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domingo, dezembro 14, 2008

Emocional

Sentir a felicidade
com a frequência exigida.
Aclamá-la com vigor,
estonteantemente.
Querê-la em si,
em divertimento e
em contentamento.
Abrir os braços ao Mundo,
afagar o horizonte,
abraçar o envolvente.
Caminhar embriagada,
emocionada, envaidecida.
Apreciar cada gesto,
cada palavra, cada afecto.
Conquistar a seriedade,
torná-la numa aliada,
dobrá-la em risos francos.
Apoderar-se da vida,
bloquear a tristeza,
repudiar a agonia,
ludibriar o malquisto,
rejeitar a solidão.
Acolher esta vontade enorme
de transpor o muro agreste,
que nos separa da alegria .
Querê-la sempre em dia,
actual, real, intemporal!
Sentir a felicidade!

maria eduarda

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Embriaguez

Há momentos felizes,
pedaços nos nossos dias,
passagens onde somos aprendizes
em aperfeiçoar as melodias.

Essas sim, vivê-las
sem receio, em plenitude,
embriagados, sem contê-las,
extravasá-las na sua magnitude.

Ouvir o som que embala,
embeleza esta passagem,
usufruir dele, em plena gala,
reflectir nele a nossa imagem.

Dançar sempre, neste salão,
ao som dos dias, notas musicais.
Contagiar até à exaustão,
persistir, não abandonar o cais.

E, quando a melodia acabar,
transferi-la para o coração,
enebriá-lo de um outro bailar.
Para viver, há sempre uma razão!
maria eduarda

LOS NADIES

EL LIBRO DE LOS ABRAZOS (fragmento)

Sueñan las pulgas con comprarse un perro y sueñan los nadies con salir de pobres, que algún mágico día llueva de pronto la buena suerte, que llueva a cántaros la buena suerte; pero la buena suerte no llueve ayer, ni hoy, ni mañana, ni nunca, ni en lloviznita cae del cielo la buena suerte, por mucho que los nadies la llamen y aunque les pique la mano izquierda, o se levanten con el pie derecho, o empiecen el año cambiando de escoba.


Los nadies: los hijos de nadie, los dueños de nada.


Los nadies: los ningunos, los ninguneados, corriendo la liebre, muriendo la vida, jodidos, rejodidos.


Que no son, aunque sean.


Que no hablan idiomas, sino dialectos.


Que no profesan religiones, sino supersticiones.


Que no hacen arte, sino artesanía.


Que no practican cultura, sino folklore.


Que no son seres humanos, sino recursos humanos.


Que no tienen cara, sino brazos.


Que no tienen nombre, sino número.


Que no figuran en la historia universal, sino en la crónica roja de la prensa local.


Los nadies, que cuestan menos que la bala que los mata.


(...)


Eduardo Galeano

Chuva, em mim…


O Inverno aproxima-se...
Vejo já o chão coberto de folhas douradas,
As árvores despidas...
Sinto o frio e a chuva!
E choro...
Aumenta-me a saudade, traz-me memórias tristes,
Chuva, também em mim...

Limpando lágrimas salgadas,
Procuro um pouco de calor,
Um raio de sol, uma lareira acesa,
Vasculho em mim recordações felizes do Inverno...
Encontro muitas...
Nascimentos, passeios, viagens, reencontros...
Encontro também um sorriso sereno…
Outro mais espalhafatoso!
Sol, então, em mim…
Porque, aqueles que amamos,
Permanecem em todas as Estações do ano,
Connosco, em memórias felizes!

Dinamene

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Frémitos

Adormeci muitas vezes,
acordei outras tantas.
Esperei que saísses do sonho
mas, entre os acordares meus,
nada aconteceu.
Então, resoluta, dormitei,
aquela sensação de embriaguês
entre estar e não estar.
Não mais te vi,
continuaste no sonho.
Talvez te acorde
quando voltar a adormecer
e, entre as pausas adormecidas,
poder ver-te como dantes,
no patamar da minha infância,
e nos degraus da minha adolescência.
Aí, poderei abraçar-te,
e ficar de ti,
com mais uma imagem,
que acrescento às outras vividas.
Eu estou por aqui,
até poder,
sempre com vontade de estar,
permanecer até conseguir,
até resistir...

maria eduarda

Dia mundial dos direitos humanos

Artigo 1.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos

"Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade."

terça-feira, dezembro 09, 2008

Sobreviver

A varanda a montante
espreita o campo em flor.
Vistas largas, cores imensas
se reflectem no semblante,
dão-lhe a ela outro sabor.

Crenças vividas nela,
piamente acreditadas
em dias com mais fulgor,
de uma vontade que sela
as derrotas transformadas,
em vitórias de uma cor.

Cor que traz esperança,
o verde de qualquer folha
a raiar em harmonia.
Acreditar nessa mudança,
confiar nesta outra escolha,
ouvir vozes em sintonia.

É o apelo da vida,
que a quer nela incluída.
Não desistir, trazer alento,
mesmo que comovida,
avançar, procurar a saída,
porque o agora, já foi momento.

maria eduarda
(dedico-lhe a ela, que luta agora)

segunda-feira, dezembro 08, 2008

Ambivalência

A nudez de um sorriso,
visto do lado de fora.
Por dentro, há a demora,
em transformá-lo no riso.

A vontade que insiste,
em rasgar o coração,
em colocar a emoção
num lugar que lhe resiste.

O riso , a par da mágoa,
caminham nos mesmos pés,
trilham linhas de viés,
receiam beber igual água.

Mas, a vontade aparece,
abre ao mundo o seu querer,
assim como o dia amanhece,
o sorriso entra no ser.
maria eduarda

domingo, dezembro 07, 2008

Morreu Alçada Baptista

O escritor e jornalista António Alçada Baptista morreu hoje aos 81 anos.António Alçada Baptista nasceu em 1927 na Covilhã. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, Alçada Baptista tem uma vasta obra literária publicada.
Esteve também ligado ao jornalismo e à edição. Foi ainda cronista.Identificado por muitos como “o escritor dos afectos” e um defensor da liberdade Alçada Baptista foi um dos fundadores da revista “O tempo e o Modo”, que marcou gerações. Era ainda editor da Moraes Editora.Alçada Baptista foi condecorado com a Ordem de Santiago, com a Grã Cruz da Ordem Militar de Cristo pelo Presidente Ramalho Eanes e com a Grã Cruz da Ordem do Infante pelo Presidente Mário Soares.Inês Pedrosa, directora da Casa Fernando Pessoa, lembrou, em declarações à TSF, o “homem de causas”: “Foi um homem de causas, dos direitos do homem e da democracia. Mas temo que seja esquecido enquanto escritor para ser lembrado enquanto pessoa”.
in Público

sábado, dezembro 06, 2008

Ausência

Quando me ausentar,
não se esqueçam de mim.
Eu deixo o aroma das rosas,
a fragância da açucena,
o esplendor de um raio,
em noite de escuridão.
Quando não mais estiver,
vejam-me no vosso reflexo,
na água límpida que vos espelha.
Então, acenem-me, chamem por mim,
sorriam-me, serenos,
e aí, eu partirei em paz.
Mas, não se esqueçam de mim!
Lembrem-se do que fui,
do que quis ter sido,
mas lembrem-se!
Não apaguem essa memória!


maria eduarda

As palavras

Apanhas do chão as palavras gastas,
como frutos podres;uma a uma,
no poema, formam a frase que
nunca imaginaste, com um sentido exacto.

E vês a árvore de onde caíram,
com as suas folhas de sílabas
e os seus ramos de verso, segredar-te
um musgo de sentimento ao ouvido.

Agora, as palavras são tuas.
Envolvem-te como a hera se agarra aos muros,
e crescem por ti dentro até à alma.

Então, colhe as palavras que te enchem,
antes que caiam como frutos podres, e
oferece-as a quem passa, no cesto do poema.

Nuno Júdice, in O Breve Sentimento do Eterno

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Isso de escrever..

Não a concebo (a inspiração) como um estado de graça nem como um sopro divino,mas como uma reconciliação com o tema à força de tenacidade e domínio...todos os obstáculos caem, todos os conflitos se afastam, e ocorrem-nos coisas que não tínhamos sonhado e então não há na vida nada melhor que escrever.
Gabriel García Márquez

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Trapaceira

Na praceta da aldeia,
um banco de cada cor,
e em cada cor, a estreia,
de um velho, sem ardor.

Haja ou não luz solar,
lentamente, sem favor,
leva-o intenção de falar,
acto que o imbui de calor.

Está à espera da vida,
que esta o surpreenda.
Hoje, a mesma, atrevida,
quis deixar uma oferenda.

Passou, e olhou de soslaio,
troçando dele, zombeteira,
levou-o consigo, num ensaio.
Iludiu-o, a matreira!

maria eduarda

Qual a escola dos teus sonhos?

«Para mim, é a escola que educa os jovens para extraírem força da fragilidade, segurança da terra do medo, esperança da desolação, sorriso das lágrimas e sabedoria dos fracassos.
A escola dos meus sonhos une a seriedade de um executivo à alegria de um palhaço, a força da lógica à singeleza do amor.
Na escola dos meus sonhos, cada criança é uma jóia única no teatro da existência, mais importante que todo o dinheiro do mundo. Nela, os professores e os alunos escrevem uma belíssima história, são jardineiros que fazem da sala de aula um canteiro de sonhos. »

Augusto Cury, "Pais Brilhantes, Professores Fascinantes"

terça-feira, dezembro 02, 2008

Escrevo hoje, não o farei dia 11!

Pai,
Parece-me que foi ontem! E eu, que não aprecio frases feitas, mas esta é real, ou talvez não.
Parece-me que não foi ontem, nem nunca. Parece-me que estás aí, em tua casa ou nos teus Bombeiros.
Pois, parece-me!
Afinal, realmente, não estás!
Partiste, e eu fico sem saber para onde foste. É sempre assim, vão para longe ou perto e nada nos dizem!
Porque não queres?
Porque não podes?
Porque sim?
Porque não?
Dizem-me, a vida é mesmo assim. Assim como? A acabar assim? Será que é o fim?
Pois é, meu querido Pai, se eu tinha tantas dúvidas, desde que partiste, mais dúvidas tenho.
Dizem que toda a gente é substituível, e isso, sei-o, é mentira. Podem ser substituídos no emprego, por exemplo, mas mesmo assim há especificidade em cada ser humano que faz dele um ser único no Mundo.
Mas olha, continuo a sentir saudades de ouvir a tua voz, de ver o teu sorriso, e de ouvir uma frase dita inúmeras vezes por ti, durante o ano de 2007: "-Olá filha!"
Só não gostei que não te tivesses queixado, declarado guerra ao Mundo, à vida, a tudo.
Mas tu és mesmo assim, pacífico, humano, tolerante. Sempre encaraste os revezes que te apareceram ao longo da vida, e lutaste sempre!
Estás em falta!
Rendeste-te no final, pela primeira vez não foste capaz de lutar, e abdicaste.O Mundo estava a ruir em cima de ti, e já era difícil reconstruí-lo.
Por tudo isto Pai, és insubstituível, agora e sempre! E já agora, olha Pai, quero dizer-te também, agora e sempre:

"Olá Pai!"

maria eduarda

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil


Parece ser que aquele com quem não especializaste o teu laço humano, há-de assaltar-te no caminho como um objecto inatável que não consegues segurar na amplitude dos teus braços.

O bom dia deve ser universal, ou seja, não deverá haver nenhuma sombra nele que possa fazê-lo como que distante de alguém, que está em comum campo de audição.

Mas também parece ser que quem mimaste com as tuas chamadas intimidades, também te poderá fazer sentir cruamente derrubável.

Ao lado de um ser humano, está-se sempre a passos curtos de uma loteria.

Sobre as crianças

Outra lição das minhas horas no parque.
Simpatizo com crianças, em abstracto. As crianças são o nosso futuro. É bom para as pessoas de idade estarem rodeadas de crianças, levanta-nos o moral. E assim por diante.
Aquilo que esqueço no que toca às crianças é a incessante algazarra que fazem. Falando cruamente, gritam. Gritar não é simplesmente falar muito alto. Não é nenhum meio de comunicação, mas sim uma maneira de abafar os rivais. É uma forma de auto-afirmação, uma das mais puras que existem, fácil de exercer e altamente eficaz. Uma criança de quatro anos pode não ser tão forte como um adulto, mas é decerto mais barulhenta. Uma das primeiras coisas que devíamos aprender no percurso para nos tornarmos civilizados: não gritar.
Diário de um mau ano, J.M.Coetzee
Sim, o que é o próprio homem senão um cego insecto inane a zumbir (?) contra uma janela fechada; instintivamente sente para além do vidro uma grande luz e calor. Mas é cego e não pode vê-la; nem pode ver que algo se interpõe entre ele e a luz. De modo que preguiçosamente (?) se esforça por se aproximar dela. Pode afastar-se da luz, mas não pode ir além do vidro. Como o ajudará a Ciência? Pode descobrir a aspereza e nodosidade próprias do vidro, pode chegar a conhecer que aqui é mais espesso, ali mais fino, aqui mais grosseiro, ali mais delicado: com tudo isto, amável filósofo, quão mais perto está da luz? Quão mais perto alcança ver? E contudo, acredito que o homem de génio, o poeta, de algum modo consegue atravessar o vidro para a luz do outro lado; sente calor e alegria por estar tão mais além de todos os homens (?), mas mesmo assim não continuará ele cego? Está ele um pouco mais perto de conhecer a Verdade eterna?
Fernando Pessoa, in 'Ideias Estéticas - Da Literatura'

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Conheço-te, desde que me conheço!

(o meu mano Xinho )
Não posso ocupar o teu lugar,
e resolver os teus problemas.
Não posso alterar o passado,
mas posso ouvir-te,
dar-te o meu ombro amigo.
Não posso estar sempre aí,
mas estou aí!
Não tenho todas as soluções
para os teus problemas,
mas posso acalmar os teus sobressaltos.
Quando precisares de mim,
faz um sinal,
dá-me uma pista.
Eu continuo sempre à espera,
mesmo quando não precisas,
eu estou à espera.
À espera de te ouvir,
ver-te sorrir,
sempre!
Conta comigo,
afinal sempre me conheceste,
eu já existia,
e estava lá,
quando olhaste e reparaste,
viste-me sorrir,para ti,
tenho a certeza.
Continuarei,
porque é assim que farei!

maria eduarda

O Cúmplice

Crucificam-me e eu tenho de ser a cruz e os pregos.
Estendem-me a taça e eu tenho de ser a cicuta.
Enganam-me e eu tenho de ser a mentira.
Incendeiam-me e eu tenho de ser o inferno.
Tenho de louvar e de agradecer cada instante do tempo.
O meu alimento é todas as coisas.
O peso exacto do universo, a humilhação, o júbilo.
Tenho de justificar o que me fere.
Não importa a minha felicidade ou infelicidade.
Sou o poeta.

Jorge Luís Borges, in "A Cifra"