
Enquanto fui poeta, afrontei-me que mo chamassem; hoje tenho pena e saudade de o não poder já ser. Era uma viciosa vergonha a que eu tinha, porque não há melhores nem mais nobres almas que as dos poetas: agora o conheço bem, desde que o não sou, e que sinto as picadas das más paixões e dos acres sentimentos da baixeza humana avisarem-me que está comigo a idade da prosa [...]
Dieta, regularidade e moderação prolongam a juventude do corpo; mas quando a alma chegou a enrugar-se, não há higiene que a desfranza. A minha está velha; e a todos os achaques da velhice, junta essa fatal e matadora saudade do passado. Quanto dera eu por ver e sentir como via e sentia quando pensava pouco e sentia muito! Quem me dera ser o louco, o doido, o poeta que eu tinha vergonha de ser! E de que me serve a reflexão, a experiência, a razão como lhe chamam, se não é para ver de outro modo as ilusões da vida, para as ver do lado feio, torpe, baixo e vulgar, quando eu as via dantes esmaltadas de todas as cores do Íris, belas de toda a poesia que estava na minha alma, grandes de todas as virtudes que eram no meu coração! [...] este título de Flores sem Fruto[...] Nem todas são de Primavera estas flores: há de várias estações: fruto é que nenhuma deu. Deixariam de ser flores poéticas se o dessem[...]
Almeida Garrett
