− Mestre – perguntou ele certo dia −, tu contas-nos contos, mas nunca nos explicas o que significam…
− As minha desculpas – disse o mestre. Como compensação, deixa-me que te ofereça um belo pêssego.
− Obrigado, mestre – disse o discípulo, comovido.
− Mais ainda: como prova do meu afecto−, queria descascar-te o pêssego. Permites que o faça?
− Sim, muito obrigado − disse o discípulo.
− E, já que tenho a faca na mão, não gostarias que eu cortasse o pêssego em pedaços, para que te seja mais fácil comê-lo?
− Sim, mas não quero abusar da tua generosidade, mestre…
− Não é um abuso; sou eu que me estou a oferecer. Quero apenas agradar-te. Permite-me também que mastigar o pêssego antes de to oferecer…
− Não, mestre! Não gostaria que fizesses isso! – queixou-se o discípulo, surpreendido.

O mestre fez uma pausa e disse:
− Se vos explicasse o sentido de cada conto, seria como dar-vos a comer fruta mastigada.

Jorge Bucay, Contos para pensar

terça-feira, junho 24, 2008

O menos desolhado


O azul de raridade que o cobre nas amplas costas, é uma pista ali nos prontos arredores.
Funciona bem, tal como a máquina nova no pulso a rigor, o esquerdo, o relógio nascido de mostrador grande, tudo no seu propósito de conquistar nos outros não apenas os momentos dos olhos mas também, os próprios pensamentos com suas inclinadas suposições, essas hipóteses que roubam tempo à cabeça dos demais e os fazem permanecer a pensar em nós, até a inventarem histórias sobre a origem das nossas felicidades de cara, estampadas fundo.

Esse tempo que usamos da vida dos outros era para ele uma vitória, tinha assim onde existir de modo mais completo, alargando-se abusadamente em outras vidas, ocupando-lhes memórias como se enche uma casa de coisas que se encontram um dia, que não servem de muito, mas ficam lá bem porque o vazio é sinal de pobrezas e ausência de virilidade para os seus moradores.

Antes experimentara a dengosa brancura dos dentes, para subir em considerações no seu estatuto, ser um pouco mais do que um simples homem de futuro oferecido, por o não ter e ser-lhe mais certo poder ofertar aquilo que não havia.

Depois aprendeu por observação severa, que todos os homens com poder acrescentavam utensílios ao sorriso, não bastava o retrato da boca a oferecer o mundo como se ele existisse e tivesse porta de entrada.
Foi a si somando em invenção, também essa sorte deles, que é trazer uma valiosa mulher atrás do seu embelezamento de vida, com pegamento de coração, talvez até.

As grandes conquistas quer fossem das cidades, quer fossem dos povos, quer das mulheres, envolviam sempre coisas que, por poderosas, passavam involuntariamente de umas mãos para as outras. Sabia-o do compêndio de História, reachado numa prateleira de asfalto.

Afastado da possibilidade da feiosa correia de plástico, conseguiu obter uma de pele bem lustrada. O seu marcador de tempo tornou-se o primeiro movimento em direcção ao topo, esse lado que se tem quando se tem também alguém, que faz figura.
Já não mais seria alguém desimportante, estariam desde aí nele concentrados pasmos de caras e habilidades de conversa.

Pela hora da abertura das humanidades, aprendidas moralmente na educação das escolas com cadeiras, roupa em segunda mão chegava das terras, onde o esplêndido mostrador do seu relógio já não é furor para olhos alheios, antes pareceria arrojado na insólita negação de si mesmo, mas é verdade que em vez desse objecto, pode a sua existência ser ainda antes tomada como iluminação em noite crescente, pelo azul turquesa conseguido no casaco das lides internacionais.

A sua grande apoteose é, no entanto, de diferente natureza, ultrapassando mesmo a desvida dos próprios frágeis objectos na sua duração, depois que foi o rebentamento da mina que o abocanhou.
Quando ao prosseguir a compasso com o seu tic-tac encolhe a perna que não já pode possuir, fica sim na lembrança dos outros mas em estranha elegância, difícil até de se tornar moda, ganhando nesses respirados entretantos uma inconsciente dignidade única, no seu incopiável modo de fazer caminho.
O que foi original sobre o físico de alguns outros, é apenas estratégia garantida na ilusão em si.

Etiquetas: Escritas in : 2+2=5
Gabriela Ludovice

sábado, maio 31, 2008

A descoberta que se não consegue tapar com pano nem vontade

Nas desconsiderações acostumadas com o destino, a moça embeiça pela vida no descuido próprio de quem ressabe fundos e quer desposar pelo mistério, um brinde solto, naquela rua que esgueira para o restolho do peito.
Por isso, de crença boquiaberta, deu com pousadas nas baixas mãos aquelas todas juntas palavras, em namoro com o milagre que faz trocar até as escadas de chão e, precipitá-la a ela, no manso acidente que mesmo todos, sonham: a tontura que corta a direito para o céu.

Foi assim, que rescendeu os sentires subidos das páginas no seu colo de vestido com seios, e se infernizou capazmente de doces vontades sem fim de vista. Aquelas palavrandades de cor madura, cozinham nela um feitiço de preto, ficam um beijo grosso num sítio onde não se vê senão, num repente, ternurentos e espumosos mares no sem parar dos olhos.
Saõ essas culposas palavras, que sem motor dentro delas, descabelam os medos nos seus rumores e sopram em chuvas de dentro, desejos de se ser melhor, nos quentes anseios.

Fica só !!- comanda a si mesma.
Onde aquieta ela, o seu palpitante volume apinhado de sensibilidades?
Se não baixo as suas cálidas costelas, então só mesmo no parapeito de dois andares de um coração, tão soba daquela escrita, que lhe engole a existência de hoje em hoje, numa irmã sede.

In:
http://doismaisdoisigualacinco.blogspot.com/
Gabriela