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quarta-feira, agosto 06, 2008

«A unicidade do "eu" esconde-se exactamente no que o ser humano tem de inimaginável. Só podemos imaginar o que é idêntico em todos os seres, o que lhes é comum. O "eu" individual é o que se distingue do geral, portanto o que não se deixa adivinhar nem calcular antecipadamente, o que precisa ser desvendado, descoberto, conquistado no outro.»
Milan Kundera

(...) a felicidade, esse estado difuso resultante da impossível convergência de paralelas de uma digestão sem azia com o egoísmo satisfeito e sem remorsos, continua a parecer-me, a mim, que pertenço à dolorosa classe dos inquietos tristes, eternamente à espera de uma explosão ou de um milagre, qualquer coisa de tão abstracto e estranho como a inocência, a justiça, a honra, conceitos grandiloquentes, profundos e afinal vazios que a família, a escola, a catequese e o estado me haviam impingido para melhor me domarem, para extinguirem (...) no ovo os meus desejos de protesto e de revolta.
António Lobo Antunes, "Os cus de judas"

terça-feira, agosto 05, 2008

A palavra

Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.
Que resumiria o mundo
e o substituiria.
Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos,
saboreando-a.

Carlos Drummond de Andrade

Além da Terra, além do Céu

Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.
Carlos Drummond de Andrade

Le cancre


Il dit non avec la tête
mais il dit oui avec le coeur
il dit oui à ce qu'il aime
il dit non au professeur
il est debout
on le questionne
et tous les problèmes sont posés
soudain le fou rire le prend
et il efface tout
les chiffres et les mots
les dates et les noms
les phrases et les pièges
et malgré les menaces du maître
sous les huées des enfants prodiges
avec des craies de toutes les couleurs
sur le tableau noir du malheur
il dessine le visage du bonheur

Jacques Prévert

Poesia de Emily Dickinson

A word is dead
When it is said,
Some say.

I say it just
Begins to live
That day.


Uma palavra morre
Quando é dita,
Dir-se-ia.

Pois eu digo
Que ela nasce
Nesse dia.

Tradução: Aíla de Oliveira Gomes
"Por vezes é penoso cumprir o dever, mas nunca é tão penoso como não cumpri-lo."
Alexandre Dumas

segunda-feira, agosto 04, 2008

Crónica descosida porque me comovi

Se ao menos a gente pudesse viver com as coisas mais simples em vez de recordar as complicadas. Voltar à pobreza do elementar: luz, água, pedra. O avô de alguém que me é querido dizia de uma pessoa boa É bom como o pão e ao lado disto que maior elogio se pode fazer? A nossa língua torna-se maravilhosa com palavras como estas. É bom como o pão e lembro-me das mulheres que beijavam o pão duro antes de o deitar fora, da minha avó que se horrorizava ao ver um pão ao contrário: punha-o logo direito a pedir desculpa em silêncio, movendo a boca. Sempre me senti bem nas padarias: o cheiro, o lume, os padeiros enfarinhados que eu achava, acho ainda, serem anjos que se transviaram, de braços cobertos por uma poeira celeste. Tudo neles era branco até as sobrancelhas, as pestanas. O olhar branco também. Os gestos. Não olhos cegos, olhos brancos. E eu à porta a espantar-me. O eco das vozes nos tijolos, dos passos, da lenha no forno. Bom como o pão: ora toma, António. Aprende a escrever à maneira. O facto é que me interessa muito mais um padeiro que um economista. Ou um gestor.
Criaturas que, não sei porquê, me dão pena: economistas, gestores, administradores, directores, banqueiros. Deve ser triste ganhar dinheiro assim. O que sonhará um economista, a que brincava um gestor em criança? Ou nasceram já crescidos? Imagino-os debaixo do chuveiro, de gravata, a falar ao telemóvel.
……………… …………. ………
Sempre andei mal enjorcado, eu, para desespero da minha mãe:
Andas tão mal enjorcado, filho.
Todos os anos a minha companhia lá da guerra faz um almoço com os que sobejam da miséria em que andámos. Não neste último almoço, no penúltimo, o furriel Firmino Alves começou a anotar os telemóveis dos nossos camaradas para os contactos da refeição seguinte, até que chegou ao Pontinha. Pontinha é a alcunha do ordenança da messe de oficiais, que morava na Pontinha. Como a cabeça dele era grande (continua a ser grande) chamavam-lhe também Porta-aviões porque dava para os aviões aterrarem.
O Pontinha, como muitos dos soldados, vive com dificuldades. Ao fim-de-semana engraxa sapatos na mira de equilibrar o orçamento. Gosto muito do Pontinha a quem obrigava a cortar a carne em bocados de dois por três centímetros, por haver decidido ser a capacidade da minha boca. Media aquilo e exigia Quatro milímetros a mais, Pontinha, corta outra vez e o Pontinha, que remédio, cortava. Ainda hoje, nesses almoços, me quer cortar a carne. Falar nos meus camaradas comove-me: a expressão irmãos de armas é tão verdade. Enquanto nos aguentarmos por cá. Mesmo depois. Zé Jorge: continuamos irmãos de armas. Cabo Sota: admiro a tua coragem até ao fundo da alma. Sozinho com a Breda, uma metralhadorazeca, aguentou um ataque.
E vive mal, percebem? Como se deixa viver mal um herói? Ao acompanhá-lo ao táxi em que voltava, doente, ao Alentejo, avisei o condutor:
Você leva aí um grande homem, sabia, um dos maiores homens que conheço e, como todos os grandes homens da guerra, de uma infinita modéstia, bondoso e sereno. Não lhe chego aos calcanhares. Cabo Sota, tu mereces a continência de um general. O Zé Luís, oficial de operações especiais, que em matéria de coragem não necessitava de aprender com ninguém:
Eram duros
expressão que constitui para nós o supremo elogio. Adiante. Contava eu que o furriel Firmino Alves anotava os telemóveis até que chegou ao Pontinha e como fizera com os outros perguntou:
Tens um telemóvel, Pontinha?
e o Pontinha logo, a mostrar serviço:
Não, mas a minha mulher tem um microondas não fosse a gente pensar que ele era um badameco qualquer. Pode parecer esquisito ou parvo ou o que quiserem, mas quem cortava a minha carne era um magnata cuja mulher tem um microondas, e aí está o melhor título de nobreza (aliás o único) que possuo. Este ano o Pontinha, depois de me desdobrar o guardanapo (se eu o desdobrasse ele ofendia-se) olhou-me bem nos olhos e declarou:
Se quiser vou para sua casa, faço-lhe o comer, dou-lho e não levo um tostão por isso e eu todo arrepiadinho de ternura. Boaventura, Nini, Licínio, vocês todos caramba como a gente somos irmãos. Unamuno, que muito respeito, tem páginas admiráveis acerca da valentia dos portugueses. Tens razão, Zé Luís: eram duros. Ganas de explicar às mulheres deles, aos filhos deles, o orgulho que tenho em ser amigo dos pais, em que os pais sejam meus amigos. Não: irmãos de armas. Não: irmãos. E bons como o pão. Ao lado disto que maior elogio se pode fazer? Ao menos que o País os beije antes de os deitar fora e lhes peça desculpa. E há mais anjos para além dos padeiros, de arma nas unhas mata fora. Nenhum deles é banqueiro, claro. Nem administrador. Nenhum deles joga golfe. Jogaram golfe num campo de um só buraco onde não é a bola que cai.
É um rapaz de vinte anos. E acabo aqui, antes que seja tarde para marcar o número de um micro-ondas.

Começo a conhecer-me. Não existo

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida...
Sou isso, enfim...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.
Álvaro de Campos, Poesias
"Não somos responsáveis apenas pelo que fazemos, mas também pelo que deixamos de fazer. "
Molière


Rosa Amarela

A noite estava escura, sem lua, nem estrelas…
Fui vê-la, procurando a luz escondida na negritude!
Tudo era escuro, denso, negro!
As árvores negras esvoaçavam com o vento, no céu preto sem estrelas…
A relva já não era verde e dormia….
As flores estavam escondidas em sombras profundas!
Então, sobrepondo-se às sombras vi uma rosa,
Uma rosa amarela a iluminar o nocturno jardim.
Peguei na máquina fotográfica, seleccionei o flash…
E perpetuei-lhe a clara beleza para não me esquecer…

No mais triste dos dias, na mais escura das emoções, na mais densa das noites…
Há sempre uma rosa amarela, aguardando um flash ou um amanhecer!
Dinamene

domingo, agosto 03, 2008

Tua essência

É Verão! Dia quente!
Loucura do adormecido,
Nesse Inverno ausente.
Talvez por já ter sido,
Talvez por ter acabado,
A memória revigora,
Do trabalho, do enfado,
Dos sorrisos, na hora,
Convertidos em maneiras,
De labutas necessárias
Para prosseguir nos dias,
Com esta, aquela, entre várias
Pessoas, mais valias?

Que canseira!

É impossível ser diferente,
Quando te querem de outro modo.
Esse teu ser, tua essência,
Mudar? Sentires incómodo?
Não, o âmago, a tua valência,
Mantém-na inalterável.
As vozes saber-te-ão ler,
Num misto de aceitação, viável.
E aí, sim, prossegue! É preciso saber!
Aceite ou não, continua a luta.
Sê tu próprio, não desiludas,
Aqueles que a teu lado, na labuta,
Caminham contigo, e tu não mudas!

maria eduarda

Chopin é um frango

Os meus pais a quem a minha indiferença escolar preocupava.
(passei o liceu a fumar às escondidas e a pasmar para a mulher do farmacêutico e a universidade a jogar xadrez num cubículo sem janelas logo a seguir ao vestiário)
trataram de arranjar explicadores decididos a meterem-me na cabeça, à força, o que me recusava a aprender. Entre outros carrascos contrataram, tinha eu 13 ou 14 anos e uma alergia às aulas, um homem gordo que se deveria ocupar a fazer-me entrar em êxtase com o desenho geométrico, amontoando cubos, cilindros e pirâmides, a tracejado e a cheio, em papel cavalinho. Era num segundo andar ao Jardim das Amoreiras que cheirava a entretela e a almôndegas, o carrasco, o careca, suava de desespero a rosnar
- Camelo
enquanto eu, em lugar de ouvir, escutava as lições de piano do prédio vizinho no qual uma menina
(tinha a certeza que era uma menina de laço cor-de-rosa no cabelo, arame nos dentes e soquetes brancos)
tocava Chopin como quem arranca penas a um frango vivo. O sofrimento do frango quase me fazia chorar de puro dó e no dia seguinte dava por mim perplexo diante da canja do almoço, à cata de semifusas entre as bolhas de azeite e a garantir à minha mãe afastando o prato com as costas da mão
-Não quero comer Chopin
com ela a olhar também a sopa, receosa de que houvesse uma Polonaise ou um Nocturno a flutuar entre os miúdos. A minha repulsa por carne de galinha ia aumentando com as aulas do Jardim das Amoreiras em que me apetecia abandonar o careca para salvar o compositor moribundo dos dedos assassinos da menina de arame nos molares, levá-lo para casa debaixo do braço e deixá-lo em paz na capoeira a escrever as suas valsas repimpado no poleiro. Sempre que a canja regressava eu ia argumentando inabalável
-Não mastigo músicos
recordado do Chopin assassinado, três vezes por semana, à esquerda da projecção das esferas.
(...)
Estou certo que aos domingos todo o mundo engole Chopin com batatas fritas Pala-Pala, juntamente com as queijadas compradas no passeio de Opel a Sintra. Ninguém fala. Ninguém se preocupa. Ninguém se interessa. Ninguém protesta. O Greenpeace não faz nada. A Amnistia Internacional emudece. Os Direitos do Homem omitem. Mas posso assegurar-vos que sempre que me coloco à porta de uma cervejaria de churrascos oiço as tripas dos clientes que saem de palito na boca a maldizer o Governo
(as pessoas de palito na boca maldizem o Governo e as que nem palito têm maldizem a vida)
oiço as tripas dos clientes, dizia, tocarem borborigmos de claves de sol que uma camada de bagaço amortece.

António Lobo Antunes, Algumas Crónicas


"O riso é a linguagem da alma."
Pablo Neruda

sábado, agosto 02, 2008

"A ciência não é apenas compatível com a espiritualidade; ela é uma profunda fonte de espiritualidade."
Carl Sagan

sexta-feira, agosto 01, 2008

A sombra sou eu

A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre lá, sempre às portas de mim!

José de Almada Negreiros, Obras Completas.
"O livro é um mestre que fala, mas que não responde."
Platão

simplesmente nada

"Hoje mais nada se move, mesmo no fundo da memoria. Caminhamos sob o mapa das constelacoes, tao antigo quanto os homens e animais sobre a terra - tao antigo quanto a morte e a vida."

Al Berto in 'Lunario'

quinta-feira, julho 31, 2008

A mensagem

"Quando alguém se cruza no nosso caminho, traz sempre uma mensagem para nós. Encontros fortuitos são coisa que não existe. Mas o modo como respondemos a esses encontros determina se estamos à altura de recebermos a mensagem"


James Redfield, in A Profecia Celestina
"A dúvida é o princípio da sabedoria."
Aristóteles