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sábado, janeiro 31, 2009

Cortar o tempo



«Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente.»

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Meio-dia

Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.
O sol no alto, fundo, enorme, aberto,
Tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo.
Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso solitário e antigo,
Parece bater palmas.

Sophia de Mello B. Andresen

terça-feira, janeiro 27, 2009

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil


Baía Azul 2006
Foto:G.Ludovice
EXERCÍCIO DE COMPREENSÃO

Ele traduz uma palavra com cuidados de mãe, por uma outra que ele sabe, mas não eu.
Levaria o resto da vida para perceber onde põe ele as cores numa cidade, se lhe é pedido que a preencha de tons.
É por isso que não lhe entendo as palavras, mesmo que já destrocadas cada vez mais em significados mais simples e prefiro pensar, que se em vez da cidade como exercício para eu lhe compreender as palavras originais, esta passasse a ser um corpo de mulher, eu já conseguiria ler-lhe nos lábios o entendimento que tem do mundo, porque então eu seria essa rua grande cheia de ruas, que receberia as cores.

O percurso

Era imenso, o pensamento,
percorria vias livres
e interditas,
espreitava os atalhos, os becos,
regressava descontente,
pelas palavras não ditas,
de imagens ainda em mente,
de episódios mal contados, mal vividos,
nas histórias acontecidas.
E, prosseguia nessa inglória,
à procura de razões, de justificações.
Essas, foram omitidas,
caladas, consentidas.
Válidas, na altura,
se ditas, explicadas, admitidas!
E o pensamento parou
no silêncio do agora,
despiu-se de preconceitos,
vestiu-se de resignação.
Alterar o vivido?
Inquestionável, fora de controlo,
inalterável.
Prosseguir o momento,
dar-lhe futuro
e, mesmo nos atalhos,
descobrir consciente
a dualidade do viver,
no passado e no presente,
não podendo ser omnipresente,
nem mesmo omnisciente!


maria eduarda

Ler

(...) Ouvir alguém ler em voz alta é muito diferente de ler em silêncio. Quando se lê, pode-se fazer paragens ou saltar as frases: do tempo decidimos nós. Quando é outro a ler é difícil fazer coincidir a nossa atenção com o tempo da sua leitura: a voz ou segue muito rápida ou muito lenta. E ouvir alguém que vai traduzindo de outra língua implica um flutuar de hesitações em volta das palavras, uma margem de indeterminação e de provisioridade. O texto, que quando somos nós a ler é uma coisa que está presente, com a qual somos obrigados a deparar-nos, quando nos é traduzido oralmente é qualquer coisa que está e não está, que não se consegue tocar.(...)
Italo Calvino, Se numa noite de inverno um viajante, Col. Mil folhas, Ed. 2002
"Se"
Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem.

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, janeiro 25, 2009

A visita

Benguela 2006
foto:G.Ludovice

A VISITA
Doce e aflita, para desandar com os mosquitos da injustiça, pousa-lhe devagar junto onde descansa a cabeça bem trançada, no absoluto quase escuro da noite, um pequeno prato com guloseimas em jeito de biscoitos.
A mulher negra arqueia-se em curiosidade e pergunta-lhe, para que quer ela que ela coma na hora da sombra maior, e a mulher branca só resmunga algo, num furor amansado de pergunta que cresceu junto ao corpo.

Onde estavas, que não brincaste comigo? Esperei muito no meu quarto largo, em tardes que se esticavam, enredada em brinquedos só para mim. Por que razão não vieste? Eu tanto queria fazer contigo as bonecas, que eram por ti começadas pelo enchimento de umas tiras de panos, com pano, até se formar mais acima aquela barriga e logo os braços, depois a cabeça no desafio final, com os olhos tesourados também em pano, cosicados no pano do rosto. Duravam menos que as loiras, que apesar de resistentes, já só chegavam se por acaso ao teu bairro, em estado de vítimas de abusada guerra, mutiladas de membros, zarolhas no seu azul de olhos de abrir e fechar, com a cabeleira amadoramente recortada, meias esfarrapadas a precisarem dos teus panos coloridos nos seus troncos cor-de-rosa já esfolados, sem nome nem aquele cheiro de loja, mas com aquele perfume dos usos.Eram tão oxigenadas de natureza, que até para mim se tornava complicado criar uma árvore genealógica, em que elas pudessem ser minhas filhas.

Um dia trouxe nas minhas elaborações femininas, um alemão bem loiro que vivia num submarino num filme de guerra e passou a ser o pai delas.
Todos os natais lá vinham, com mais uma nórdica deslavada importada para os trópicos e que por destino fácil de explicar, ia parar não à tua, mas à minha árvore ainda com pistas de resina, vestida ricamente de verdes agulhas, de onde pendiam ora anjos, ora sinos e bolas, onde me podia espreitar em deformação nas suas curvaturas brilhantes.Dos teus anseios, nada me chegou inteiro.

Em que musseque saltitavas com os miúdos da mesma pobreza, por entre as poças de água da chuva, que não te pude oferecer nem uma nova boneca loira, ainda de pestanejo móvel em condições, com que inventava sozinha lares na minha casa grande?

Haveríamos juntas de arranjar uma solução para que fossem tuas filhas também, como as tuas nascidas de pano, minha descendência.
Na minha casa existiam janelas de vidro do tamanho de paredes inteiras, mas nunca te vi passar sempre que me empoleirei para cheirar o mundo e, por isso, só me visitavas a imaginação através dos sons nocturnos dos tambores em noites de festa.Agora temos de pôr no pano do coração, os mimos que não destrocámos na meninice.
A mulher negra fica só de olhos cogitantes, suspensa na delícia de outra bolacha enchapelada de creme, no exagero da branca já de carunchos como ela, a querer não perder mais do que já perdeu. 2007

sábado, janeiro 24, 2009

Ser Angolano

Ser angolano é meu fado,é meu castigo.
Branco eu sou e pois já não consigo
mudar jamais de cor ou condição...
Mas, será que tem cor o coração?

Ser africano não é questão de cor,
é sentimento, vocação, talvez amor.
Não é questão nem mesmo de bandeiras,
de língua, de costumes ou maneiras...

A questão é de dentro, é sentimento,
e nas parecenças de outras terras,
longe das disputas e das guerras,
encontro na distância esquecimento!

Neves e Sousa (Pintor e Poeta Angolano)

A Barbie do Cuíto

Uma tarde apareceu no Centro Médico um português [...] a distribuir brinquedos. Viu a menina e estendeu-lhe uma boneca. A menina segurou a boneca com cuidado. Achava-a estranha, muito magra, demasiado pálida, com uma cabeleira escorrida e loura, a lembrar uma espiga de milho bem madura. Algo nela lhe parecia ainda mais estranho: tinha duas pernas.


José Eduardo Agualusa

«A vida num sopro» de José R. dos Santos

“Portugal, anos 30.
Salazar acabou de ascender ao poder e, com mão de ferro, vai impondo a ordem no país. Portugal muda de vida. As contas públicas são equilibradas, Beatriz Costa anima o Parque Mayer, a PVDE cala a oposição.
Luís é um estudante idealista que se cruza no liceu de Bragança com os olhos cor de mel de Amélia. O amor entre os dois vai, porém, ser duramente posto à prova por três acontecimentos que os ultrapassam: a oposição da mãe da rapariga, um assassinato inesperado e a guerra civil de Espanha.
Através da história de uma paixão que desafia os valores tradicionais do Portugal conservador, este fascinante romance transporta-nos ao fogo dos anos em que se forjou o Estado Novo.
Com A Vida Num Sopro, José Rodrigues dos Santos confirma a sua mestria e o lugar que já ocupa nas letras portuguesas.”


(na contracapa do romance)


Fantástico!!! Por tudo. Porque nos transporta para outra época, dando-nos a conhecer, ao pormenor, os costumes de então, porque nos entusiasma o amor que nasce entre aqueles jovens, porque participamos, sem lá termos estado, na guerra civil de Espanha, porque, sem nos darmos conta, um pouco mais que a meio do livro, estamos sem fôlego, não querendo acreditar no que está a acontecer e não conseguimos deixar de ler. Lê-se, verdadeiramente, num sopro! Acho que nunca me tinha acontecido o que este livro me levou a fazer. A verdade é que não me contive. Tive de ir espreitar as últimas páginas, antes do epílogo. Se gostei de todos os livros do autor, este, muito diferente dos últimos, com algumas semelhanças ao romance “A Filha do Capitão”, deixou-me emocionada e com a certeza de que quero ler todos os livros que JRS irá escrever.

Meninices

Em garota,
tive um motorista de táxi,
um miúdo alegre, brincalhão,
que me chamava, por vezes,
para as brincadeiras de então.
A tampa de uma panela,
um guiador de automóvel,
o chão do pátio, o assento,
a sua voz, no intento,
do ruído da viatura,
a estacionar,
ou em movimento.
Eu pedia permissão,
indicava o destino,
e atento,
o meu motorista
sem hesitação,
levava-me ao mundo da fantasia,
à viagem da ilusão.
Incluía-me ele, nessa tropelia,
nessa felicidade,
em crianças em idade,
felizes, no seio da família.
Nossa mãe passava,
na sua azáfama diária,
e um sorriso lançava
aos filhos em harmonia.

maria eduarda

sexta-feira, janeiro 23, 2009

O "Diário" de Sebastião da Gama tem 60 anos


«Janeiro, 11 (de 1949) - Para começar, o metodólogo falou connosco durante uma hora. De acordo com o que disse, vão ser as aulas de Português o que eu gosto que elas sejam: um pretexto para estar a conviver com os rapazes, alegremente e sinceramente. E dentro dessa convivência, como quem brinca ou como quem se lembra de uma coisa que sabe e que vem a propósito, ir ensinando. Depois, esta nota importantíssima: lembrar-se a gente de que deve aceitar os rapazes como rapazes: deixá-los ser: "porque até o barulho é uma coisa agradável, quando é feito de boa-fé."
Houve nesta conversa uma palavra para guardar tanto como as outras, mais que todas as outras: "O que eu quero principalmente é que vivam felizes"

Sebastião da Gama, "Diário"

quinta-feira, janeiro 22, 2009

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Coisas que se pensam quando qualquer outra coisa seria menos inútil,

Não existe especialização de habilidades se as mãos estiverem agarradas a uma contorsão de barriga, que perdure tanto quanto a nossa existência.
Maslow foi o psicólogo do óbvio, mas não obstante o óbvio parecer carecer de valor por ser vulgar, a constatação de que decerto não haveria cultura, se constantemente tivessemos uma forte dor de cabeça ou se simplesmente a insónia passasse a ser um estado presente na nossa vida como uma faca num porco a sangrar, tal adversidade faria recuar o desprezo que geralmente temos pelo mais óbvio.

Fazer sentido

Quando o meu rosto
se traduzir num mapa,
recheado de linhas,
quero saber-te aqui,
e, olhando-me, conheceres
nas linhas minhas,
o caminho percorrido,
o atalho escolhido,
as regras transgredidas,
e o amor por ti sentido.
Quero que a ternura impere,
cimentada em uníssono,
neste nosso caminhar,
na luta par a par,
travada contra tempos,
que não nos davam vitória!
Quero olhar para ti e,
em cada linha do rosto teu,
ver reflectido um esboço meu,
da viagem percorrida, unida,
sempre,sem despedida!
Só assim a luta faz sentido,
porque assim foi nosso, o vivido!

maria.eduarda

O percurso do estar feliz, estadia em movimento?

Quando chego a Nathal, pergunto a mim próprio o que é que faço em Nathal, chego a Viena e pergunto a mim próprio o que é que faço em Viena.
E a verdade é que apenas sou feliz quando estou sentado no carro entre o lugar que acabei de deixar e o outro para onde me dirijo, apenas sou feliz no carro e durante a viagem, mas sou o mais o infeliz recém-chegado que se pode imaginar, onde quer que chegue, logo que chego sou infeliz. Sou daquelas pessoas que no fundo não suportam nenhum lugar do mundo e só são felizes entre os lugares de que partiram e para onde se dirigem. Ainda há alguns anos eu acreditava que uma tal fatalidade mórbida teria de conduzir forçosamente, dentro de pouco tempo, a uma loucura total, mas não me conduziu a essa loucura total, preservou-me efectivamente de uma tal loucura, de que tive toda a minha vida o maior pavor.
Thomas Bernhard, O sobrinho de Wittgenstein, uma amizade, Assírio e Alvim, 2000

terça-feira, janeiro 20, 2009

Em Louvor das Crianças

Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso. A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue. O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus.
Eugénio de Andrade

segunda-feira, janeiro 19, 2009


«A lei de ouro do comportamento é a tolerância mútua, já que nunca pensaremos todos da mesma maneira, já que nunca veremos senão uma parte da verdade e sob ângulos diversos.»
Gandhi

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Libertação

Não batas a porta,
fecha-a suavemente,
estou aqui, e importa
ouvir o silêncio premente.

A paz pretendo atingir,
no sossego da palavra,
na ausência a surgir,
onde já não sou escrava.

Liberta-me, vou partir,
deixo-te o afecto antigo,
hoje, o desejo é sentir
o abandono do abrigo.

Quero ir, pretendo ser
alguém que dentro de mim,
reclama em aparecer,
é chegada a hora, enfim.

Deixo a porta fechada,
não há intenção de a abrir,
vou por uma qualquer estrada,
para por fim emergir.

maria eduarda

A Evolução Opaca do Ser

Muitas vezes os seres são claros e translúcidos por serem primários e, à medida que vão evoluindo, vão-se tornando opacos. Pensemos. Talvez seja isto: à medida que mais evoluindo vamos, é que vão sendo precisos olhos mais penetrantes para se poder distinguir a qualidade de um ser. Então não será só à luz do sol que se deverá considerar a limpidez ou a translucidez do corpo de um ser, mas à luz de outros princípios luminosos. (...) Aqui a razão precisava de ter evoluído paralelamente aos olhos, ora os nossos olhos vão de encontro aos seres como de encontro a um muro.

Ana Hatherly, in "O Mestre"