Páginas

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Viajo

Viajo,
sem bagagem,
só eu.
Entram-me
nos olhos,
imagens,
daqui e dali.
E continuo,
sem paragens.

No cansaço
da travessia,
acordo do sonho,
e daqui e dali,
imagens reais,
palpáveis,
relembram-me o sonho,
no sono.

Sem bagagem,
sem bilhete,
só eu.


maria eduarda

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Da vida


daqui

Ouço os passos da noite

pesados de escuridão,

na letargia do sono.

Imóvel,

sustenho a luz

que me invade

e me liberta

para a vida.



maria eduarda

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Por inteiro


Não sei rir,

sem motivo.

Não sei partir,

estando inteira.

Não sei sofrer,

em metades.

Em tudo o que faço,

em tudo o que sinto,

sou toda,

plena de vontades.



maria eduarda

quarta-feira, janeiro 12, 2011



Lido e lindo. Na "Lei do Amor" , quando o o ódio se instala entre duas pessoas a vida vai incumbir—se de as reencarnar, de as passear pelo tempo e pelo espaço quantas vezes for necessário até que consigam amar—se.


Um romance que refere como transformar o Ódio em Amor....

terça-feira, dezembro 28, 2010

Especialmente para ti

Menino(a),

Já te dei gramática, interpretação, atenção,

Já viajei contigo através de histórias reais, de sonhos,

Já ouvi algumas queixas ou gritei por seres incorrecto,

Já te ensinei a crescer, acreditei em ti, corrigi-te, repeti,

Já recebi sorrisos teus, ingratidões,

Já me fizeste alguém maior por te conhecer…

O professor dá, dá de si, do coração, dá português ou matemática,

Mostra-te um caminho para seres homem/mulher…

Hoje, olhei o frio do outro lado da janela,

Senti a brisa do Natal a chegar com luzes, fitas coloridas, embrulhos,

Pensei na família, nos amigos, nos alunos…

Pensei que queria dar-te algo especial,

Um presente que levasses contigo pela vida fora,

Que não tivesse tamanho nem material,

Folheei o dicionário, distraída, e escolhi para ti a mais bela palavra,

Que tudo tem nela, a vida, a ilusão, o amor, uma canção.

Escolhi a palavra POEMA.

Há poemas com melodias,

Em palavras que rimam

Sem correrias,

E nos ensinam

A magia dos dias,

Nos sussurram vidas e ilusão….

Há poemas com ritmo!

Força,

Música,

Palavras com pressa,

Que gritam,

Ou marcham,

Ou apenas nos mostram,

Que depois da noite, sempre vem o dia!

Há poemas que se sentem,

Como se fossem borboletas a viver no coração,

Como se tirassem do sol um raio de luz

E nos cobrissem de brilho.

Há poemas que denunciam injustiças,

A Fome e a Guerra,

A Dor e a Violência.

Há, porém outros, que vislumbram a Esperança,

E cantam a Paz, o Amor, o Espírito, o Amanhã,

Há poemas que descrevem tão bem,

que nos fazem ver sítios ou gentes que nunca visitámos….

Escolhi, para ti, a palavra POEMA.

POEMA

Toma, é tua, leva-a com cuidado,

Shhhhhhh……………

Pega nela suavemente,

Observa-a,

Ergue-a nas tuas mãos,

Mima-a, afaga-a,

Agarra-a com força…

sábado, dezembro 25, 2010

anotando...

" (...)Vou anotando nas páginas do meu Milagrário Pessoal os factos extraordinários que me sucedem, ou de que sou involuntária testemunha, dia após dia. É um diário de prodígios. Os milagres acontecem a cada segundo. Os melhores costumam ser discretos. Os grandes são secretos.
Folheei o caderno, fui lendo ao acaso:
« Sexta-feira 28 de Agosto de 2009
Esta noite sonhei com um verso de Sophia. Sonhei que o tinha escrito eu. Fiquei tão feliz que continuei a sorrir mesmo depois de acordar. (...) "

Eduardo Agualusa, Milagrário Pessoal

domingo, dezembro 19, 2010

Do brilho


À espera do brilho

no olhar,

enquanto os olhos

revelam mil cansaços

do percurso

na escuridão.

Um dia, brilharão,

olhos lavados

em límpida água

filtrada na claridade

da luz.


maria eduarda

sexta-feira, novembro 19, 2010

A auto-crítica

Julgo-me pela sensação obrigatória de autocrítica. No início sinto que me compreendo perfeitamente. Então digo: ninguém me conhece melhor do que eu, e fico apaziguado. Depois começo a andar às voltas com a minha própria consciência e, de seguida, sou apanhado num turbilhão de sentimentos contraditórios que me afundam, dividem em dois e me tornam ambíguo. Logo de seguida, lembro-me do provérbio: para podermos julgar alguém, é necessário, antes, colocarmo-nos no seu lugar. Mas quando nos colocamos no lugar do outro, neste caso de nós próprios, sentimos exactamente o mesmo que o outro sente. Tornando, assim, o julgamento impossível. Ora, é precisamente essa incapacidade de me colocar no lugar do outro eu que me impossibilita de autocriticar-me. E volto a apaziguar-me, até recomeçar tudo novamente.


Jaime bulhosa

quarta-feira, novembro 17, 2010

Parabéns...


«Pode a distância separar-te dos teus amigos?

Se queres estar junto de alguém que amas, não te parece que já lá estarás?»


Richard Bach, Não há Longe Nem Distância...




Felizmente, as verdadeiras amizades, não dependem do espaço, nem do tempo...

Aqui fica um forte abraço à Didium,

4 dias depois do teu aniversário, fora de tempo, mas espero que ainda a tempo ;)




"Não há Longe Nem Distância":

sábado, novembro 13, 2010

livros...

No outro dia, comprei (mais) uma Alice no País das Maravilhas. Quando pedi para embrulhar o livro para oferta, a livreira perguntou: é para adulto ou para criança? Devolvi a pergunta com outra: quantos livros permitem esta dúvida, além da Alice? Não imagino alguém perguntar se Os Maias ou o Sexus são um presente para adulto ou para criança. Nem a questionar se O Pêndulo de Foucault ou as Memórias de Adriano deverão ser embrulhados com um papel repleto de ursos, balões ou rebuçados. Ou a colocar a hipótese de A República, O Estrangeiro, A Faca não corta o fogo, A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer ou o Tractatus Logico-Philosophicus serem oferecidos a uma criança. Apesar desta Alice ser para um adulto, apeteceu-me responder que era para uma criança, como se o leitor tivesse as duas idades. E fosse crescendo ou diminuindo, conforme o lado do cogumelo trincado.

Maria João Freitas

terça-feira, outubro 26, 2010

"Não é possível saber se o homem se servirá ainda muito tempo da palavra ou se recuperará pouco a pouco o hábito do uivo."
E.M.Cioran

segunda-feira, outubro 25, 2010


Sê paciente, espera que a palavra amadureça e


se desprenda como um fruto ao passar o vento que o mereça....


Eugénio De Andrade

quinta-feira, outubro 14, 2010

Obstáculos

Este texto que estou a reproduzir aqui não é na realidade um conto, mas antes uma meditação guiada, delineada em forma de sonho destinado a explorar as verdadeiras razões de alguns dos nossos fracassos. Permito-me sugerir-lhe que o leia atentamente, tentando deter-se uns instantes em cada frase, visualizando cada situação.

Vou caminhando por uma vereda.

Deixo que os meus pés me levem.

Os meus olhos pousam-se nas árvores, nos pássaros, nas pedras.

No horizonte recorta-se a silhueta de uma cidade.

Fixo nela o olhar para a distinguir bem.

Sinto que a cidade me atrai.

Sem saber como, dou-me conta de que nesta cidade posso encontrar tudo o que desejo.

Todas as minhas metas, os meus objectivos e os meus logros.

As minhas ambições e os meus sonhos estão nesta cidade.

Aquilo que quero conseguir, aquilo de que necessito, aquilo

que eu mais gostaria de ser, aquilo a que aspiro, aquilo que tento, aquilo pelo que trabalho, aquilo que sempre ambicionei, aquilo que seria o maior dos meus êxitos.

Imagino que tudo está nessa cidade.

Sem duvidar, começo a caminhar até ela.

Pouco depois de começar a andar, a vereda põe-se a subir pela encosta acima.

Canso-me um pouco, mas não importa.

Sigo.

Avisto uma sombra negra, mais adiante, no caminho.

Ao aproximar-me, vejo que uma enorme vala impede a minha passagem.

Receio… Duvido.

Desgosta-me não conseguir alcançar a minha meta facilmente.

De todas as maneiras, decido saltar a vala.

Retrocedo, tomo impulso e salto…

Consigo passá-la.

Recomponho-me e continuo a caminhar.

Uns metros mais adiante, aparece outra vala.

Volto a tomar impulso e também a salto.

Corro até à cidade: o caminho parece desimpedido.

Surpreende-me um abismo que detém o meu caminho.

Detenho-me.

É impossível saltá-lo.

Vejo que num dos lados há tábuas, pregos e ferramentas.

Dou-me conta de que estão ali para construir uma ponte.

Nunca fui habilidoso com as minhas mãos…

… penso em renunciar.

Olho para a meta que desejo… e resisto.

Começo a construir a ponte.

Passam horas, dias, meses.

A ponte está feita.

Emocionado, atravesso-a e ao chegar ao outro lado… descubro o muro.

Um gigantesco muro frio e húmido rodeia a cidade dos meus sonhos…

Sinto-me abatido…

Procuro a maneira de o evitar.

Não há forma.

Tenho de o escalar.

A cidade está tão perto…

Não deixarei que o muro impeça a minha passagem.

Proponho-me trepar.

Descanso uns minutos e tomo ar…

Rapidamente vejo,

de um lado do caminho,

uma criança que olha para mim como se me conhecesse.

Sorri-me com cumplicidade.

Faz-me vir à memória como eu próprio era… quando criança.

Talvez por isso me atrevo a expressar em voz alta a minha queixa.

— Porquê tantos obstáculos entre o meu objectivo e eu?

A criança encolhe os ombros e responde-me.

— Porque mo perguntas a mim?

Os obstáculos não existiam antes de tu chegares…

Foste tu que trouxeste os obstáculos.

Jorge Bucay
"Contos para pensar"

terça-feira, outubro 12, 2010

.. os músculos das palavras?

As palavras pedra ou faca ou maçã, palavras concretas, são bem mais fortes, poeticamente, do que tristeza, melancolia ou saudade. Mas é impossível não expressar a subjetividade. Então, a obrigação do poeta é expressar a subjetividade mas não diretamente. Ele não tem que dizer eu estou triste. Ele tem é que encontrar uma imagem que dê idéia de tristeza ou do estado de espírito - seja ele qual for - por meio de palavras concretas e não simplesmente se confessando na base do eu estou triste.

João Cabral de Melo Neto

quinta-feira, outubro 07, 2010

Com sentir


Na medida do sentir,
surge a reacção,
às vezes irreflectida,
às vezes grotesca,
às vezes calorosa.
Mas, no sentir imenso,
profundo, pensado,
às vezes o nada
acontece no vazio,
fruto do pensar
que em chão árido,
só sobrevive a flor
que poucos vêem
dentro de nós.

maria eduarda

Prémio Nobel da Literatura 2010

Mario Vargas Llosa
Mario Vargas Llosa (Reuters)

“Muito comovido e entusiasmado.” Assim se sentiu Vargas Llosa ao saber que era seu o Nobel da Literatura deste ano. Foram as primeiras declarações do escritor, feitas à agência de notícias peruana Andina e citadas pela Lusa.Vargas Llosa está em Manhattan, onde se encontra durante o período em que está a leccionar na Universidade de Princeton, soube o PÚBLICO na Feira do Livro de Frankfurt. "Todos os anos ele sonhava com isto e sempre lhe dissémos que era este o ano", comentava a directora de marketing da Alfaguara (do grupo Santillana), Angeles Aguilera, ao PÚBLICO.

O peruano, de 74 anos, foi distinguido "pela sua cartografia das estruturas de poder e pelas suas imagens mordazes da resistência, revolta e derrota dos indivíduos", justifica a Academia em comunciado divulgado poucos minutos após o anúncio do Nobel.

As Publicações Dom Quixote, editora da maior parte da obra do escritor em Portugal, congratularam-se pela distinção em comunicado. "Depois de vários anos em que o seu nome foi sucessivamente apontado como vencedor do Nobel", lê-se, "a Academia Sueca decidiu, finalmente, premiar a obra de Vargas Llosa, conhecida e admirada em todo o mundo."

Francisco José Viegas, director editorial da Quetzal, que publicará em 2011 o mais recente romance do escritor, considerou a escolha "absolutamente inesperada", isto, "tendo em conta a tradição dos últimos anos, pelo menos, ou das últimas décadas, do Nobel". Em declarações à Lusa desde Frankfurt, onde acompanha a feira do livro da cidade alemã, Francisco José Viegas definiu Mario Vargas Llosa como um autor que "estuda o poder, estuda as formas de poder, as formas de exercício do poder e também estuda um pouco aquilo que é a memória revolucionária da América Latina”. A atribuição do Prémio Nobel da Literatura a Mario Vargas Llosa é “um grande incentivo” a todos os que se preocupam com os países onde não há democracia ou a liberdade está ameaçada”, disse o filho do escritor
O escritor peruano Mario Vargas Llosa é o Prémio Nobel da Literatura de 2010, foi anunciado hoje em Estocolmo pela Academia Sueca.

quarta-feira, outubro 06, 2010

Dias cinzentos...


No dia cinzento a rua antiga, já descolorada, parece mais escura sob a sombra das árvores (que se sabe estar lá em dias de sol).


Olho para a padaria antiga, de vidro turvo, e ao fundo vejo a padeira, rugosa e encarquilhada, de cabelos grisalhos e com um avental tão branco que me faz parar, entrar e levar um bolos tão duros como a própria vida ante neblina, tão doces, como a poesia colada ao pormenores dos dias escuros…
Dinamene

quinta-feira, setembro 30, 2010

Reconstruir as ruínas imensas que nos rodeiam

Algumas vezes sabemos, dentro de nós, que devemos fazer qualquer coisa semelhante a plantar uma árvore, mesmo sabendo que nunca comeremos dos seus frutos, nem descansaremos à sua sombra.
Ou descobrimos que devemos aplicar-nos, não tanto ao nosso pequeno problema, mas a reconstruir as ruínas imensas que nos rodeiam.
E nunca, como então, somos tão grandes. E nunca, como então, estamos tão perto de nós mesmos.
Paulo Geraldo

quarta-feira, setembro 22, 2010

Sensatez


Chegada a altura,
parte sem passos,
voa sem asas,
mas relembra
sem dores.
Cresce na mudança,
amacia o silêncio,
e fala baixinho,
pausadamente,
para que as aves
não levem o sonho
em direcção ao Sul.

maria eduarda

domingo, setembro 19, 2010

Diário de barro

O princípio de algo muito desconhecido não é forçosamente favorável à alma humana, oferece demasiada relatividade e é quase sem referências. O que está fora deste corpo é-me tão longínquo neste momento, que parece irreal de tão não familiar.
Para absurdidade, basta estar aqui lançada numa rua desconhecida e comprida, tendo como paisagem frontal um depósito atarracado de água entre uns parcos bancos de jardim desajeitadamente intencional.
...   as primeira impressões são analíticas e mal humoradas, ainda que o espírito sensato busque desesperadamente o equilíbrio harmónico (todos os anos no fim do verão, este desenlace com o habitual acontece-me).
Sentada à mesa, do lado direito existe uma lareira a usar e em frente uma porta imensa cheia de vidros, onde se esbate o meu reflexo também sentado...acho que é o único sinal de vida aqui existente, a simplicidade sombria de uma forasteira. O demais está acalentado por um cheiro de estranheza.
Vejo o dito espaço de cama e as sempre mesinhas aos pares, a soletrarem só os humanos são gares onde se penduram solidões como tiras de corpos e eu, sempre sem adivinhar por onde sair para o dia lá fora aqui dentro, se pela direita num namoro ao desalinho dos cds, se pela esquerda agarrada à ideia de não tropeçar na cauda do candeeiro domesticado pelas riscas do tapete.
“ Barco do Amor, Barco do Amor”... o quarto sem mais passageiros que eu imaginando. A sua acastanhada quadratura atada à memória de um outro outono num outro acastanhado quarto de uma outra rua num outro canto do país com outras amabilidades e outros cantos de boca a jorrarem legendas.
Os passos não retidos no tempo a tornarem-me oleira... não aprecio viver com o passado aconchegado, como um pescoço antigo no seu cachecol de lã, se o não posso tornar presente entre os dedos estremecidos de agora.
É outro alguém que lá está, no reflexo dos vidros em frente – imagino a sua história de vida ... algures.
Peço emprestado - mal me envolvi com o não saber de mim aflita com o pensamento e tudo fora de sítio – um rádio de qualquer tamanho (como quem anseia por uma refeição farta, a três quartos de uma grande viajem) para precisamente, localizar-me nalguma melodia!
Que fazer dos dias a presentear ao vento, ao vento que não varre a soleira da porta que dá para onde ?
“ É por tudo o que em nós corre que se vive e que se morre”, cantarolo uma música...

1 Setembro, Almeirm,  anos noventas
Diário de Barro