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domingo, setembro 07, 2008

Aprender com a experiência dos outros é menos penoso do que aprender com a própria.
José Saramago

Pertenço a um país

Excerto de um dos textos de Prado Coelho. Vale MUITO a pena ler. E pensar sobre.
«… pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais. Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.
Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos … e para eles mesmos. Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos. Pertenço a um país onde a falta de pontualidade é um hábito. Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano. Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e depois reclamam do governo por não limpar os esgotos. Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros. Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é “muito chato ter que ler”) e não há consciência nem memória política, histórica nem económica. Onde nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar a alguns.
Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser “compradas”, sem se fazer qualquer exame. Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não dar-lhe o lugar. Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão. Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes».
Eduardo Prado Coelho

sábado, setembro 06, 2008

Sigmund Freud

"Como fica forte uma pessoa quando está segura de ser amada!"
S.Freud

Casa onde viveu Freud, em Viena de Áustria, hoje Museu.
"Nenhum ser humano é capaz de esconder um segredo. Se a boca se cala, falam as pontas dos dedos"
S.Freud
A última morada de Freud, no seu exílio em Londres.

Fotos:G.Ludovice 2008

"É quase impossível conciliar as exigências do instinto sexual com as da civilização." S.Freud

A crença em Deus subsiste devido ao desejo de um pai protector e da imortalidade ou como um ópio contra a miséria e sofrimento da existência humana.

Sigmund Freud

Leia, Ouça, Veja, mas sobretudo, Pense

Se grandes invenções ou descobertas, como o fogo, a roda ou a alavanca, se fizeram antes que o homem fosse, historicamente, capaz de escrever, também se põe como fora de dúvida que mais rapidamente se avançou quando foi possível fixar inteligência em escrita, quando o saber se pôde transmitir com maior fidelidade do que oralmente, quando biblioteca, em qualquer forma, foi testamento do passado e base de arranque para o futuro. A livro se veio juntar arquivo, para o que mais ligeiro se afigurava; e fora de bibliotecas ou arquivos ficaram os milhões de páginas de discorrer ou emoção humana que mais ligeiras pareceram ainda, ou menos duradouras. Escrevendo ou lendo nos unimos para além do tempo e do espaço, e os limitados braços se põem a abraçar o mundo; a riqueza de outros nos enriquece a nós. Leia.
Agostinho da Silva

Ser Surpreendido Por Tudo ou por Nada

Ser surpreendido por tudo é claro que é estúpido, e não ser supreendido por nada é algo que é considerado muito melhor. Mas isso não é realmente verdade. A minha mente não ser surpreendida por nada é muito mais estúpido do que ser surpreendido por tudo. Além disso, não ser surpreendido por nada é quase igual a não se sentir respeito por nada. E é realmente um homem estúpido aquele que é incapaz de sentir respeito.
Fiodor Dostoievski

Vivemos de Palavras

Nenhum de nós sabe o que existe e o que não existe. Vivemos de palavras. Vamos até à cova com palavras. Submetem-nos, subjugam-nos. Pesam toneladas, têm a espessura de montanhas. São as palavras que nos contêm, são as palavras que nos conduzem.
Mas há momentos em que cada um redobra de proporções, há momentos em que a vida se me afigura iluminada por outra claridade. Há momentos em que cada um grita: - Eu não vivi! eu não vivi! eu não vivi! - Há momentos em que deparamos com outra figura maior, que nos mete medo. A vida é só isto?

Raul Brandão, in "Húmus"

sexta-feira, setembro 05, 2008

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil

Foto:G.Ludovice 2008

Hoje apercebo-me não propriamente do tempo, mas da mecânica do universo.
Vinte e oito voltas ao sol, assente na terra, pode dar alguém que tenha até agora olhado por mim, desde um ângulo zero de si no mundo, que entretanto se tornou melhor porque ao se tornar existente nele, o faz resplandecer não apenas a ele, mas também a quem sou eu.
Como se agradece a quem chega por bem? Mastigando o mesmo pão, esse mesmo quê !!

Para a minha Múkua, TÃO JÁ ESTRELA

"Os velhos têm tanta necessidade de afecto como de sol."
Victor Hugo

quinta-feira, setembro 04, 2008

"O ensino da filosofia não precisa ser complexo, intricado. Tem a ver com curiosidade, a mania de fazer perguntas, algo que perdemos na cultura ocidental quando envelhecemos."
Jostein Gaarder

O Mistério do Jogo das Paciências

O ponto de partida deste livro de Jostein Gaarder é a história de um garoto chamado Hans-Thomas e do seu pai, que cruzam a Europa, da Noruega à Grécia, à procura da mulher que os deixou oito anos antes. No meio da viagem, um livro misterioso desencadeia uma narrativa paralela, em que mitos gregos, maldições de família, náufragos e cartas de baralho, que ganham vida, transformam a viagem de Hans-Thomas numa autêntica iniciação à busca do conhecimento, à filosofia. Este livro é a história de muitas viagens fantásticas que se entrelaçam numa viagem única e ainda mais fantástica - e que só pode ser feita por um grande aventureiro: o leitor.
O livro é maravilhoso. O escritor escreve sobre um tema difícil, a filosofia, com uma linguagem simples e acessível, tendo como fio condutor uma história muito divertida.
O narrador é uma personagem infantil e o autor Jostein Gaarder consegue a excelência, pois nada soa a forçado ou absurdo. Traz-nos uma linguagem simples, apropriada ao vocabulário que se espera de uma criança. As conversas entre o pai e o filho ao longo da viagem são excelentes.
Este é, quanto a mim, um livro excepcional, maravilhoso, dos tais que nos prende da primeira à última linha.

Ignorância Sábia

Aconteceu aos verdadeiros sábios o que se verifica com as espigas de trigo, que se erguem orgulhosamente enquanto vazias e, quando se enchem e amadurece o grão, se inclinam e dobram humildemente. Assim esses homens, depois de tudo terem experimentado, sondado e nada haverem encontrado nesse amontoado considerável de coisas tão diversas, renunciaram à sua presunção e reconheceram a sua insignificância. (...)
Quando perguntaram ao homem mais sábio que já existiu o que ele sabia, ele respondeu que a única coisa que sabia era que nada sabia. A sua resposta confirma o que se diz, ou seja, que a mais vasta parcela do que sabemos é menor que a mais diminuta parcela do que ignoramos. Em outras palavras, aquilo que pensamos saber é parte — e parte ínfima — da nossa ignorância.

Michel de Montaigne, in 'Ensaios'

quarta-feira, setembro 03, 2008

Gramática de superfície

Dresden
Foto: G.Ludovice 2008



“O pensamento contém a possibilidade da situação que ele pensa. O que é pensável, é também possível.
Não podemos pensar nada ilógico, porque senão teríamos que pensar ilogicamente.”


"Tratado Lógico-Filosófico” de Ludwig Wittgenstein
"Todas as flores do futuro estão nas sementes de hoje."
Provérbio chinês

terça-feira, setembro 02, 2008

À memória de Fernando Pessoa

Se eu pudesse fazer com que viesses
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão -
Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida - esta boémia
Coberta de farrapos e de estrelas,
Tristíssima, pedante, e contrafeita,
Desde que estes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma: Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio de descrença
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns senhores que tu já conhecias
- Autênticos patifes bem falantes...
E a mesma intriga: as horas, os minutos,
As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma cor, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver -
Sem estímulo, sem fé, sem convicção...
Poetas, escutai-me. Transformemos
A nossa natural angústia de pensar -
Num cântico de sonho!, e junto dele,
Do camarada raro que lembramos,
Fiquemos uns momentos a cantar!

António Botto, in "Poema de Cinza"

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil

Penso em ti! Multiplicadas vezes, como se soubesse eu a tabuada de ontem. Que desdém sinto por não saber contar normalmente, sem que se me alargue o mundo desta maneira. Avisto as suas pontas ainda assim, e são só mar também. Tudo está engolido nele.
Tales de Mileto, que intuição!!
"Não há que ser forte. Há que ser flexível."
Provérbio chinês

Recomeço

Observe a natureza,
tudo nela é recomeço.
No lugar da poda surgem os brotos novos.
Com a água, a planta viceja novamente (renasce).
Nada pára.
A própria terra se veste diferentemente todas as manhãs.
Isso acontece também connosco.
A ferida cicatriza, as dores desaparecem,
a doença é vencida pela saúde,
a calma vem após o nervosismo.
O descanso restitui as forças.
Recomece. Anime-se.
Se preciso, faça tudo novamente.
Assim, é a VIDA!

Autor desconhecido

O Céu

O céu colabora na nossa vida íntima, vive connosco, acompanha-nos na mudança do nosso ser; é um confidente, é um consolador; invoca-se, fala-se-lhe.
Olhar o céu é, nos nossos climas, uma ocasião de viver: instintivamente, voltamos para ele os nossos olhos. O poeta meridional, cheio de imagens e de cores, contempla-o; o burguês trivial, admira-o; pela manhã, abre-se a janela e vai-se ver o céu! É um íntimo sempre presente na nossa vida; o nosso estado depende dele: enevoado, entristece-nos; claro e lúcido, alegra-nos; cheio de nuvens eléctricas, enerva-nos. É no Céu que vemos Deus... E mesmo despovoado de deuses, é ainda para o homem o lugar donde ele tira força, consolação e esperança. A paisagem é feita por ele, a arte imita-o, os poetas cantam-no.

Eça de Queirós, in 'O Egipto'

o apocalipse dos trabalhadores

Este livro "é um retrato do nosso tempo, feito da precariedade e dessa esperança difícil. um retrato desenhado através de duas mulheres-a-dias, um reformado e um jovem ucraniano que reflectem sobre os caminhos sinuosos do engenho e da vontade humana num portugal com cada vez mais imigrantes e sobre a forma como isso parece perturbar a sociedade."
(na contracapa do livro)

O escritor, valter hugo mãe, que só escreve com minúsculas, Prémio José Saramago em Outubro de 2007, publicou em Julho o seu novo romance, o apocalipse dos trabalhadores , em que «maria da graça – mulher-a-dias em bragança esquecida do mundo – tem a ambição, não tão secreta como isso, de morrer de amor; e por essa razão sonha recorrentemente com a entrada no paraíso, onde vai à procura do senhor ferreira, seu antigo patrão, que, apesar de sovina e abusador, lhe falou de goya, rilke, bergman ou mozart como homens que impressionaram o próprio deus. mas às portas do céu acotovelam-se mercadores de souvenirs em brigas constantes e são pedro não faz mais do que a enxotar dali a cada visita. tal como maria da graça, todas as personagens deste livro buscam o seu paraíso; e, aflitas com a esperança, ou esperança nenhuma, de um dia serem felizes, acham que a felicidade vale qualquer risco, nem que seja para as lançar alegremente no abismo.»