
A acção principal do romance Memorial do Convento é a construção do Convento de Mafra. D João V promete mandar construir o convento, se a sua esposa engravidar. A História reaparece através da ficção, aliás, os dados históricos entrelaçam-se constantemente com episódios ficcionais.
O narrador coloca-se do lado do trabalhador, que dia e noite edifica o convento: "por via destes e outros tolos orgulhos é que se vai disseminando o ludíbrio geral, com suas formas nacionais e particulares, como esta de afirmar nos compêndios e histórias, Deve-se a construção do Convento de Mafra ao rei D. João V, por um voto que fez se lhe nascesse um filho, vão aqui seiscentos homens que não fizeram filho nenhum à rainha e eles é que pagam o voto, que se lixam, com perdão de anacrónica voz" (p.257).
São também relatados os autos-de-fé praticados pela Inquisição e, a par da acção principal, viajamos para um mundo doce, mágico, que envolve Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas, que consegue ver dentro das pessoas. Estas duas personagens são muitas vezes o fio condutor da intriga, conferindo-lhe ternura.
Muito mais haveria a referir mas, tal não vai suceder aqui, porque se trata somente de uma simples abordagem da narrativa.
Boa leitura!
Maria Eduarda, não resisto!
ResponderEliminarQue bom recordares “O Memorial do Convento”, que é um dos meus livros preferidos, para não dizer o PREFERIDO!!! Que pena o tempo não nos chegar para ler e reler os melhores! Este livro, como todos os do Saramago, tem uma linguagem especial, um vocabulário riquíssimo e é soberbo nas descrições, nos pormenores, na transmissão de emoções, também de conhecimento, no tal encadeamento da realidade e da ficção.
Para além dos amores de Baltasar e de Blimunda, quero ainda recordar a personagem Padre Bartolomeu Lourenço, que atribuiu a Baltasar e a Blimunda os apelidos de Sete-Sóis e Sete-Luas, respectivamente, (ele “vê às claras” e ela “vê às escuras”) e que é também crucial em toda a trama.
Foi o padre que queria voar e morreu doido. «Aquele que ali vem é o padre Bartolomeu Lourenço, a quem chamam o Voador» (Cap. VI).
O padre que quer voar, Bartolomeu de Gusmão, é também um pilar da acção. Quero lembrar a construção da Passarola, com a ajuda de Baltasar, a partir dos projectos de Bartolomeu de Gusmão, e que voa graças às intenções humanas encerradas, que Blimunda agarrara nos corpos das pessoas, simbolizando a condição humana como condição sagrada. O Padre apresenta, a Baltasar e a Blimunda, o resultado da sua aprendizagem na Holanda. O éter, que fará voar a passarola, vive dentro das pessoas (não é a alma dos mortos, mas a vontade dos vivos). O Padre pede auxílio a Blimunda para ver a vontade dos homens e colhê-la num frasco. Blimunda e Baltasar vão para Lisboa. Ela, para recolher as vontades e ele, para construir a passarola.
"Deus estava fora do homem e não podia estar nele, depois, pelo sacramento passou a estar nele, assim o homem é quase Deus, ou será afinal o próprio Deus, sim, sim, se em mim está Deus, eu sou Deus, sou-o de modo não trino ou quádruplo, mas uno, uno com Deus". É esta prova "sacrílega" que ensandece Bartolomeu, conduzindo-o a tentar queimar a Passarola depois de nela ter fugido, com Baltasar e Blimunda, por temer o Santo Ofício.
Se “O Ensaio sobre a cegueira” já foi adaptado ao cinema, pena é que ninguém se tenha ainda lembrado de fazer deste romance, um filme. Seria, será, digo eu, um filme grandioso, pois toda a descrição da construção do Convento, que representa o sacrifício da força humana, curvada a uma vontade individual, é fantástica. Estamos a ler e estamos a ver! Tanta gente, tanto movimento, tanto sofrimento, tanta força física e, sobretudo, interior. É necessário trabalhar para ganhar o pão e para construir o convento. Em terra sem pedras, há que transportá-las de longe, ultrapassando as próprias forças.
«Seiscentos homens agarrados desesperadamente aos doze calabres que tinham sido fixados na traseira da plataforma, seiscentos homens que sentiam, com o tempo e o esforço, ir-se-lhes aos poucos a tesura dos músculos, seiscentos homens que eram seiscentos medos de ser, agora sim, ontem aquilo foi uma brincadeira de rapazes […] »
«Um dos homens que trabalham aos calços é Francisco Marques. Provou já a sua destreza, uma curva má, duas péssimas, três piores que todas, quatro só se fôssemos doidos, e por cada uma delas vinte movimentos, tem consciência de que está a fazer bem o trabalho, por acaso agora nem pensa na mulher, a cada coisa seu tempo, toda a atenção se fixa na roda que vai começar a mover-se, que será preciso travar, não tão cedo que torne inútil o esforço que lá atrás estão fazendo os companheiros, não tão tarde que ganhe o carro velocidade e se escape ao calço. Como agora aconteceu. Distraiu-se talvez Francisco Marques, ou enxugou com o antebraço o suor da testa, ou olhou cá do alto a sua vila de Cheleiros, enfim lembrando-se da mulher, fugiu-lhe o calço da mão no preciso momento em que a plataforma deslizava, não se sabe como isto foi, apenas que o corpo está debaixo do carro esmagado […] (Cap. XIX)
A sério que não me queria alongar tanto, mas comentar este livro é irresistível. Aconselho, não resistam, leiam-no e deliciem-se com as palavras de Saramago.