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domingo, maio 29, 2011

E estava dentro do sonho e acordei satisfeita, mas depois ainda maior alegria tive quando acordei outra vez e sucedeu-se isso várias vezes, porque havia sempre alguma coisa de inaceitável no despertar penúltimo. Mas depois, quis ainda acordar de acordar de novo e já não foi possível e tive de me lançar para as ruas como uma coisa pela janela, para acreditar no que vivia....

sábado, maio 07, 2011

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil

Ver isso que vai acontecer, coincidido com o agora, eis a tontura derradeira.
Não sei se é fantasia de um ser delirante ou algo que ocupando volume vem nesta direcção. Isso vai acontecer! Não sei como, porquê nem quando e se me perguntarem o que é que vai acontecer, também não o ponho em palavras. É esse o sentimento que trago quase como um leve peso e não sei se me tece desde o berço quando já cheirava o mundo ou se é coisa de há pouco, e se foi de agora, buscou correr para o passado com tão grande ensejo, que se tornou parecido ao resfolgar sonoro de duas pontas, se é que a existência as tem. 

domingo, setembro 12, 2010

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil

Afinal a bala é só o começo do barulho nos olhos, provocado pelo silêncio de quem se está a afastar, depois que deixou a bomba na concha das mãos de alguém.
Não se fica para dar apoio moral a quem se deve matar, nem a uma distância suficiente para ainda fazer-lhe chegar umas palavras de conforto na viajem da agonia, o ideal é desaparecer-se na mata como uma lebre que persegue a vida, deixando apenas o movimento da folhagem ainda a estremecer na visão de quem segura a bomba, ainda naquela confusão amorosa de que só pode ser uma flor, esta que lhe sobeja. As palmas das mãos do coração não são as que estão vazias e que se arrumam na estante dos bolsos, como uma coisa de que se vai precisar mais tarde. Tudo quanto se faz sonhar está lá inteiro, sem outro destino que seja muito diferente do de uma confundida flor.

quinta-feira, agosto 12, 2010

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil

Ser consciencioso é estranhamente, por vezes, denegrir a parte pela qual a consciência se sente menos atraída. A consciência é apenas o instrumento, que nos permite inclinar a existência mais para um lado do que para o outro, como quando se vai a estatelar o nosso corpo mas ainda há a possibilidade de perceber a aproximação ao futuro da queda e num impulso emocional, ele é por nós orientado para onde há mais pedras ou não, para o receber.
É-se consciencioso quando se magoa alguém para se não  ferir alguém? Aqui o instrumento parece mesmo que não funciona, mas sim o medo. E quem nos inflige mais temor é sempre quem mais alto grita  ou pode ser ouvido nos seus gestos agigantados, porque quem se toma apenas como uma ideia, não sofrendo as três dimensões em si, perde também a voz, ou seja, torna-se inofensiva a sua expressão, o seu poder de mostrar sofrimento.
A consciência guia-se pelo susto que a assoma, mas parece ser que os seus ponteiros ainda assim se movimentam, como uma cauda de lagartixa abandonada.

sábado, julho 17, 2010

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil

A memória talvez seja mais verdadeira quando a roubamos de si própria, ao lhe acrescentarmos ou lhe retirarmos algo, porque o que nela guardámos do real,  já foi ficção.

sábado, julho 03, 2010

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil

Se reparares em tudo dispendendo o mesmo coração, se trouxeres aos ombros o caderno onde te deitas a perceber a vida e se em vez de nele rabiscares soltos poemas, iniciares o exercício das contas das escolhas e te aprimorares no uso do esquadro e das comparações, se ousares usar o tamborilar dos dedos para te acanhares no que foi ou será, temo que deixes de ouvir o Canto, aquele que exige o estado de distracção dos limites do mundo e dos próprios pensamentos.. o Canto, o Canto, o Canto que te encontra a sonhar no Agora!

quinta-feira, junho 24, 2010

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil

Exercício inventado para se amanhecer

 Todos os momentos são os escolhidos, para mais do que encostar as pálpebras, crer que se uma contra a outra as espremer com toda a força e se só se pensar no amado, chegado assim em colo ainda quente de pensamento, inevitavelmente algures se porá ele à janela de si próprio, como quem se vai elevar aos céus, só porque está a ser sonhado.

segunda-feira, junho 21, 2010

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil

Se estar ainda livre da última tábua que se solta da mão de quem treme frente ao trabalho que tem, o de selar alguém numa caixa que desce ao escuro ou à luz das chamas, faz sentido, então os olhos imensos não têm nem por onde descansar neste mundo.

domingo, junho 20, 2010

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil

A pomba de repente minha vizinha no cimo do telhado, dir-se-ia quase virgem em vôos, pois ao baixar dele, atirou-se como um homem e mais parecia que se ia suicidar.
Aprender a voar, ainda assim deve causar menor angústia do que morrer no ninho, de olhos escancarados no infinito.

segunda-feira, junho 14, 2010

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil

A poesia tem uma forma rara e esta pode rebentar, não ela própria, mas quem a ingere como a uma hilariante golfada do maravilhoso.
Quando alguém sofre esse rompimento de si por causa da poesia tomada, torna-se mais leve, como todos os corpos que se descosturaram na vida, por não caberem na sua própria figura.
A poesia tem volume dentro de alguém e só aí é questionável o grau da sua imensidade.

domingo, maio 09, 2010

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil

A coragem de criar abismos ou o abismo por criar coragens?  Parecem associados como a palma da mão ao tampo de algo, onde se pode ela recostar depois que tamborilou um sonho sobre essa superfície, mas nunca sobre uma qualquer  pele ainda que com forma bela, pois que quando os olhos desejam o mais longe há coisas que se evitam, se não ecoam um semelhante dentro, não servem.

sábado, abril 03, 2010

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil

Exercício da Velhice


Dói-nos a cabeça mais um olho e dentro dele, o que são os pensamentos enclausurados que se arrastam sem que se casem com a vida, nalguma coincidência.
Temos veias salientes nas costas das mãos e já as não conseguimos tirar do seu relevo, ao elevarmos os braços para as nuvens, que bem podiam embelezar o tecto enegrecido pelas horas a fio, do colar do tempo à pele.
Custa-nos, o não poder no último momento de sol, empurrar o nada mais para lá como se fosse um objecto afável.
Continua a doer-nos a cabeça onde guardamos tudo.
Já nela são tantas coisas, que as não achamos pela ordem em que as vivemos mas antes vão-nos espreitando, como um vizinho curioso que se mudou há pouco para a casa da frente.

À beira dos nossos amores tememos pela hora seguinte, e levantamo-nos de madrugada para os ouvir respirar, tal como se vai ouvir o mar para se não morrer.

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil

A chuva parece inclinar-se, precisamente porque nada venera. No entanto, quando assola brilhantemente as vidraças que parece que é para isso que estão à minha frente, é numa direcção, que porque eu a quisera seguir me absorve todo o corpo e também eu estranhamente, pareço nos meus sonhos inclinar-me.

domingo, janeiro 17, 2010

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil

Exercício de independência impossível

Tornar o mundo um miolo, achatá-lo com peso de corpo sobre o tampo atoalhado da mesa, arredondá-lo sob a palma linhosa da mão que o sente ínfimo desperdício, coisa que se pode perseguir se rola desatenta para o chão.

Olhá-lo desinteressadamente mesmo que já entre os pés calçados há horas, sem alterar uma pequena parte que seja da sua vaga importância, portanto nem sequer adesivá-lo com palavras inventadas e ele, o miolo, a ponto de esmiuçar-se perante a nossa indiferença e nós, a ruborizarmos sobre os ombros.

terça-feira, dezembro 29, 2009

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil,

A seiscentos quilómetros, comprimo os olhos com a pressão com que se embate quando se não pensa na queda e ela verticalmente acontece como sendo algo que se não pode desfazer como se faz às coisas com pontas.
A seiscentos quilómetros dou um último beijo nos teus sonhos sem que o notes, sem que os possas levar. Ficarei com algo deles numa das minhas mãos ocupada em dar a mão, se partires.

domingo, dezembro 13, 2009

Sim...

Roçamos de casacos postos a mesma porta, estão todos sob o meu acanhado tecto e isso, chama-se felicidade!! O céu não é perfeito como cobertura, pois que exige demasiada distância entre os pequenos seres cá em baixo, para se anunciar grande.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil,

Covent Garden 2009
foto:G.Ludovice


Há sítios de onde temos de ser arrancados, para deles sermos distância.

Disso se encarregam as pequenas circunstâncias, cujo efeito é comparável à leve mudança de agulha no carril do eléctrico que lá vem ou aos estranhos tratados históricos que nos traçam direcções sob os pés, como se o chão fosse subitamente móvel e nunca escutasse as nossas vontades mais certas. Nesse tabuleiro, somos jogados em jacto de dentro de nós para as ruas que sendo veias dos lugares, nos mancham de si ou com aparente mais sorte para dentro de casas, que se parecem a estômagos em constante digestão, enquanto escorre às carradas como chuva o tempo e morremos, como se isso fosse um regresso e não outra vez uma nova coisa apontada que nos espera e mais nos afasta.

Há sítios que como pessoas tão só são princípios.

domingo, novembro 29, 2009

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil

Aquilo que buscamos só pode talvez existir no instante.
O resto são lombadas disso, com estantes altas e robustas à espera de preenchimento.
Salas cheias delas defronte a olhos que antes fossem vagos,
porque o instante é uma princesa habitada por um beijo.

domingo, novembro 15, 2009

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil


E se aquilo a que na surpresa me encosto, for apenas sonho meu, não existe mundo do outro lado deste espreitar com todas as mãos, poucas sempre.

(Na sua ocupação de livrarem de tanto comprimento o corpo, estendido que está sob sentires que resvalam como se fossem telhas soltas, sim, são sempre poucas )

quarta-feira, novembro 11, 2009

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil

Angola
foto:G.Ludovice 2006


Além do que seja o mar ou as mãos que escrevem páginas cheias, por serem de palavras poucas os lábios que beijam, nada mais me cativa, por vezes. Parecem-se, a esse instante largo dos amantes que se não esvazia do vazio constante. Incessantemente, repito a fuga a tudo o que não é isso.