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quinta-feira, outubro 16, 2008

«Não passo a vida a olhar-me ao espelho. Prefiro o espelho dos olhos daqueles que olham para mim.Vestir-me, maquilhar-me, pentear-me... faço-o por respeito, por cortesia.»
Juliette Gréco cantora, 81 anos

quarta-feira, outubro 15, 2008

«A felicidade para mim não se encontra nos bens materiais, está dentro do coração de cada um, e o coração não é material, é um sentimento, é o nosso ser. A meditação dá-nos a consciência do que nós próprios somos.»
Nuno Lobito "Sons do Silêncio"

Estou aqui e agora

Estou aqui onde me vêem, mas não estou aqui! Os meus sentidos sobrepõem-se ao meu querer e voam para nenhures, onde também não poderei estar.
Eu quero estar agora aqui, mas não posso. Não há razão para que me instale agora aqui, porque o meu querer foi anulado. Só os sentidos comandam a minha vontade.

A visão mostra-me o belo, o diáfano, a luz; a audição faz-me vibrar com uma melodia suave; o olfacto transmite-me o odor da terra molhada e também da maresia; o sabor é salgado e doce, uma mistura ímpar...

Soergo-me e toco o espaço que me circunda e, este gesto, este tacto, diz-me que devo estar aqui, onde me encontro, por enquanto.

E se os sentidos prevalecem, o querer é forte, deve enfrentá-los e tomar a dianteira!

Então, eu quero e posso estar aqui e agora!

maria eduarda



terça-feira, outubro 14, 2008

"Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo..."
Álvaro de Campos

sábado, outubro 11, 2008

Gramática de superfície

Londres
Foto:G.Ludovice 2008


Não é possível "retratar" as semelhanças existentes entre um retrato e o objecto retratado, também não é possível "dizer" , expressar mediante enunciados a forma lógica comum à linguagem e à realidade. Esta apenas se mostra, não se diz.
Ludwig Wittgenstein

Já não há nada a fazer!

"Ao longo da vida todos vamos ouvindo frases mais ou menos desagradáveis e daninhas, mas nenhuma é tão perversa como esta: “Já não há nada a fazer!” dita a um doente em fase terminal ou com doença incurável, é uma frase verdadeiramente assassina.Quem nunca a ouviu dê-se por muito feliz. Quem nunca a disse tente permanecer deste lado da barricada. Quem alguma vez a proferiu perceba o alcance do tiro que deu porque quem a ouve morre sempre um bocadinho. Começa a morrer naquele preciso minuto.Condenar os vivos a uma morte em vida é a pior condenação que conheço. E sei do que falo porque há anos que vivo com a memória do olhar de um amigo que me contou como era viver essa condenação num corredor de terminais de um hospital oncológico. Explicou-me como era acordar e adormecer todos os dias à espera de saber se era finalmente aquele o dia em que morria.O meu amigo chamava-se Paulo, tinha a idade de um dos meus irmãos, fazia mergulho com eles e não lhe apetecia nada morrer. Muito pelo contrário, adorava viver, tinha uma predilecção especial pelo fundo do mar e contava tudo o que via. Passava horas a fio dentro de água e tinha o sonho de viver uma vida longa, que lhe permitisse explorar aquele mundo líquido de luz e sombras. Aos 20 anos diagnosticaram-lhe um cancro e, como era novo, tudo aconteceu muito rápido. A doença evoluiu muito depressa e em poucos meses ele estava acamado na ala dos doentes terminais. Era duro visitá-lo porque era Verão. Fora do hospital havia sol e fazia calor, todos estávamos de férias, íamos à praia e mergulhávamos no mar de consciência pesada por podermos fazê-lo com inteira liberdade.“Disseram-me que já não havia nada a fazer e puseram-me aqui nesta ala onde só estamos à espera de morrer. É terrível. À noite tenho pesadelos e não consigo dormir, mas há quem chegue a pôr as campainhas de urgência fora do nosso alcance para não podermos chamar ninguém. Acham que é tempo perdido porque vamos morrer e não sabem o que nos hão-de fazer.”Lembro-me do gesto que desenhou no ar com o braço, para me mostrar o que queria dizer. Era alto, tinha sido um desportista e, por isso, ainda tinha uma amplitude de gestos notável dado o seu estado clínico, mas, mesmo assim, a mão não chegava à campainha pendurada num fio que alguém tinha posto num lugar realmente impossível de alcançar. Impressionou-me na altura e ainda hoje me faz impressão que haja profissionais de saúde sem vocação nem coração.Paulo passou o último mês da sua vida naquele corredor de terminais. Morreu num dia que amanheceu igual aos outros, cheio de sol e de luz. Nunca mais me esqueci da luz desse dia.Há profissões na vida, como as que a referi e outras que para além do vencimento que se aufere, é preciso ter vocação para elas. É preciso, é necessário podermo-nos dar aos outros. Só assim podemos ser verdadeiros profissionais."

Laurinda Alves, in "Público"

sexta-feira, outubro 10, 2008

As coisas

Trodel Markt, Dresden
Foto:G.Ludovice 2008

A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, essas tardias
Notas que não lerão meus poucos dias
Que restam, o baralho e o tabuleiro,
um livro e dentro dele a esmagada
Violeta, monumento de uma tarde
Por certo inolvidável e olvidada
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas, copos, cravos
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além do nosso olvido
E nunca saberão que já nos fomos.
Jorge Luís Borges

Prémio Nobel da Literatura 2008

Os escritor Jean-Marie Gustave Le Clézio foi o nome escolhido pela Academia Real Sueca como vencedor do Nobel da Literatura deste ano.
Desde 1985 que um escritor francês não ganhava o Nobel Literário. Aos 68 anos, Le Clézio, autor de romances de aventura, ensaios e literatura infantil, sucede à escritora britânica Doris Lessing, galardoada o ano passado.
O prémio foi instituído pelo milionário Alfred Nobel e estabelecido em 1901, com excepção para o Nobel da Economia, introduzido pelo Banco Central da Suécia em 1968.
Jean-Marie Gustave Le Clézio (il signe J.M.G. Le Clézio), né le 13 avril 1940 à Nice, est un écrivain franco-mauricien. Il connaît très vite le succès avec son premier roman publié, "Le Procès-verbal" en 1963. Influencé par ses origines familiales mêlées, par ses incessants voyages, et par son goût marqué pour les cultures amérindiennes, J.M.G. Le Clézio est également principalement connu pour ses romans Désert et Le Chercheur d'or, mais il est aussi l'auteur d'une quarantaine d'autres ouvrages de fiction (romans, contes, nouvelles) et d'essais. Le Prix Nobel de Littérature lui est décerné en 2008, en tant qu'« écrivain de nouveaux départs, de l'aventure poétique et de l'extase sensuelle, explorateur d'une humanité au-delà et en-dessous de la civilisation régnante. »

quinta-feira, outubro 09, 2008

Qual a sua experiência?

A redacção que se segue foi escrita por um candidato numa selecção de Pessoal na Volkswagen.
A pessoa foi aceite e o seu texto está a fazer furor na Internet, pela sua criatividade e sensibilidade
.

«Já fiz cócegas à minha irmã só para que deixasse de chorar, já me queimei a brincar com uma vela, já fiz um balão com a pastilha que se me colou na cara toda, já falei com o espelho, já fingi ser bruxo.
Já quis ser astronauta, tanguista, violinista, mago, caçador e trapezista; já me escondi atrás da cortina e deixei esquecidos os pés de fora; já estive sob o chuveiro até fazer chichi.
Já roubei um beijo, confundi os sentimentos, tomei um caminho errado e ainda sigo caminhando pelo desconhecido. Já raspei o fundo da panela onde se cozinhou o creme, já me cortei ao barbear-me muito apressado e chorei ao escutar determinada música no autocarro.
Já tentei esquecer algumas pessoas e descobri que são as mais difíceis de esquecer. Já subi às escondidas até ao terraço para agarrar estrelas, já subi a uma árvore para roubar fruta, já caí por uma escada. Já fiz juramentos eternos, escrevi no muro da escola e chorei sózinho na casa de banho por algo que me aconteceu; já fugi da minha casa para sempre e voltei no instante seguinte.
Já corri para não deixar alguém a chorar, já fiquei só no meio de mil pessoas sentindo a falta de uma única. Já vi o pôr-do-sol mudar do rosado ao alaranjado, já mergulhei na piscina e não quis sair mais, já tomei whisky até sentir os meus lábios dormentes, já olhei a cidade de cima e nem mesmo assim encontrei o meu lugar.
Já senti medo da escuridão, já tremi de nervos, já quase morri de amor e renasci novamente para ver o sorriso de alguém especial, já acordei no meio da noite e senti medo de me levantar. Já apostei a correr descalço pela rua, gritei de felicidade, roubei rosas num enorme jardim, já me apaixonei e pensei que era para sempre, mas era um 'para sempre' pela metade.
Já me deitei na relva até de madrugada e vi o sol substituir a lua; já chorei por ver amigos partir e depois descobri que chegaram outros novos e que a vida é um ir e vir permanente.
Foram tantas as coisas que fiz, tantos os momentos fotografados pela lente da emoção e guardados nesse baú chamado coração...
Agora, um questionário pergunta-me, grita-me desde o papel: " - Qual é a sua experiência?"
Essa pergunta fez eco no meu cérebro.
Experiência.... Experiência...
Será que cultivar sorrisos é experiência?
Agora... agradar-me-ia perguntar a quem redigiu o questionário:
- Experiência?! Quem a tem, se a cada momento tudo se renova???»


quarta-feira, outubro 08, 2008

«É melhor ser um ser humano insatisfeito que um porco satisfeito; melhor ser um Sócrates insatisfeito que um tolo satisfeito; e, se o tolo ou o porco tem uma opinião distinta, é porque eles só conhecem o seu próprio lado da questão.»

John Stuart Mill, in 'Utilitarismo'

Modos de Construir uma Personalidade

Modos de construir uma personalidade, ou os oito problemas principais: Queremos simplificar-nos, ou diversificar-nos? Queremos ser mais felizes, ou mais indiferentes à felicidade e à desgraça? Queremos ficar mais satisfeitos connosco, ou mais exigentes e mais impiedosos? Queremos tornar-nos mais amigáveis, mais indulgentes, mais humanos, ou mais desumanos? Queremos ser mais prudentes, ou mais impulsivos? Queremos atingir um fim, ou evitar todos os fins - como, por exemplo, faz o filósofo para o qual toda a espécie de fins tresanda, despropositadamente, a limites impostos, mesquinhez, prisão, toleima? Queremos ser mais respeitados e mais importantes, ou mais desconsiderados? Queremos tornar-nos tiranos, ou impostores? Pastores, ou carneiros?
Friedrich Nietzsche, in 'A Vontade de Poder'
Mude

Mas comece devagar,
porque a direcção é mais importante que a velocidade.
Sente-se noutra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde,
mude de mesa.
Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas, calmamente,
observando com atenção os lugares por onde passa.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os seus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.
Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia,
ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama...
Assista a outros programas de T.V., compre outros jornais...
leia outros livros,
Viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos,
escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores, novas delícias.
Tente o novo todo dia, o novo lado,
o novo método,
o novo sabor,
o novo jeito,
o novo prazer,
o novo amor,
a nova vida.
Tente.
Procure novos amigos.
Faça novas relações.
Ame muito,
cada vez mais, de modos diferentes.
Escreva outras poesias.
Vá a outros cinemas,
outros teatros,
visite novos museus.
Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só.
Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.
Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,
longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas,
mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança,
o movimento, o dinamismo, a energia.

Edson Marques

terça-feira, outubro 07, 2008

«A coisa mais fácil de fazer é aconselhar e repreender.»
Provérbio (anónimo)

O Valor da Crónica de Jornal

A crónica é como que a conversa íntima, indolente, desleixada, do jornal com os que o lêem: conta mil coisas, sem sistema, sem nexo, espalha-se livremente pela natureza, pela vida, pela literatura, pela cidade; fala das festas, dos bailes, dos teatros, dos enfeites, fala em tudo baixinho, como quando se faz um serão ao braseiro, ou como no Verão, no campo, quando o ar está triste. Ela sabe anedotas, segredos, histórias de amor, crimes terríveis; espreita, porque não lhe fica mal espreitar. Olha para tudo, umas vezes melancolicamente, como faz a Lua, outras vezes alegre e robustamente, como faz o Sol; a crónica tem uma doidice jovial, tem um estouvamento delicioso: confunde tudo, tristezas e facécias, enterros e actores ambulantes, um poema moderno e o pé da imperatriz da China; ela conta tudo o que pode interessar pelo espírito, pela beleza, pela mocidade; ela não tem opiniões, não sabe do resto do jornal; está nas suas colunas contando, rindo, pairando; não tem a voz grossa da política, nem a voz indolente do poeta, nem a voz doutoral do crítico; tem uma pequena voz serena, leve e clara, com que conta aos seus amigos tudo o que andou ouvindo, perguntando, esmiuçando. A crónica é como estes rapazes que não têm morada sua e que vivem no quarto dos amigos, que entram com um cheiro de Primavera, alegres, folgazões, dançando, que nos abraçam, que nos empurram, que nos falam de tudo, que se apropriam do nosso papel, do nosso colarinho, da nossa navalha de barba, que nos maçam, que nos fatigam... e que, quando se vão embora, nos deixam cheios de saudades.
Eça de Queirós, in 'Distrito de Évora'

segunda-feira, outubro 06, 2008

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil

Berlim, Nollendorfplatz
Foto:G.Ludovice 2008


No limiar de algo, está o sabor da realidade pronto para as papilas gustativas da vida.
Não que se tenha de saber o vento rasante da queda, para se saber o que isso é em profundidade, porque não é quando se busca que se encontra.
Também não se pense que todos esses sabores são agradáveis. Nem se imagine que existem com algum sentido. São apenas isso que não sabemos o que é, mais perto de nós, contrariando porventura a nossa independência de tais intimidades, quando assim numa tarde dos sentimentos e nalgum pomar de circunstâncias, se descobre sem esforço a manhã deles e então, o sabor ainda sem o amor das palavras vem ao de cima em nós, como uma coisa que nos encontra na sua viagem sem olhos.

Quem me mandou a mim querer perceber?

Como quem num dia de Verão abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos, E eu fico confuso, perturbado,
querendo perceber não sei bem como nem o quê...
Mas quem me mandou a mim querer perceber?
Quem me disse que havia que perceber?
Quando o Verão me passa pela cara,
A mão leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que eu o sinta,
Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo...

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXII"

sábado, outubro 04, 2008

Presente Nulo

Não é extraordinário pensar que dos três tempos em que dividimos o tempo - o passado, o presente e o futuro -, o mais difícil, o mais inapreensível, seja o presente? O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginarmos em extensão, não existe; temos que imaginar que o presente aparente viria a ser um pouco o passado e um pouco o futuro. Ou seja, sentimos a passagem do tempo. Quando me refiro à passagem do tempo, falo de uma coisa que todos nós sentimos. Se falo do presente, pelo contrário, estarei falando de uma entidade abstracta. O presente não é um dado imediato da consciência.
Sentimo-nos deslizar pelo tempo, isto é, podemos pensar que passamos do futuro para o passado, ou do passado para o futuro, mas não há um momento em que possamos dizer ao tempo: «Detém-te! És tão belo...!», como dizia Goethe. O presente não se detém. Não poderíamos imaginar um presente puro; seria nulo. O presente contém sempre uma partícula de passado e uma partícula de futuro, e parece que isso é necessário ao tempo.

Jorge Luís Borges, in 'Ensaio: O Tempo'

Benguela
Foto:G.Ludovice 2006

Porque não será dado a todos tomar parte na refeição da tarde? Seria tão belo!!
DIÁRIO, 11.3 1912, Kafka

sexta-feira, outubro 03, 2008

«Se podemos sonhar, também podemos tornar os nossos sonhos realidade.»
Walt Disney

Spinoza

Dresden
Foto:G.Ludovice 2008

"Todas as coisas querem persisitir no seu ser"
Baruch Spinoza



Um mimo ao Miguel Pyrrait